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A adulteração da infância

Arquivo 08/03/2010

Dioclécio Campos Júnior

Médico, professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria — dicampos@terra.com.br

A infância é um ciclo de vida em risco de extinção. Evidências sobejas demonstram o efeito danoso da modernidade sobre esse período existencial. A criança desfigura-se no contexto avassalador da economia de negócios. Perde a essência diferenciada que a distingue. Dissolve-se num meio ambiente desfavorável. Anula-se no vendaval dos interesses consumistas que comandam a orquestra regida pelos maestros do mundo econômico.

O Brasil investe três vezes mais na terceira idade que na criança. A senectude está presente no orçamento nacional. A infância não. A velhice expande prestígio. A garotada encolhe-se progressivamente. Como nunca foi prioridade, continua inexpressiva. Na insignificância em que sobrevive, sua originalidade evapora. Seu brilho é passageiro. Seus pendores, fugazes.

Os centros urbanos ignoram os moradores infantis. O automóvel é o habitante privilegiado. Tem caminhos próprios, bem traçados. Dispõe até de garagem segura para passar a noite. Os animais domésticos contam com vias floridas para bucólicos passeios diários, durante os quais evacuam e urinam prazerosamente no tronco de frondosas árvores ou em verdejantes gramados. Os cidadãos idosos fazem-se acompanhar de cuidadores para apoiá-los em deslocamentos saudáveis ao longo de caminhadas estimulantes, ou conduzi-los na cadeira de rodas, a substituta do carro que sempre usavam para locomover-se quando em fase ativa de vida. A criança não tem lugar próprio. Salvo algum parquinho, o diminutivo apropriado à restrição espacial em que os pequenos ficam ilhados ao lado de perdidas babás, balançando-se em geringonças perigosas, junto a cachorrinhos amigos que contaminam a areia e lhes transmitem doenças diversas, nem sempre benignas.

A infância desaparece no cenário econômico da sociedade capitalista. A sanha empresarial descobriu que a meninada é uma mina de dinheiro. Uma fonte de negócios a ser explorada com a competência do marketing, a força pandêmica do consumo e a inescrupulosa falta de limite ético. Sem anunciar a estratégia, executou-a insidiosamente, consolidando-a como atividade atraente, capaz de gerar lucros fabulosos.

A alma do novo negócio está no falso conceito de que a criança é miniatura do adulto. A criatura infantil foi literalmente adulterada para assemelhar-se ao adulto. A começar pelas vestes, submetidas à lógica mercantilista da moda. São roupas iguais às de gente grande. Diferem apenas no tamanho. As meninas usam decotes arrojados, calças ajustadas aos corpinhos em formação. Sapatos de design avançado, com saltos que já acentuam a lordose lombar. Maquiagem abusiva, batons que buscam dar aparência sensual aos lábios da ingenuidade. Cabelos penteados em salões de beleza com a artificialidade dos camarins. Esmalte de cores excêntricas a ocultar a naturalidade do leito ungueal.

Muitas já são iniciadas na carreira de modelo, sonhando em ser minimisses internacionais. Os meninos trajam bermudas de adolescente ou camisetas das grifes de adulto. Usam tênis como o dos pais e cortes de cabelo estilo punk. Portam brincos nas orelhas e exibem na pele os ensaios preliminares de futuras tatuagens. Desde cedo, as criaturinhas são seduzidas pelo som das músicas erotizantes e treinadas a embalar o gestual sexy que os familiares deslumbrados filmam na profusão vertiginosa das câmeras digitais.

Toda iniciativa econômica tem o lado nocivo com o qual os economistas raramente se preocupam. A adulteração da infância pode estar na gênese de poluição moral alarmante. Ao mesmo tempo em que o lucrativo negócio expõe a sensualidade das miniaturas de adulto, cresce o noticiário da pedofilia, da prostituição infantil, da violência sexual contra crianças. A relação de causa e efeito não pode ser descartada.

Infância é tempo projetado para o ser humano viver na dimensão do lúdico, da liberdade criativa, do riso solto, da imaginação livre. Brincar é doce magia que encanta o roteiro da evolução infantil. Não é apenas consumir brinquedos que a indústria produz para entulhar o quarto das crianças e endinheirar o bolso dos empresários. Não é crescer em brinquedotecas insalubres, entregues a cuidados terceirizados. Nem reféns da virtualidade televisiva.

O mundo infantil está seriamente ameaçado. Pede socorro. Nunca o diálogo entre os dois personagens centrais do Sítio do pica-pau amarelo foi tão atual. Emília diz: “Pedrinho, nós precisamos mudar o mundo”. “Nós quem, Emília?”, pergunta o garoto. “Nós, as crianças, nós que temos imaginação”, explica a brasileirinha saudável.