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Amamentação deve ter início logo após o parto

Arquivo 06/08/2007

Ideal é nas primeiras 6 horas, segundo pesquisa

Ricardo Westin

Para que tenham um crescimento saudável, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ensina que os bebês devem receber o leite materno pelo menos até os 2 anos, e esse deve ser o único alimento até os 6 meses. Uma pesquisa brasileira recém-divulgada mostra que essa receita de saúde é mais facilmente seguida quando a primeira mamada ocorre logo nos momentos seguintes ao parto.

Cerca de 250 mulheres grávidas da cidade de Itaúna (MG) foram acompanhadas pelos pesquisadores até que seus filhos completassem 1 ano. A conclusão foi publicada na edição de junho do Jornal de Pediatria: bebês que chegam ao peito da mãe muito tempo depois do parto – seis horas ou mais – têm duas vezes mais chances de sofrerem desmame precoce.

“O desmame ocorre quando a mãe pára de dar o peito – ela trabalha fora, toma medicamento contra-indicado na amamentação ou tem problema na mama – ou quando o próprio bebê se desinteressa. A hora da primeira mamada está comprovadamente associada ao momento do desmame”, explica o pediatra Roberto Gomes Chaves, professor da Universidade de Itaúna e membro da Sociedade Mineira de Pediatria. Ele conduziu o estudo ao lado de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os pesquisadores analisaram os cerca de 50 fatores que a literatura médica associa ao desmame antes do tempo e concluíram que no Brasil são cinco os principais, na seguinte ordem: o uso da chupeta, a primeira mamada após seis horas, a mãe que fuma ou bebe, a mãe com menos de 20 anos e a realização de menos de cinco consultas médicas no pré-natal.

Amanhã termina a Semana Mundial da Amamentação. Por todo o País, governos organizaram palestras para as famílias e cursos para profissionais de saúde. Entidades que congregam mães, como a Matrice, de São Paulo, fizeram panfletagens e passeatas. O Ministério da Saúde lançou uma campanha protagonizada pelo casal Thiago Lacerda e Vanessa Lóes e seu filho recém-nascido. Esses tipos de campanhas são importantes porque poucas mães seguem a receita dos dois anos. Em Itaúna, segundo o estudo, a maioria dos desmames ocorreu muito antes do tempo – em média 237 dias (oito meses) após o parto.

O benefício mais conhecido do leite materno é o nutricional. Até os 6 meses, o bebê encontra todos os nutrientes de que necessita no leite da mãe. Água, chás e sucos nesse período elevam o risco de infecções e dificultam a absorção dos minerais do leite pelo organismo do bebê. A amamentação ajuda no desenvolvimento da afetividade – em razão do contato com a mãe – e da inteligência.

O leite materno também é uma espécie de medicamento. Ao fornecer os primeiros anticorpos, protege a criança contra doenças que podem até matar. Um estudo divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na semana passada mostrou que em Gana, na África, a amamentação na primeira hora reduz em 22% a mortalidade de recém-nascidos.

A própria mãe se beneficia. A sucção estimula a liberação de hormônios que contraem o útero e assim previnem hemorragias decorrentes do parto. “Mesmo nos casos em que o bebê não consegue mamar, é importante que ele fique perto do peito, em contato com a mãe”, diz a médica Graciete Vieira, responsável pelo Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria.

EM CASA

Um dos objetivos das entidades que defendem a amamentação logo depois do parto é mudar o comportamento das equipes de saúde que insistem em separar mãe e bebê logo depois do nascimento.

Foi justamente por ter passado por essa situação com a primeira filha que Thaís Saito, de 25 anos, decidiu ter os outros dois filhos em casa. “Achava que era normal levarem o bebê logo para o berçário. Depois comecei a ler sobre o assunto e vi que não poderia abrir mão de ficar com ele.” O caçula, José Lucas, nasceu há duas semanas, em São Paulo. “Ele foi colocado no meu colo assim que nasceu. E veio logo procurando (o peito) com a boquinha.”

Para que os bebês se alimentem exclusivamente do leite materno até os seis meses, é necessário que o período em que a mãe pode ficar afastada do trabalho após o parto aumente de quatro para seis meses. Essa mudança é defendida pelo Ministério da Saúde e por entidades como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Um projeto de lei que aumentaria em todo o País o período da licença-maternidade está tramitando no Senado.