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Audição e Aprendizagem

Arquivo 18/03/2014

Berenice Dias Ramos, presidente do Departamento Científico de Otorrinolaringologia da SBP

audição apredizagemAs dificuldades de aprendizagem na escola são muito frequentes e, na maioria das vezes, estão relacionadas ao desempenho na leitura e na escrita, tanto na forma, como no conteúdo. Em alguns casos, os déficits escolares podem ser superados, em curto espaço de tempo, com algumas orientações, pois se devem a uma metodologia de ensino inadequada. No entanto, um número expressivo de crianças apresenta um transtorno específico da aprendizagem e merece uma avaliação mais cuidadosa em busca de um melhor diagnóstico, no sentido de identificarmos a maneira mais adequada de ajudá-las. Muitas vezes, tais crianças são consideradas desinteressadas, não só pelos professores, mas também pelos próprios pais, podendo ser chamadas de preguiçosas ou, pior ainda, de pouco inteligentes; e este rótulo, além de não contribuir, pode trazer consequências negativas para seu desenvolvimento emocional e para o processo terapêutico.

Uma criança que apresente dificuldade específica para números e cálculos matemáticos (discalculia do desenvolvimento), por exemplo, fará pensar em problemas de atenção e/ou memória se não encontrar pelo menos um profissional que saiba que este transtorno existe e que merece um atendimento especializado. Mais frequente ainda, o transtorno específico da leitura (dislexia do desenvolvimento), que afeta 2 a 5 % da população, dependendo da classificação utilizada, pode ter um prognóstico muito melhor, quando é diagnosticado tão logo surjam as primeiras dificuldades.

Uma audição normal é extremamente importante para o desenvolvimento da leitura e da escrita, pois a base da leitura é o conhecimento de que cada letra corresponde a um som. Nos recém-nascidos, a prevalência de deficiência auditiva é de cerca de um em cada mil nascimentos. A realização do Teste da Orelhinha ajuda a identificar crianças que nascem com perda auditiva, possibilitando um atendimento desde os primeiros meses de vida. No entanto, algumas vezes, a criança nasce com audição normal, mas apresenta uma perda congênita progressiva que pode prejudicar o aprendizado. Mais frequente ainda é a perda auditiva leve ou moderada decorrente de otite média.

A incidência de otite média está aumentando como resultado do maior ingresso, e cada vez mais precoce, nos berçários e creches. Considerando que uma criança que frequente creche pode apresentar cerca de 10 infecções virais ao ano e que, conforme estudos recentes, mais de 50% podem ser complicadas por uma otite média, é extremamente importante que tenha sua audição reavaliada ao iniciar o período escolar, mesmo que o resultado do Teste da Orelhinha tenha sido normal e que os pais acreditem que ela ouve bem.

Geralmente, a criança que apresentou vários episódios de otite média nos dois primeiros anos de vida normaliza completamente a audição quando ocorre a cura da doença, no entanto, o processamento auditivo pode permanecer alterado, provocando transtornos da aprendizagem. Estudos realizados nos Estados Unidos revelaram 2 a 5% de incidência de transtorno do processamento auditivo entre escolares.

Uma boa audição e um bom processamento auditivo são extremamente importantes numa sala de aula, por exemplo, em que o aluno deve focar a atenção no que é dito pelo professor e ignorar qualquer outro estímulo que possa interferir negativamente na escuta: conversa dos colegas, arrastar de cadeiras, passos no corredor, barulho do ventilador, buzinas na rua ou gritaria no pátio da escola. A criança que apresenta processamento auditivo central normal entenderá a professora com facilidade, enquanto a que tem alteração da audição ou do processamento poderá ter dificuldade em compreender o que está sendo dito, o que pode interferir negativamente no seu processo de aprendizagem.

Sempre que um escolar apresentar transtorno da aprendizagem deve ser incluída na bateria de exames uma avaliação da audição e do processamento auditivo, antes que se inicie qualquer tipo de atendimento. Quando identificamos a causa, a terapia especifica para o problema é muito mais rápida e eficaz.