carregando...

Bebê brasileiro toma só leite materno por apenas dois meses

Arquivo 01/08/2008

Apesar de o próprio governo defender os seis meses de amamentação, mulheres têm apenas quatro meses de licença-maternidade

RICARDO WESTIN
DA REPORTAGEM LOCAL

Os bebês brasileiros são alimentados exclusivamente com o leite de suas mães em média até os dois meses de vida, revela uma pesquisa com cerca de 5.000 crianças realizada em 2006 por encomenda do Ministério da Saúde. Dez anos antes, os bebês alimentavam-se exclusivamente do leite materno só durante o primeiro mês.

O tempo, apesar de ter dobrado, é baixo. A OMS (Organização Mundial da Saúde) faz campanhas insistindo para que os bebês sejam alimentados com o leite, e nada mais, até os seis meses. Enquanto mamam, não precisam nem de água.

Hoje tem início a Semana Mundial da Amamentação, que tem como objetivo disseminar a importância dos seis meses.

O leite materno oferece às crianças os nutrientes e anticorpos necessários para que cresçam com saúde (veja os benefícios em quadro ao lado).

Vários fatores levam aos pífios dois meses de aleitamento exclusivo no Brasil. Um deles é o mercado de trabalho. Apesar de o próprio governo defender os seis meses de amamentação, a lei trabalhista só dá quatro meses de licença-maternidade.

Também favorece o desmame precoce o fato de poucas empresas oferecerem creches aos filhos das funcionárias. Com uma creche perto, poderiam sair para amamentar seus bebês durante o expediente.

Nesses casos, os pediatras recomendam que se armazene o leite na geladeira, para ser dado aos bebês quando as mães estiverem fora.

Certas crenças também atrapalham. “Existe muita insegurança materna. Algumas mães acham que o leite não hidrata o suficiente ou que não são capazes de produzir todo o leite de que a criança precisa”, afirma Elsa Giugliani, responsável no Ministério da Saúde pelos temas de saúde infantil.
A médica Graciete Vieira, da Sociedade Brasileira de Pediatria, lembra o mito de que chazinhos são bons contra cólicas. “Não é verdade. A água aumenta o risco de contaminação.”
Uma pesquisa feita em Feira de Santana (BA), em 2004, com 1.370 mulheres que haviam acabado de dar à luz mostrou que perto de 50% nem sabiam quanto tempo pretendiam amamentar. Do total, cerca de 30% admitiram a intenção de dar água, chá ou suco nos primeiros meses.

Para Maria Lúcia Futuro, da ONG Amigas do Peito, deve-se trabalhar com a conscientização das crianças na escola. “Na loja de brinquedo, é impossível encontrar uma boneca que não venha com mamadeira. Nos desenhos e nos livros infantis, é a mesma coisa. Como a criança pode formar um conceito favorável à amamentação?”

A OMS recomenda que, aos seis meses, as crianças comecem a receber outros alimentos, mas que o leite continue sendo dado até os dois anos.

Segundo mostrou a pesquisa do Ministério da Saúde feita em 2006, no entanto, o período de aleitamento total no país, em vez dos 24 meses recomendados, é de apenas nove meses.
Nesse caso, os médicos costumam ser mais flexíveis -dizem que não há prejuízo para os bebês. “As mulheres não precisam se sentir culpadas se não conseguirem amamentar até os dois anos”, diz Tânia Page, pediatra da maternidade Sinhá Junqueira, de Ribeirão Preto (SP). “O mais importante é que, até os seis meses, o leite seja o único alimento.”

PROJETO

EMPRESA QUE AMPLIAR LICENÇA PODERÁ TER BENEFÍCIO

Está em tramitação no Congresso Nacional um projeto de lei que oferece incentivos fiscais às empresas que ampliarem a licença-maternidade de suas funcionárias de quatro para seis meses. O projeto, da senadora Patrícia Saboya (PDT-CE), já passou pelo Senado e por duas comissões da Câmara dos Deputados. A adesão seria voluntária, por parte tanto da empresa quanto da funcionária. Dez Estados, como São Paulo, e diversos municípios já têm leis que dão a licença de seis meses às suas funcionárias públicas.

Bebê que mamou só até os cinco meses adoeceu quando mãe voltou a trabalhar

JULIANA COISSI
EM SÃO PAULO

Em Guaianases (zona leste), a faxineira Adelma Oliveira de Carvalho, 40, viveu o melhor dos mundos para uma mãe até os cinco meses da filha Isabela. Conseguiu juntar o mês de férias aos quatro meses da licença-maternidade. “Ela era muito gulosa, mamava o dia inteiro.” A harmonia terminou quando Adelma teve de voltar ao trabalho. Hoje, a amamentação só acontece às 6h e à meia-noite. Mãe e filha sentiram o peso da “separação”. “Eu fiquei doente e ela também. Eu não conseguia comer, tinha dores de cabeça e meu peito doía muito. Minha filha perdeu um quilo, ficou doentinha.” Claudia Giomo, 34, não passou por isso. Funcionária de um laboratório de remédios, ela pôde levar Júlia, hoje com sete meses, para a creche da empresa assim que terminou a licença-maternidade. “Quando sinto o leite descer na mama, não passam dez minutos e o pessoal da creche liga para dizer que ela está chorosa, querendo mamar”, conta. A Eurofarma, onde Claudia trabalha, recentemente estendeu a licença-maternidade de quatro para seis meses.

Colaborou RICARDO WESTIN, da Reportagem Local