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Bônus para residência médica gera polêmica

Arquivo 17/10/2011

Universidades são contra programa federal de aumento na nota de alunos de Medicina que aceitarem trabalho em áreas pobres

Sérgio Roxo
sergio.roxo@sp.oglobo.com.br

SÃO PAULO. O programa federal que pretende levar médicos recém-formados para trabalhar em regiões carentes do país causou uma batalha entre dirigentes universitários e o governo. O programa concede bônus nas notas das provas de ingresso nos cursos de residência médica a alunos que aceitarem trabalhar em áreas pobres.

Entidades de classe também entraram na polêmica. Os críticos da medida alegam que ela interfere na autonomia universitária. Também duvidam que a medida conseguirá atingir o seu objetivo de solucionar um dos principais problemas da Saúde brasileira: suprir a carência de profissionais na periferia das grandes cidades e em municípios pobres.

O programa abrirá duas mil vagas a partir de 2012, e os médicos que trabalharem por um ano nas regiões a serem definidas terão 10% de bônus na prova de residência, além do salário pago pelas prefeituras. Os novos profissionais que ficarem dois anos terão 20% de bônus. O curso de residência dá ao médico o título de especialista e é bastante disputado, com dez mil postos para 13.800 formandos por ano (…) Leia mais!

 

CORPO A CORPO – João Paulo Lotufo

‘Quem é bom vai ser desestimulado’

SÃO PAULO. Acostumado a lidar com recém-formados, João Paulo Lotufo, médico assistente do Hospital Universitário da USP, aponta problemas no programa federal para suprir carência em áreas pobres.

Como avalia o programa?

JOÃO PAULO LOTUFO: Estive há dois dias num congresso e a Sociedade Brasileira de Pediatria se posicionou contra esse programa. Não é assim que vai se resolver a ausência de médico nas regiões carentes. Os médicos não querem trabalhar nesses locais por causa das péssimas condições de estrutura. Não há como fazer exame, não tem máquina de raio-X, não tem laboratório. O médico não tem o que fazer num local assim. Não pode oferecer o atendimento adequado para a população.

O médico recém-formado está preparado para atender à população?

LOTUFO: Com certeza, não. Não tem experiência. O recém-formado tem uma condição muito ruim, e estou falando da USP. Imagine de outras faculdades. O residente tem que estudar dois anos, depois da faculdade, para ser clínico. Ou estudar dois anos para ser pediatra. Não há como fazer atendimento sem supervisão de um profissional experiente imediatamente depois de sair da faculdade.

O programa prevê um supervisionamento à distância.

LOTUFO: Isso é fantasia pura. Medicina se aprende com a pessoa do seu lado para poder ver exames e indicar procedimentos. Os nossos residentes na USP têm supervisão 24 horas por dia para qualquer atendimento. Há discussão para todos os diagnósticos que são feitos.

Como o senhor vê a questão do bônus?

LOTUFO: Não tem sentido. Fere a autonomia universitária. O Hospital das Clínicas (da USP) já anunciou que não vai aceitar, e está correto. Você acaba prejudicando o aluno bem formado em detrimento de quem está no programa. O bom estudante vai ser desestimulado a se dedicar.

O que é preciso para atrair os médicos para essas regiões carentes?

LOTUFO: É preciso pagar bons salários e dar estrutura adequada. Se a pessoa for bem remunerada, vai querer morar no interior.

Em que fase da carreira o médico deve ir trabalhar nessas regiões?

LOTUFO: O aluno deveria ir depois da residência para essas regiões, já com a formação médica completa, com um salário adequado.

 

CORPO A CORPO – Derly da Silva Streit

‘O aluno vai precisar de desempenho’

SÃO PAULO. Diretora executiva da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Derly da Silva Streit representou a entidade nas discussões da criação do programa e vê pontos positivos na iniciativa do governo (…) Leia mais!