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Crianças que viverão 100 anos

Arquivo 21/10/2009

Brasília, terça-feira, 20 de outubro de 2009

· Dioclécio Campos Júnior

Médico, é professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br

O aumento da esperança de vida ao nascer é um dos indicadores mais objetivos de evolução da sociedade humana. Reflete o resultado de profundas transformações ocorridas nos hábitos e condições de vida da espécie homo sapiens, particularmente na era industrial de sua história. Testemunha o manancial de benefícios que a ciência sempre trouxe para a humanidade, a par das barbáries que seu uso perverso tem provocado, carcomendo as entranhas e maculando a alma da civilização.

Mas a esperança de vida não para de crescer. No Brasil, a conquista salta aos olhos. Os dados do IBGE são impressionantes. Em 1910, a expectativa de vida de um homem brasileiro era de 33,4 anos. Em 2000, aumentou para 64,8 anos. Em 2007, chegou a 72,3 anos. É a contínua progressão que projeta tempo existencial antes inimaginável. A realização de parte do sonho embalado pela utopia dos alquimistas que buscavam, na pedra filosofal, a fonte do elixir da longa vida.

Ao final do século 20, acumulou-se farta evidência científica a mostrar que várias doenças da idade adulta têm origem na infância. São exemplos, a obesidade, a hipertensão arterial, o diabetes, a doença coronariana, entre outras. A fantástica descoberta requer inversão das prioridades até então definidas no âmbito das políticas públicas de saúde da maioria dos países. A infância ganha prestígio. A neurociência demonstra que essa é a fase de maior elaboração construtiva do cérebro, estrutura orgânica de cuja dinâmica diferenciada dependem a expressão da personalidade, a aprendizagem, o desenvolvimento mental e o perfil de comportamento que deriva das originalidades potenciais do indivíduo, presentes ao nascimento. A epigenética, ramo da ciência que estuda as influências do meio ambiente sobre a expressão das características genéticas do indivíduo, traz novidades fascinantes. Revela que a interação equilibrada desses dois componentes, nos primeiros meses de vida, reforça as bases do futuro saudável.

Não resta mais dúvida de que saúde e educação são indissociáveis. Quando devidamente integradas no espaço e no tempo, seus efeitos positivos são sinérgicos. Quando asseguradas em plenitude, desde a primeira infância, promovem gerações cada vez mais saudáveis, indivíduos produtivos, adultos sadios, cidadãos equilibrados. O valor da criança adquire relevo. A ciência é hoje a maior aliada e defensora dessa causa. Os argumentos são seguros, claros, incontestáveis. A sociedade que não atentar para tal mudança de paradigma perderá o bonde da história. Ficará no atraso. Investirá sem retorno. Consumirá orçamentos crescentes para tratar doenças evitáveis.

O Brasil precisa dar prioridade ao investimento na primeira infância. Apesar de todos os programas por meio dos quais distribui parte da riqueza nacional, as iniquidades persistem sem perspectiva de reversão em curto prazo. Estudo divulgado pela Fundação Getulio Vargas demonstra que a terceira idade é hoje 10 vezes menos pobre que as crianças. De fato, as rubricas escolhidas para aplicação dos recursos orçamentários ignoram a infância, situam-se na contramão das evidências científicas. É uma posição equivocada para um país que pretende despontar como exemplo de cidadania. Inverter a lógica desse modelo é inadiável, sob pena de fazer a sociedade submergir nas profundezas do conservadorismo estagnante. A primazia dos cuidados com a saúde e a educação do ser humano em crescimento e desenvolvimento é a estratégia para desencadear a revolução capaz de corrigir as diferenças sociais que discriminam cidadãos.

As crianças que nascem nos dias de hoje poderão viver 100 anos. A estimativa advém de pesquisas confiáveis. É a esperança de vida das próximas gerações. Para alcançá-la, será necessário rever atitudes de governos e políticas públicas em vigor. A taxa de fertilidade declinou muito. O número de crianças por família não passa de dois. A assistência médica à saúde da infância e adolescência exige qualidade. Não pode ser banalizada. O acesso à pediatria é um direito a ser garantido a crianças e adolescentes, sem qualquer distinção. O pediatra do novo milênio tem muito mais tarefas educativas e preventivas do que curativas. A remuneração que recebe indica o valor que a sociedade atribui à infância e à adolescência. No momento, é quase nenhum. Mas, diante da constatação de que o adulto só será saudável se a infância for bem cuidada, urge mudar a lógica atual de atenção à saúde. Ou valoriza a criança e seus cuidadores ou a degradação social inviabilizará o país.

Editor: Dad Squarisi // dadsquarisi.df@diariosassociados.com.br