carregando...

Educação, saúde e economia

Arquivo 24/11/2009

Dioclécio Campos Júnior

Médico, professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br

Quanto mais a humanidade cresce em população e complexidade, mais claras ficam as relações entre os diversos setores da sociedade. São os efeitos positivos do processo de globalização que não tem mais volta.

A integração de conhecimentos oriundos de realidades distintas, antes pouco valorizadas, renova conceitos, fortalece a lógica das evidências científicas. Revela interfaces entre grandezas, produtos, serviços e fatores até então entendidos como completamente dissociados. É a doutrina da nova era civilizatória a projetar interdependências sem as quais a evolução social deixará de existir.

O dinamismo do período industrial da vida humana foi o grande móvel das mudanças mais profundas que a história já conheceu. Transformou hábitos, revolucionou crenças, rompeu dogmas, liberou originalidades criativas represadas pelo atraso. A produção científica ganhou escala vertiginosa. Passou a requerer o ressurgimento do processo de síntese, a base das grandes teorias de conhecimento cujas ousadias advêm da sistematização de descobertas aparentemente desconexas.

As configurações demográficas do novo milênio refletem o resultado da ação multifatorial de cenários favoráveis à sobrevivência da espécie no planeta. O declínio do nascimento de crianças na maioria dos países sinalizou boas novas para a economia. No entanto, observações mais recentes mostram a existência de ponto de equilíbrio que não pode ser rompido. É o limite da viabilidade econômica da sociedade. A taxa de fertilidade inferior a 2,1 é incompatível com os requisitos econômicos que sustentam a ordem social. A busca de tal equilíbrio tem de ser a meta prioritária para as políticas públicas. O Brasil ingressa na zona de risco com a sua atual taxa de fertilidade de 1,8. Demografia e economia são inseparáveis.

O investimento em saúde, fortemente defendido no século 20 como estratégia para promoção de vida saudável, portanto produtiva, foi assumido como política de Estado em muitas nações. Os frutos colhidos são incontáveis. O aumento da expectativa de vida ao nascer é o mais visível. De 1910 até os dias de hoje, o indicador passou de 33,4 para 72,3 anos no Brasil. Vale dizer que há menos natalidade e mais longevidade no país.

A repercussão econômica desse novo quadro é irrecusável. Segundo David E. Bloom, economista da Universidade de Harvard, há estreita relação entre a expectativa de vida ao nascer e os indicadores macroeconômicos. Cada 10 anos de aumento na esperança de vida da população correspondem à elevação de 1% do respectivo PIB. Confirma-se, assim, o que o economista sueco Gunnar Myrdal, Prêmio Nobel, já havia sintetizado, há mais de 40 anos, quando afirmou: “Os povos são pobres e doentes porque produzem pouco, e produzem pouco porque são pobres e doentes para produzirem mais”. Saúde e economia são indissociáveis.

Mas, o óbvio nem sempre é assaz ululante, como diria Nelson Rodrigues. Somente agora se desperta para o caráter primordial da educação como pressuposto insubstituível do desenvolvimento social. A comprovação científica forneceu os subsídios inquestionáveis para elaboração da nova verdade. A neurociência trouxe à tona informações preciosas concernentes ao crescimento e à diferenciação do cérebro humano, base sólida para definição de prioridades educacionais.

Estudos feitos pelo economista americano James Heckman, também Prêmio Nobel, esvaziam qualquer resistência a tão contundentes obviedades. Sua pesquisa comparou o desempenho evolutivo de crianças nascidas em ambientes pobres e desfavoráveis. Parte delas teve acesso a programas de estimulação cognitiva e de saúde na primeira infância. Outra, não. O primeiro grupo avançou em escolaridade, chegou com frequência à educação de nível universitário. O segundo, raramente. Além disso, o primeiro conseguiu empregos mais qualificados e se envolveu muito menos em atos de delinquência e criminalidade. Concluiu o pesquisador que não há estratégia econômica de melhor resultado para a sociedade do que investir nos cuidados com a primeira infância. O ganho é de US$ 7 para cada US$ 1 aplicado. Educação e saúde retroalimentam a economia.

Povo sadio e educado tem atividade econômica para garantir vida próspera. É a grande constatação do novo milênio. Educação e saúde são sólidos alicerces da economia. Se não investir nesses dois pilares, a sociedade não tem futuro. A meta dos novos tempos inverte-se progressivamente. Não basta crescer, há que se desenvolver. A espécie humana precisa ter menos para ser mais.

Editor: Dad Squarisi dadsquarisi.df@diariosassociados.com.br