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Em busca do tempo perdido

Arquivo 10/12/2010

 Dioclécio Campos Júnior

Médico, professor titular da UnB, foi presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br

 

As terras hoje brasileiras foram descobertas em 1500, mas o país só foi inventado mais tarde. Piratarias e rapinagens alternaram-se com massacres de nativos, espoliação de escravos e extermínio de lideranças inspiradas em ideais libertadores. A condição de colônia de direito arrastou-se até período recente da história. A de fato subjaz às aparências para remanescer. O resultado é a cultura de submissão que impede avanços na hora certa. O Brasil só fez perder tempo ao longo da trajetória percorrida desde o descobrimento até a atualidade. Não por falta de ideias, mas de ousadia. A perda maior foi na educação. Daí o desenvolvimento devagar, quase parando.

Em 1822, José Bonifácio de Andrada e Silva fez representação à Assembleia Constituinte nos seguintes termos: “A escrava, durante a prenhez e passado o 3º mês, não será obrigada a serviços violentos e aturados; no 8º mês só será ocupada em casa; depois do parto terá um mês de convalescença e, passado este, durante um ano não trabalhará longe da cria”. Era a licença-maternidade para a mãe trabalhadora da época. Foi rejeitada. Somente agora, passados 188 anos, o benefício chega a seis meses de duração.

Em 1882, Rui Barbosa trouxe à tona o valor da primeira infância. Elaborou rica proposta educacional para o país. Deu ênfase à educação infantil. Mostrou o caráter insubstituível do jardim da infância para prover ambiente seguro e estimulação lúdica requeridos pelos mecanismos cognitivos próprios da idade. Ressaltou que a missão dos jardins infantis “efetua-se exclusivamente por meios alheios a toda a coação, a todo caráter de trabalho formal. Por ela se despertam e enraízam os hábitos de pontualidade, silêncio, docilidade, benevolência e polidez, se desenvolve a capacidade inventiva. No jardim de crianças está indisputavelmente a maior força educadora do mundo e a base necessária de todo o organismo da educação racional”. Decorridos 128 anos, apenas 13% de nossas crianças têm acesso à educação infantil. O país investe 10 vezes mais na terceira idade que na infância. Perde o pedal da história ao ignorar que o investimento em saúde e educação na primeira infância é a maior garantia de retorno econômico para a sociedade.

Em 1922, Fidelis Reis, então deputado federal por Minas Gerais, identificou o desafio a ser vencido para entrar na era da tecnologia. Propôs o ensino profissionalizante obrigatório nas escolas primárias e secundárias mantidas ou subvencionadas pela União. A justificativa é contundente: “A uma questão de educação e de ensino se resume, em última análise, a solução de todos os nossos problemas. Precisamos convencer-nos de que a cultura acadêmica, clássica, especulativa e literária não nos basta. Essa deve ceder lugar à que melhor corresponde às prementes exigências atuais de ordem econômica”. Para convencer os parlamentares, o deputado recorreu a Henry Ford e Albert Einstein, a quem pediu opinião sobre o projeto. Ambos apoiaram a iniciativa, atribuindo-lhe elevado acerto. A lei entrou em vigor. Alegando falta de recursos orçamentários, o presidente Washington Luís inviabilizou-a. A revolução esperada morreu na nascente. Noventa anos depois, a educação profissionalizante claudica país afora.

Em 1912 surgiu a primeira universidade em terras tupiniquins. Foi a do Paraná. Conforme diz Darcy Ribeiro, “em contraste com o restante da América latina, o Brasil chegou à independência sem contar com nenhuma universidade”. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, “as universidades da América espanhola prepararam, durante o período colonial, 150 mil graduandos. Calcula-se que, no mesmo lapso de tempo, de 1577 a 1822, apenas 2.500 jovens nascidos no Brasil seguiram curso em Coimbra”. As universidades brasileiras cresceram muito em quantidade. A qualidade deixa a desejar. Não têm autonomia, princípio essencial à natureza singular da instituição. As públicas são completamente reféns do Estado. As privadas, do negócio. Quase um século após o início da implantação de universidades no país, a produção de conhecimento, base da geração de riqueza para a sociedade, navega na timidez.

Esse atraso flagrante a que o povo brasileiro ficou condenado no campo da educação, em todos os níveis, tem de ser superado. É prioridade absoluta. Só depende de ação, não mais de discussão. A estratégia há de ser a de Proust, em busca do tempo perdido. Recuperar as oportunidades desprezadas no passado para ajustá-las à modernidade. Os caminhos estão historicamente apontados. É trilhá-los sem medo de ser justo.