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Favelas de classe média

Arquivo 15/10/2008

Brasília, sábado, 11 de outubro de 2008


Dioclécio Campos Júnior
Médico, professor titular da UnB, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br

A elite brasileira não tolera a igualdade como referência ética a reger a ordem social. Prefere o reinado do privilégio, a paisagem das iniqüidades generalizadas. Insensível aos direitos do outro, convive com abusos de toda a sorte, em todos os níveis e instâncias da sociedade. São mais de 500 anos de discriminação como incômodo estofo da história do país. Vez por outra os donos do poder econômico aceitam mudar alguma coisa, desde que para manter tudo como está. Até o exercício da Presidência da República por um operário de origem humilde é admissível. Mas, com a condição de que respeitem as fortunas acumuladas, os latifúndios expansivos, os lucros ilimitados de banqueiros, os monopólios dissimulados, a propriedade absoluta dos meios de comunicação, a cidadania de primeira e segunda classe.

O modelo de sociedade injusta, decorrente da lógica colonial que lhe deu origem, é o cartão-postal do Brasil. As aparências não enganam. Tampouco a passividade da população, que faz da indiferença o mecanismo de defesa diante da histórica negação de direitos com a qual convive. Acostuma-se à barbárie, adapta-se à crueldade, ignora as diferenças sociais que se aprofundam. Os pobres povoam as periferias e os morros com a mesma resignação gerada pelo sentimento de impotência que imperava na senzala, violentamente subordinada à casa grande. Assimilam ritos religiosos e acolhem seitas mistificadoras, anestésicos potentes para a alienação que alivia dores e horrores da alma, tormentos explosivos da existência de baixa qualidade.

Crianças esquálidas empinam pipas no mesmo céu das balas perdidas. Jogam, pés descalços, alegres peladas nos descampados da imensa selva de pedras. Trocam desesperanças nos becos esburacados das encostas, nos barracos empilhados morro acima ou nas ruelas em que se misturam esgoto e humilhação. Não crescem, sobrevivem. Não amam porque não são amadas. Não dão afeto porque nunca receberam. Arrastam vida emprestada, sem sentido, prontas para morrer, também para matar. Percorrem, ébrias, as rotas sem rumo das bocas-de-fumo. Pululam nas ruidosas ruas das cidades dos ricos, que enfeiam com esgares desdentados da pobreza. Vivem apenas o instante. Nada além. O dia seguinte é saldo improvável de vida cessante. Uma pausa na violenta desencarnação que as espera nas esquinas do dia-a-dia. Como não têm direito à propriedade, vigiam ou assaltam a alheia. Se não, colhem migalhas nos semáforos para terem acesso ao pão de cada dia, ou ao crack deletério, fonte dos poucos sonhos que sonham.

A contundência da realidade que não se pode ocultar atenua-se pela força de estatísticas oficiais. É o recurso preferencial dos governantes. Como não mudam o mundo concreto, pintam a paisagem. Jogam com números. Criam indicadores em profusão. Celebram conquistas extraídas da mera dança de algarismos. Festejam resultados. Retocam a fotografia com as melhores cores. Refazem os contornos. Tudo melhora, menos as desigualdades que permanecem intactas. Para o povo da rua, a dura luta pela vida continua.

A mais recente ilusão numérica transforma a maioria da população brasileira em classe média. Não se discute o método utilizado para a revolução anunciada. Tudo depende do chamado nível de corte que define a variável estatística escolhida. Assim, as famílias com renda mensal domiciliar superior a R$ 1.064 passaram a ser incluídas na classe média. Foi o critério utilizado. Contudo, com pouco mais de R$ 1 mil por mês, a família pena sem poder contratar um bom plano de saúde; não consegue assegurar ensino de qualidade aos filhos; não tem como adquirir casa própria; mora mal porque o salário não permite pagar aluguel de imóvel razoável; não tem como migrar da favela onde nasce para bairro de melhor qualidade. Segue pobre. Só que agora, na classe média. Não saiu do lugar. Não teve mobilidade real. Migrou para cima, por decreto. Mas, permanece em baixo, como sempre.

Na sociedade de consumo, a mobilidade social possível dá-se por mecanismo de transbordamento. Faz-se em bloco. Mantém imutáveis as distâncias que separam os estratos socioeconômicos. As sobras da elite são derramadas para as classes inferiores. Não é a distribuição de renda que se espera. É o aproveitamento de excedentes desprezados. Quanto mais transbordar a riqueza acumulada pelos poderosos, menos miseráveis serão as castas de baixo. Mas não sairão do nível inferior. Nunca chegarão perto dos ricos porque a desigualdade jamais se altera. Serão os moradores das favelas de classe média.