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Ano-novo de novo

Arquivo 07/01/2014

DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR
Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, representante da SBP no Global PediatricEducation Consortium (dicamposjr@gmail.com)
Publicação: 07/01/2014

Por mais que se tente secretar otimismo para 2014, celebraremos apenas um novo ano-novo. Sai ano entra ano e tudo resta como dantes no mesmo quartel de Abrantes. O espírito natalino abandonou o presépio para promover o ícone do consumismo, Papai Noel, na versão concebida pela Coca-Cola. Pessoas se abraçam e trocam jargões abstratos, sem qualquer relação com a realidade. “Feliz Natal e um ano-novo cheio de alegrias, saúde e paz!” As frases se repetem como refrões de uma antiga canção. Nada diferente de infindas décadas anteriores.

Ano é unidade cronológica convencionalmente adotada para medir a história. Será sempre a mesma. Para que seja novo, não depende de duração temporal. Requer atitude revolucionária que mobilize energias humanistas para romper com os interesses que comandam a sociedade preservando privilégios. Não basta desejar. Muito menos esperar um ano diferente como se fosse milagre para encantar fiéis. Sem mudanças de fato, nada haverá de novo. Mero blá-blá-blá de cunho farofeiro.

São chocantes as evidências de precariedade imutável em que o povo brasileiro vive há séculos sem o perceber. Deitado eternamente em discutível berço esplêndido, nutre-se de ingênuo autoengano.

Em cada fim de ano dito velho, e início do dito novo, as imagens que movimentam as telas televisivas do país não são inéditas. Documentam tragédias repetitivas produzidas por chuvas sazonais. Não passam de catástrofes anunciadas.

Governantes sobrevoam áreas destruídas, simulando comoção. Se autênticos, deveriam se instalar nas regiões atingidas a fim de que pudessem experimentar o sofrimento das comunidades, as mortes numerosas e as sequelas indescritíveis. Preferem mistificar. Chamam de desastre natural o descalabro que só revela desrespeito do humano para com a natureza. Chuva não é desastre, é fenômeno inteiramente previsível.

Quem origina as tragédias é a sociedade. As camadas pobres têm moradia em recantos de risco, onde padecem abandonadas pelo Estado, sem direito a condições mínimas de vida ambientalmente segura e qualificada. Os governos atêm-se a enfrentar os desastres que são produtos de sua omissão. Nada fazem para evitá-los ao longo dos anos em que exercem o poder.

Reforma agrária ainda não ocorreu no país. Apesar da luta de várias gerações, entrou na prolongada calmaria que perpetua o latifúndio dominado por condomínios empresariais. As populações das pequenas propriedades são expulsas. Passam a viver na periferia dos centros urbanos, condenadas a pobreza, privações e desigualdades terríveis.

Índices de violência só fazem aumentar a cada ano. Revelam criativa crueldade. Geram insegurança que torna frágil a vida das pessoas. Única novidade registrada anualmente é o progresso incontrolável da criminalidade. Governantes falam do combate à violência. Jamais de medidas preventivas, com caráter eminentemente educacional, para reverter tão tenebrosa fotografia brasileira. Só trocar a folhinha não abre perspectiva de uma sociedade menos violenta.

No céu da pátria, neste instante, brilha o esgoto a céu aberto. Ainda que contido em fossas, resta distante das redes de higiene em que deveria desaguar. Fezes fluem como componentes do cotidiano de populações que sobrevivem na miséria. Mais da metade do povo está em áreas desprovidas de esgoto, exposta a contaminações que geram doenças evitáveis. A iniciativa do governo é buscar mais médicos para ocultar o panorama da falta de saúde. O povo que se dane.

Em 1886, Rui Barbosa elaborou o primeiro projeto de educação infantil de que se tem notícia. Prenunciou que, sem investimento nessa faixa etária, a sociedade não teria futuro. Não foi ouvido. Em 2013, mais de um século depois, cerca de 200 ações por dia reivindicam vagas em creches públicas, enchendo a agenda do Poder Judiciário. Sem solução. Infância desprotegida é fermento da desgraça social.

No âmbito do transporte público, incorpora-se a lógica absurda da saúde. A política de mobilidade urbana assume a estratégia simplista do projeto “mais carros para o Brasil”. Quanto mais, menos trânsito. Maior o caos. Menor a qualidade de vida. Ilusória a cidadania que se arrasta sem direitos, fantasiada pelos marqueteiros encarregados de enganar.

O valor da educação permanece nenhum. Professores desmerecidos, escolas degradadas, alunos desrespeitados. Somente 24% dos cidadãos que sabem ler entendem o que leem. Os demais fazem de conta.

Carnaval, Copa do Mundo e eleições sintetizam o que será 2014. Tudo igual. Outros 365 dias sem mudança. Só farofa. De novo.