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Pobre país de Isabellas cadentes

Arquivo 05/05/2008

Brasília, sábado, 03 de maio de 2008

Dioclécio Campos Júnior

Médico, professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br

Pátria da paz, lugar da convivência fraterna, território da harmonia, Brasil, um país de todos. Eis o sonho. Sociedade de preconceitos, nação de desiguais, reduto do hediondo, paraíso de monstros impunes, terra de bárbaros requintados. Eis a realidade. Por que tanta distância a separar o ideal do real? Por que o culto da morte a vencer o respeito pela vida?

Desespero e comoção alternam-se como sentimentos a abalar a alma dos brasileiros diante dos horrores da selva nacional. Medo, pânico e insegurança estampam-se no rosto das pessoas. Sobrecarregam as relações humanas. Os corações batem acelerados pelo terror, pulsam no ritmo caótico do estresse. Os olhares desconfiam. Os ouvidos aguçam a percepção. O pensamento já não é livre. As idéias não estão soltas. A terrível sensação de impotência deprime o espírito, afogando-o no amargo caudal da melancolia.

O Brasil das “fontes murmurantes onde eu mato minha sede e a lua vem brincar” só existe na aquarela já esmaecida pelo tempo. A violência secou as fontes e matou a lua. Derrama o sangue de qualquer um. Elimina vidas com medonha frieza.

De tanto se comover com inesgotáveis tragédias e crimes marcados por inaudita perversidade, o brasileiro experimenta a anestesia dos últimos nervos que ainda lhe restam à flor da pele. Já não reage. Quase não sente a modalidade emocional da dor. A indignação fica sufocada, não se manifesta. A violência prospera, a morte triunfa.

A brutalidade não respeita limites. Nem de gênero, nem de idade. Porém, não há nada mais vil, mais torpe do que o assassinato de uma criança. É o clímax da covardia, a síntese da crueldade abjeta, a vileza de uma insanidade imperdoável. Indefesa, a criatura é alvo de atrocidades ignominiosas. Tenra, não se defende. Frágil, não resiste. Ingênua, não imagina a maldade que a ameaça. A criança tem o choro legítimo, a lágrima pura, o sorriso verdadeiro da humanidade. Feri-la é lesar a vida nascente. Torturá-la é agredir o mais autêntico valor existencial. Matá-la é cometer um infamante crime contra a humanidade.

Infelizmente, o Brasil não é um país para crianças. Nada faz contra o extermínio da infância, que cresce assustadoramente nas estatísticas oficiais. As crianças desaparecem, são abusadas, exploradas, violentadas e mortas. Choram, ninguém as ouve. Gritam, são espancadas. Gemem, ninguém as ampara. Expiram, não se lamenta.

Não há um só dia em que não se destrua a vida de menores no país. Recém-nascidos, pré-escolares e escolares não são poupados pelo desatino da violência. Intradomiciliar ou não, pouco importa. Mudam apenas os agressores. O resultado é o mesmo. Vida encerrada, futuro enterrado.

A morte da pequena Isabella mergulha a sociedade nas profundezas do pavor. É das entranhas do corpo social que nascem bandidos e monstros. Não brotam do inferno nem surgem por geração espontânea. Não são de outro mundo. São brasileiros.

Lançada da janela de um edifício residencial, sabe Deus por quem, a cândida figura infantil virou cadáver no jardim do prédio. Mais uma existência precocemente banida da face da Terra. Mais uma terna flor impedida de desabrochar em solo irrigado pelo afeto, de abrir pétalas coloridas pelo afago de um canteiro acolhedor, de exalar o suave perfume da inocência pueril. Isabella não é a primeira criança cadente, atirada das alturas para espatifar-se no chão da maldade. São inúmeras.

As janelas da violência estão cada vez mais abertas no Brasil. Dão vazão à ilimitada criatividade mórbida dos torturadores e matadores de crianças. Desde abuso sexual de lactentes, prostituição de meninas, agressões físicas devastadoras de menores de idade, asfixia mortal, mutilações impiedosas de corpos ainda infantis, queimaduras e espancamentos repetidos, até a morte por abandono ou a vergonha do infanticídio. Lixo, lama, esgoto, terreno baldio, saco plástico, matagal, rios e lagoas são os berços onde muitos recém-nascidos condenados à vida cumprem a dolorosa sentença, quando a morte não os liberta.

Não adianta celebrar a redução da mortalidade infantil enquanto os menores sobreviventes continuarem a ser entregues à sanha dos monstros que produzimos e que andam soltos. Diz-se, para atenuar o sofrimento da perda, que as crianças não morrem, viram estrelas. Talvez por isso o Brasil tenha um céu tão estrelado. Mas, nem mesmo lá em cima, em nebulosas altitudes, nossas pequenas Isabellas estarão seguras. Há fantasmas que as empurram das alturas etéreas. Morrerão como Isabellas cadentes no céu da violência brasileira.