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Quando as dobrinhas das crianças são perigosas

Arquivo 04/11/2009

NUTRIÇÃO INFANTIL

30 de outubro de 2009

Por Natalia Cuminale

(Foto: Getty Images)

 

As medidas pedidas pelo especialista para enfrentar o problema começam dentro de casa. Os pais devem zelar pelo cardápio adequado. A má alimentação provoca não só problemas para o dia a dia das crianças como também pode antecipar em até 20 anos complicações de saúde da fase adulta. Os problemas mais comuns são dermatológicos, ortopédicos, respiratórios e principalmente cardiovasculares.Foi-se o tempo em que a aparência rechonchuda e as dobrinhas exageradas dos bebês despertavam simpatia e vendiam saúde. Nas últimas três décadas, a obesidade infantil triplicou no país, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. Só entre 2003 e 2008, o número de crianças com menos de cinco anos com sobrepeso cresceu quase 50%, de acordo com dados do Ministério da Saúde. “Trata-se de uma tendência mundial, e o Brasil a está acompanhando. Se não forem tomadas medidas de saúde pública, a situação só vai piorar”, afirma Roberto Costa, diretor-científico do Centro de Estudos Sanny e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo estudo citado pelo Manual de Obesidade na Infância e Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, até 60% das meninas que sofriam de sobrepeso entre os cinco e os 12 anos se tornaram mulheres obesas entre os 30 e os 39. Por isso, atualmente os especialistas lutam para que a dieta das crianças gordinhas sofra alterações, com o objetivo de evitar alterações metabólicas e reduzir o risco de doenças futuras. “O diagnóstico precoce e a participação da família nesse processo são fundamentais”, afirma Roseli Sarni, presidente do departamento de nutrologia da Sociedade Brasileira da Pediatria.

Quando se preocupar – O momento mais propício para que a criança adquira hábitos alimentares perigosos ocorre após os dois anos de idade, quando ela começa a compartilhar das refeições da família. “É na fase pré-escolar que a criança passa a ter mais autonomia, a andar, comer sozinha e a se interessar por novas coisas: então, ela passa a desenvolver a seletividade e a rejeitar alguns alimentos”, lembra Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo da Unifesp. “Por isso, um bom modelo familiar é fundamental, pois ele vai determinar o padrão de alimentação da criança”. Saiba como promover hábitos alimentares saudáveis nas crianças e também como o comportamento dos pais define a qualidade do cardápio delas.

Outro fator importante está ligado ao desenvolvimento. A partir dos dois anos, o ritmo de crescimento da criança diminui bastante. “Ela passa, então, a se alimentar em menor quantidade. As mães, no entanto, acham que ela não está crescendo adequadamente e passam a oferecer mais e mais alimentos”, diz José Spolidoro, presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE). Some-se a isso o fato de que é justamente nessa fase que o número de consultas ao pediatra diminui – uma vez que as doenças típicas dos dois primeiros anos desaparecem. Por isso, os especialistas recomendam duas visitas ao médico ao ano, para a prevenção da obesidade

Do sofá para a natação – Bolachas, salgadinhos e principalmente frituras faziam parte do cardápio de Camila Keiko – que passava os dias diante da TV ou do computador acompanhada das guloseimas. Não demorou muito para que os reflexos da dieta nada saudável aparecessem na vida da menina: os exames apontaram taxas elevadas de colesterol. “Ela comia diariamente tudo o que fazia mal à saúde: era uma fritura por refeição”, lembra a dona de casa Mitsue Cozoba, mãe de Camila. (Confira o valor nutricional de itens do cardápio infantil e ainda a importância das vitaminas para as crianças)

Diante do problema, a menina teve de alterar completamente sua rotina. Trocou as tardes sedentárias pela natação, e passou a comer frituras só nos finais de semana. “A vaidade dela falou mais alto: a barriguinha saliente impedia que ela vestisse algumas roupas”, conta Mitsue. Não foi fácil empreender a mudança até o fim. “No início, ela pensou em desistir. Aparecia chorando, pedindo uma bolacha. Eu comprava e deixava guardada, escondida. Quando a vontade dela era muito grande, eu dava um pedacinho e falava que faltava pouco para chegar o fim de semana”, conta a mãe.

Mitsue passou a preparar carnes grelhadas e a escolher com mais cuidado os itens do lanche que Camila leva para a escola. “Por ser uma criança, eu não podia obrigá-la a fazer uma dieta radical, cortando tudo de que uma criança gosta”, afirma.

Hoje, aos nove anos, Camila mede 1,38m e pesa 37,5 quilos – mesmo valor que ela apresentava aos seis anos. Segundo Márcia Sanae Kodaira, coordenadora do pronto atendimento infantil do Hospital Santa Catarina, graças à reeducação alimentar, a menina já saiu do limite da obesidade, passando para o do sobrepeso – situação significativamente melhor. “O importante daqui para a frente é seguir com uma dieta saudável”, diz Kodaira.