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Quarentena política para ministros

Arquivo 17/03/2014

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DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, representante da SBP no Global Pediatric Education Consortium

quaretena politicaPassado o carnaval, é hora de refletir. A sabedoria popular esclarece que um erro não justifica o outro. Precisa ser respeitada. Traduz percepção ética ignorada por ocupantes do poder no Brasil. O aparato do governo envolve e seduz as equipes que dominam o país. Desrespeito ao povo brasileiro é flagrante. Não apenas nas ações exercidas, mas, sobretudo, nas levianas justificativas de que se valem para enganar a população. Fica patente um projeto de aristocracia monárquica que se disfarça na etérea democracia dos novos tempos.

Já não se considera o poder como instrumento destinado a promover a evolução da cidadania. Tornou-se um fim em si mesmo. Eleger-se e ser poderoso é meta que norteia a cultura política dominante no Brasil. Uso e abuso dos recursos públicos para o desfrute de benesses e vantagens diversas refletem a visão dos novos reis, rainhas, príncipes e princesas que trajam adereços partidários, ditos democráticos, para meterem as mãos no bolso do povo. São as divindades da religião estatal que se pretende eternizar na república tupiniquim. Alguns exemplos são claros. Chocam muitas pessoas mais conscientes da sociedade. Decepcionam outras. Desanimam todas.

Sintomas do absolutismo monárquico dissimulado revelam-se nas distintas instâncias governamentais. Sintetizam o comportamento de comandantes cujo sonho é a perpetuação dos privilégios inerentes às funções assumidas. A prática do modelo implantado desdenha princípios elementares da ética verdadeira, que já não existe nos pensamentos e conceitos verbalizados pelos mandatários. Tratam gente como plebe ignara. Convivem felizes com as modernas formas escravocratas, como se fossem conquistas maiores da sociedade. Seus discursos são repletos de jogos de palavras e estilo redundante, elaborados para a hipnose coletiva dos plebeus.

Um dos atuais ministros, recentemente alçado ao cargo, demonstra fidelidade integral ao absolutismo da nova monarquia em curso. Indagado sobre o vergonhoso modelo de trabalho profissional do médico cubano no Brasil, mostrou o dogmatismo ideológico subjacente aos pensamentos e ações que explicita. Fundamentou, com raciocínio espúrio, a exploração humilhante da mão de obra médica oriunda da ilha caribenha. Alegou que o contrato assinado pelo governo brasileiro é correto, feito com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), entidade que tem história de mais de 100 anos, por isso mesmo respeitável.

Ora, nenhuma instituição é confiável porque antiga. Há indícios de corrupção entranhada nas vísceras de organizações do Estado brasileiro que já existem há mais de um século. Além disso, é inacreditável um ministro entender válido o tratamento escravagista imposto ao médico cubano no Brasil por se tratar de experiência adotada em mais de 60 outros países que firmaram igual acordo com a monarquia castrista. Equivale a proclamar que a escravidão dos negros no Brasil era regime igualmente defensável porque presente em muitos outros países. Admite, assim, que um erro justifica o outro, doutrina absurda na forma, se não suspeita no conteúdo.

Mais ainda. Tal como outras autoridades do governo que usam voos da Força Aérea Brasileira (FAB) para participar de eventos e atividades de interesse privado, esse ministro, durante o carnaval, recorreu ao mesmo meio de transporte para comparecer a Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Pondera que não houve aumento do gasto público nas viagens realizadas. Explica a presença de familiar nos referidos voos por razões que a própria razão desconhece. Incorpora, portanto, a lógica de funcionamento do aparato do poder, como colegas da nobreza partidária o fazem à frente dos cargos públicos.

Dada a relevância dos ministérios que, com maior seriedade, deveriam sustentar os direitos prioritários da população, tais como saúde, educação, meio ambiente, trabalho, justiça, e vários outros, o Estado precisa estabelecer a quarentena política para o exercício de tão relevante função. Ao deixar o cargo, o ocupante só disputará eleição cinco anos depois. Políticos profissionais, carreiristas e similares não se disporiam a ser ministros.

Essa responsabilidade técnica, social e profissional seria entregue a cidadãos comprometidos somente com a missão da respectiva pasta. Hoje, boa parte dos ministros usa o cargo e o dinheiro público para se eleger presidente, governador, prefeito e parlamentar, integrando a elite monárquica da Nova República. Urge mudar a lógica do aparelho estatal. O perfil de um ministro é peça-chave para qualificar o Estado brasileiro. Quarentena política seria medida saneadora.