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Reencantar o mundo

Arquivo 18/04/2011

Dioclécio Campos Júnior
Médico, pesquisador associado da UnB, secretário de Estado da Criança do DF, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br

A ciência transformou a vida humana no planeta. A capacidade inventiva do homem não tem limite. Trouxe inegável progresso para a humanidade. Apurou os componentes materiais de que dependem o conforto e o bem-estar das pessoas. Melhorou enormemente as perspectivas de qualidade da existência para os habitantes da Terra.

Afora os admiráveis benefícios advindos da genialidade científica, há efeitos adversos que geram malefícios. Um dos mais sentidos na atualidade é o desencantamento do mundo. Resulta do racionalismo tecnológico que mudou a dinâmica do cérebro. Como a economia consumista tem no culto do descartável a fonte única de riqueza, o encanto imaterial desaparece. As flores não exalam mais perfume, são de plástico. O amor é efêmero, só faz transar. A amizade escoa, vira negócio. A música perde melodia, ganha decibéis. A inspiração dispensa musa, é droga dependente. O silêncio já não se ouve, a interioridade foi calada. O afeto não é o idioma da alma, reina o desafeto. O lar deixou de ser ninho, tornou-se casa própria. As igrejas não têm torres, só os empreendimentos imobiliários. A forma saudável de caminhar é sem sair do lugar, na esteira da academia. A convivência é abstração, cedeu lugar para os encontros nas salas virtuais dos chats.

O belo não é mais o que agrada, sensibiliza e comove por si mesmo, converteu-se em produto de marketing. As ruas carecem de atrativos, são paisagens automobilísticas. As luzes feéricas das cidades apagam estrelas e constelações, desbotam o luar. A poesia se aposentou, morreu a rima, atrofiou o poema, acabou o verso. O primor da infância não é vivido; a sabedoria dos idosos, desprezada. Ser não é mais, ter é tudo. A alvorada não deslumbra o despertar, o pôr do sol não comove. O beija-flor muda de comportamento, só beija recipiente de água doce pendurado na janela. Os bancos das bucólicas praças viram ruínas, despontam suntuosos os do mercado financeiro. A leitura saiu de cena, bons livros não emocionam. Filosofia encolheu, temas existenciais sucumbem no desvão da materialidade. Não há horizonte visível, edifícios e fumaças reduzem o campo visual. Espiritualidade natural recua, avança a religiosidade empresarial. Viver não é mais sonhar, resume-se a clicar.

A modernidade capitalista desencantou o universo. Retirou da natureza o viço vital que a divinizava. Demoliu-a em nome de uma avidez delirante, incapaz de pensar a vida além do imediato. Fragmentou o ambiente, desintegrando-lhe a coerência cósmica original. Projetou ilusões consumistas muito além dos recursos disponíveis no planeta. Perpetuou a guerra, eternizou a desigualdade. Descrença, indiferença, falta de entusiasmo, individualismo, são sintomas de enfermidade coletiva. Estão presentes na maioria das sociedades. A depressão é o mal do século. Embora de origem não infecciosa, contagia. Espalha-se rapidamente.

A era pós-industrial está em curso. Traz mudanças no modelo de produção da riqueza. O êxito histórico vai requerer comportamento humano diferente. A postura depressiva em expansão representa obstáculo a ser superado. A única estratégia eficaz é reencantar o mundo. Não há outra. É preciso estimular o consumo de valores que não esgotem o planeta. Buscar o prazer em melhores fontes de satisfação. Nutrir-se das artes, ingrediente para alimentação saudável da mente. Socializar a literatura, a música, a espiritualidade, o teatro, a pintura. Adquirir o saber que permita desabrochar a beleza da vida interior. Para todos, indistintamente, e com qualidade. Segundo Frédéric Lenoir, reencantar o mundo é fazer viver o divino e o humano no seio da natureza, que não pode mais ser considerada uma simples coleção de objetos.

Para fazê-lo há que se inspirar no que resta de encantado na espécie, a criança. A nascente da vida humana derrama os recursos plenos para a virada essencial. Desde a concepção, o novo ser mostra o mapa do tesouro. Esbanja alegria. Irradia luminosidade mental. Transborda secreção de afeto. Projeta vínculo universal. Verte singularidade. Enternece o contato físico. Traz o olhar da natureza para enxergar os raios sublimes que a vivificam. Contenta-se com pouco porque de quase nada necessita para desfrutar a felicidade de ser. A criança é a encarnação do encanto. Valorizada na originalidade com que vem ao mundo, revelará os segredos preciosos da imaginação. Livrará os adultos da adulteração mental que os embota. Fará pulsar as delicadas fibras da sensibilidade estética. Promoverá o inadiável reencantamento do universo.