carregando...

Se não for dirigir, beba!

Arquivo 12/08/2011

Dioclécio Campos Júnior
É médico, pesquisador associado da UnB, secretário de Estado da Criança do DF,
ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (dicampos@terra.com.br)

Brasília, 10/08/2011

A propaganda é a alma do negócio. Sem ela, a timidez dos resultados econômicos desencoraja o empresário. O consumo não avança. As vendas de produtos ficam aquém das metas. O sonho de riqueza não se realiza. A economia perde temperatura. A umidade relativa da moeda diminui. A seca pecuniária desidrata o empreendedor. O mercado torna-se hipotônico. O desemprego ronda o espetáculo. A informalidade rouba a cena dos investidores formais. O dinheiro sai de circulação. Banqueiros perdem o sono. Governos experimentam pesadelo. O povo ‒ massa de manobra de fácil sedução ‒ deixa de consumir por falta de estímulo indutor. Indicadores financeiros perdem robustez. Bolsas de valores encolhem. Bolsos murcham. Sem propaganda, o modelo de sociedade atual não se sustenta. Passa a carecer do equipamento cientificamente concebido para ativar, a qualquer preço, a estratégia que faz confundir consumismo com felicidade. Que ilude para vender. Que engana para deslumbrar. Limites éticos inexistem. Bem-estar da população não conta. Adoecimentos não preocupam, mesmo porque geram emprego, abrem caminho para fortalecer a indústria farmacêutica e outras que tais.

Grande parte dos sérios problemas que põem em risco a vida dos cidadãos é efeito adverso de mensagens midiáticas tão mistificadoras quanto inconseqüentes. Visam transformar pessoas em autômatos programados para consumir determinado produto. A eficácia do processo é quase perfeita porque fundada em sólida metodologia científica de comunicação. A tal ponto que as empresas trabalham com estimativas seguras de aumento das vendas como sólido retorno da publicidade promovida. A falta de controle social sobre o conteúdo de peças publicitárias assim veiculadas expõe a cidadania à vulnerabilidade emocional geradora de hábitos incompatíveis com uma sociedade civilizada.

As consequências da propaganda podem ser perversas, se não trágicas para o indivíduo. O alcoolismo é uma das piores. Tornou-se a terceira causa de mortalidade no mundo de hoje. Só fica abaixo do câncer e das moléstias cardiovasculares, conforme assinalam pesquisas da Organização Mundial da Saúde. Segundo dados recentes, cerca de dois milhões e oitocentas mil pessoas morrem anualmente vítimas das doenças produzidas pelo consumo de bebidas alcoólicas. Sem falar das mortes ocorridas em acidentes de trânsito provocados por usuários dessa droga. Cirrose hepática, gastrite, hepatite alcoólica, neurite são exemplos da morbidade associada à bebedeira. Também as enfermidades infecciosas grassam devastadoras entre alcoólatras em virtude da redução da imunidade causada por tão antiga forma de intoxicação crônica. A sanidade mental termina inexoravelmente afetada pela impregnação alcoólica da estrutura cerebral. Afora a derrocada da saúde do bêbado, o equilíbrio do núcleo familiar a que pertence é devastado pela ruína comportamental invasiva e demolidora. Os estragos sociais decorrentes do alcoolismo são conhecidos de há muito. Os custos financeiros para o Estado, enormes. Contudo, o lucro das empresas é mirabolante. Logo, o saldo econômico é entendido como positivo no pensamento capitalista, o que justifica a tragédia planejada.

A sociedade prefere combater as mazelas derivadas do consumo de álcool a evitar a propagação dos estímulos que o desencadeiam. Por ingenuidade ou hipocrisia, fecha os olhos ao evidente papel que o alcoolismo desempenha como porta de entrada para o universo de outras drogas ainda mais arrasadoras ‒ maconha, cocaína e crack, entre outras. As imagens contundentes das famosas “crackolândias”, continuamente mostradas pelos meios de comunicação, ocultam as “alcoolândias”, muito mais numerosas, onde os jovens são iniciados na carreira de usuários das drogas do momento. Combate ao crack, à maconha e à cocaína é algo que a sociedade somente tem feito para não dizer que não falou de flores. A porta de entrada que dá acesso atraente a esse dantesco inferno é mantida escancarada por omissão indesculpável de dirigentes e legisladores do país.

A propaganda de bebidas alcoólicas é ação nefasta. Só faz crescer a população de dependentes químicos. Precisa ter fim. Não basta inserir-lhe frases de alerta para atenuar o impacto persuasivo de imagens e sons enganosos, cuidadosamente montados para fascinar o público pela embriaguez. São ineficazes. Reforçam o objetivo da propaganda. O alcance da frase “Se for dirigir, não beba” é pífio. Cala bem mais fundo a recíproca que, subliminarmente, dela se desdobra: “Se não for dirigir, beba!”.