carregando...

Sem educação

Arquivo 15/10/2007


Dioclécio Campos Júnior
Médico, é professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de PediatriaEducação é assunto que não perde atualidade no Brasil. Nem ganha a prioridade que merece. Ao contrário, dilui-se em correntes doutrinárias diversas, teorias que detestam a prática, investimentos precários. Nada que permita ao país sair do atraso em que permanece, ou encurtar a distância que o separa das nações desenvolvidas.

O desencontro não é de hoje. É antigo. Em 1922, Fidelis Reis, deputado federal por Minas Gerais, apresentou projeto de lei que criava o ensino profissionalizante obrigatório, em tempo integral, sob a égide do Liceu de Artes e Ofícios. A idéia arrojada e visionária visava preparar as futuras gerações para a sociedade industrial, tecnológica, cujo avanço começava a chegar ao país. Aprovada após cinco anos de difícil tramitação, a lei deixou de ser aplicada por falta de recursos orçamentários. Serviu de embrião para o Senai, que, embora socialmente relevante, nunca teve a dimensão pretendida por Fidelis Reis.

Outra proposta inovadora foi a dos Centros Integrados de Educação Popular, os CIEPs, concebida por Darcy Ribeiro, implantada pela ousadia de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Uma experiência em defesa do ensino em tempo integral, desenvolvido em estrutura física de bom padrão e espaço arquitetônico generoso, requisitos de um ambiente pedagógico ajustado à função libertadora da educação. A rede inicial de CIEPs, instalada na periferia do Rio, anunciava o poder transformador do projeto. Por isso, durou pouco. Não resistiu. Falou mais alto a cegueira de uma elite que aceita tudo, menos a igualdade social.

O tempo passa. A educação não chega. Os paliativos prosperam. Agora são as bolsas distribuídas pelos governos, versão estatal da caridade sem compromisso com as mudanças radicais que cabe fazer para reduzir iniqüidades perpetuadas em nossa história. Educação verdadeira mantém-se como privilégio, não como direito universal. Escola de qualidade é só para quem tem a sorte de nascer em berço de ouro, nas classes sociais mais elevadas, nas castas que sucederam às capitanias hereditárias e nunca deixaram de ser dominantes. Há exceções. Alunos de origem pobre logram vencer os mecanismos de seleção econômica e alcançam educação diferenciada. Embora louváveis no mérito, não são muitos, não ameaçam as oligarquias, razão pela qual chegam até a fazer carreiras profissionais brilhantes.

Os gestores públicos, os dirigentes de um modo geral, equilibram-se em flagrante contradição. Exaltam as virtudes do ensino público, anunciam conquistas fascinantes na educação brasileira, mostram números impressionantes, escrevem textos preciosos sobre o tema. No entanto, seus filhos estudam nas escolas privadas. Um péssimo exemplo para quem espera o mínimo de coerência entre o discurso dos governantes e sua prática. Contudo, eles sabem o que fazem. Sabem que o Brasil é um dos países que menos recurso aplica, per capita, em educação. Sabem que sem investimento não há milagre possível. Por isso, não querem ver suas crianças educadas num arremedo de escola. Esforçam-se para prover-lhes o que há de melhor no cenário da educação nacional. Garantem qualidade para os seus e quantidade para os outros. A escola pública é a melhor para os filhos dos outros, não para os deles.

Fala-se muito em inclusão digital, bolsa-escola — hoje bolsa-família —, Prouni e tantas outras idéias voltadas para ampliação do acesso das crianças pobres à educação. Fala-se quase nada do magistério, sem cuja valorização não há escola que se justifique. O professor humilhado pelo salário aviltante não tem como se orgulhar do ofício que desenvolve. A profissão mais relevante nas sociedades que prezam valores humanos não atrai o interesse das novas gerações no Brasil. Os governos parecem sonhar com escolas públicas cheias de alunos e vazias de professores. É a educação a custo zero. Plena de requintes tecnológicos, computadores e recursos eletrônicos diversos, adquiridos em larga escala para projetos que fazem a alegria da indústria e a tristeza dos educadores. Carente, porém, de professores qualificados, bem pagos, motivados, sem os quais não se pode esperar a formação plena dos alunos, criaturas em fase de crescimento e desenvolvimento, período da vida em que se planta a semente da cidadania, a raíz da ética, o broto moral da sociedade.

Enquanto isso, expande-se o ensino privado. Bem longe de ser referência educacional. Seu grande objetivo é aprovar alunos no vestibular. Manter privilégios. Não é educá-los. Afinal, o país sempre foi um gigante sem educação.