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Só 17,1% das crianças de até 3 anos frequentam creches

Arquivo 25/08/2008

25/09/2008

84,5% das crianças que não sabem ler estão na escola

Para especialista, falta ênfase dos professores no ensino; MEC diz que já foram adotadas medidas para resolver o problema

Segundo o IBGE, cerca de 1,1 milhão de crianças de 8 a 14 anos têm problema de aprendizado 

JANAINA LAGE
ITALO NOGUEIRA
DA SUCURSAL DO RIO

Pelo menos oito entre dez crianças que não sabem ler e escrever estão na escola, revela a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada ontem.

Segundo a pesquisa, 84,5% das crianças de 8 a 14 anos que não sabem ler freqüentam o colégio, o equivalente a 1,1 milhão de crianças. Deste total, 745,9 mil vivem no Nordeste.

Ana Lúcia Saboia, gerente de Indicadores Sociais do IBGE, afirma que os dados de 2007 expõem a fragilidade do ensino fundamental no país, apesar dos ganhos nos últimos anos em relação ao acesso à escola.

Na faixa de 7 a 14 anos, onde o ensino está praticamente universalizado (97,6%), o percentual dos que lêem e escrevem e estão na escola chega a 87,2% -o equivalente a 2,1 milhões de crianças.

Para especialistas, aos 7 anos a criança pode ainda não estar de fato alfabetizada. Os resultados são obtidos em questionário respondido pelos responsáveis pelas crianças.

O índice varia conforme a idade. Aos 7 anos chega a 90,8%; aos 10 vai a 85,6%, aos 12, para 71,4%; e aos 14, 45,8%.

Aprovação automática

Claudio Moura e Castro, consultor em educação, descarta relação do resultado com a aprovação automática e diz que o problema está ligado à qualidade do ensino. “A aprovação automática não atrapalha o pobre e pode tirar o medo do aluno de classe média de levar “bomba” no fim do ano.”

Para ele, o que falta é ênfase dos professores no ensino. “A qualidade da escola é assustadora. Falta aos professores aprender a dar aula”, disse.

Segundo André Lázaro, secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, o resultado precisa ser relativizado e o ministério adota medidas para resolver o problema, como a Provinha Brasil, que será aplicada no segundo ano de escolarização das crianças. “Temos hoje instrumentos de identificação desse processo por escola e maneiras de investir na capacitação dos professores”, disse.

Famílias

Muitas famílias acabam responsabilizando o aluno. Na 4ª série, sem saber ler e escrever, Lídia Monteiro, 11, diz que “a brincadeira é demais” na escola. “Ela não presta atenção na aula. Já procurei a escola para ver se alguém poderia fazer ela ficar quieta, mas não tem pedagogo nem nada”, diz a dona-de-casa Eliane Alves, 31.

Para Ruben Klein, especialista em avaliação, o problema é o despreparo da escola. “Elas simplesmente não sabem o que fazer com as crianças. É claro que a família tem de incentivar, mas a escola tem de estar preparada para ensinar e atender as necessidades dos alunos.”

A dona-de-casa Suzana Juvencio Calado, 33, afirmou que apesar de o filho estudar desde os 4 anos, Luiz Fernando, 9, ainda não aprendeu a ler e escrever. Ele está na 2ª série. “A professora sempre manda bilhete dizendo que ele não consegue aprender. Mas acho que é tanta criança que se a professora ficar em cima de um não dá conta do resto”, disse.

A pesquisa mostra ainda que a pobreza afeta mais as crianças do que a média da população. No total de entrevistados, 11,2% estavam em domicílios com renda familiar per capita de até 1/4 do salário mínimo. Entre as crianças, esse percentual era de 21,5%.

Só 17,1% das crianças de até 3 anos freqüentam creches

Percentual está abaixo da meta do Plano Nacional de Educação, que é atender 50%

Especialistas apontam que a questão da creche é ligada não só ao ensino, mas também à melhoria da qualidade de vida

DA SUCURSAL DO RIO

A Síntese dos Indicadores Sociais mostra que apenas 17,1% das crianças de 0 a 3 anos freqüentavam creches no país em 2007. O percentual está bastante abaixo da meta do Plano Nacional de Educação do Ministério da Educação, de atender 50% das crianças dessa faixa etária até 2010.

Apesar disso, o percentual de crianças atendidas aumentou nos últimos anos. Em 1997, somente 8,1% das crianças dessa faixa etária freqüentavam creches.
Segundo Ana Lúcia Saboia, gerente de Indicadores Sociais do IBGE, o resultado está abaixo do desejável. “O ideal é que tivéssemos uma política pública para crianças de 0 a 3 anos. A falta de creches dificulta o acesso da mulher ao mercado de trabalho”, disse.

Para especialistas, a questão do acesso a creches está ligada não só ao ensino, como também à melhoria da qualidade de vida.

Em famílias pobres, onde há menor percentual de crianças em creches, muitas vezes a mãe deixa de trabalhar para cuidar dos filhos ou deixa com os filhos mais velhos a tarefa de tomar conta dos menores.

A região Norte é a que tem menor percentual de crianças em creches: 7,5%. A maior taxa de freqüência escolar nessa faixa etária foi encontrada no Sudeste: 22,1%.

A pesquisa mostra que o acesso a creches está ligado à renda. Nas famílias com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo, apenas 10,8% das crianças de 0 a 3 anos freqüentavam creches em 2007.

Nas famílias com renda per capita superior a três salários mínimos, a taxa de participação era de 43,6%.

Outros dados reforçam a relação entre freqüência a creches e renda. No grupo de crianças entre 0 a 3 anos é onde existe a maior proporção de freqüência à rede privada: 40,5%. No ensino fundamental, por exemplo, apenas 12% das crianças estavam em escola particular.

Para Ruben Klein, especialista em avaliação educacional, pesquisas mostram que o estímulo a crianças de faixa etária menor é eficiente, desde que não se trate de um esforço isolado.

“O problema da creche é que não basta ser um lugar para deixar a criança. Se ela não tiver atividades que estimulem o aprendizado, não fará diferença”, disse.

Para Claudio Moura e Castro, consultor em educação, em grande medida a oferta de creches é um benefício mais voltado para os pais do que para os alunos entre 0 e 3 anos.

“Teoricamente, todos os países que têm um nível de educação de primeira grandeza não investiram primeiro nisso. Esse fenômeno é uma coisa recente”, disse.

Cresce total de crianças que trabalham em casa

DA SUCURSAL DO RIO

O percentual de crianças entre dez e 15 anos que fazem trabalho doméstico foi o que mais cresceu nos últimos dez anos, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE.

O estudo mostra que 5,4% das crianças nessa faixa etária que trabalhavam estavam ocupadas no próprio domicílio em 1997, contra 8% no ano passado. O trabalho de crianças fora de casa -em outro domicílio ou em área ou via pública- também teve aumento.

O percentual de crianças que prestava trabalhos domésticos para outra pessoa passou de 8%, em 1997, para 9,1%, em 2007. Já a proporção de crianças que trabalhavam em área ou via pública subiu de 5% para 5,7%, entre 1997 e 2007.

Em compensação, houve queda na ocupação em fazendas, sítios e granjas -a participação teve queda de 43,4% para 36,5%. Também caiu a proporção das crianças ocupadas em lojas, oficinas e fábricas (de 26,9% a 24,5%).

Apesar do aumento na proporção de crianças ocupadas em alguns locais, houve redução do trabalho infantil em todas as áreas, de acordo com o IBGE. Em 1997, 20,6% das crianças de dez a 15 anos estavam trabalhando, enquanto no ano passado eram 12,8%.

“Os resultados indicam que está havendo maior fiscalização do Ministério do Trabalho”, afirmou Lara Gama, do IBGE. De acordo com ela, o trabalho em casa pode estar relacionado à colaboração para a família na produção de algo para vender.

“Em números absolutos, o trabalho infantil caiu em todas as formas de ocupação, o que mudou foi a distribuição dessa mão-de-obra”, disse Gama.
Para o coordenador do programa de erradicação do trabalho infantil na Organização Internacional do Trabalho, Renato Mendes, a mudança no perfil do trabalho infantil impõe um desafio para a estratégia de combate a essa prática.

“O fiscal tem atuação limitada quando se trata de fiscalização do trabalho doméstico. Há uma dificuldade de caracterizar uma atividade exploratória num trabalho dentro da própria casa ou mesmo na rua”, afirmou ele.