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Voo seguro rumo à cidadania

Arquivo 27/05/2013

DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR

Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria e representante da SBP no Global PediatricEducation Consortium (dicamposjr@gmail.com)

A travessia saudável da infância e da adolescência é o voo com a rota mais complexa na vida do ser humano. Decola na concepção e aterrissa na cidadania. Não admite amadorismo para capitaneá-lo. A delicada trajetória que percorre precisa culminar num desembarque saudável, maduro, equilibrado e produtivo. O piloto especializado para operá-lo com segurança é o pediatra. Mas, se ele não tiver as horas de voo indispensáveis à qualificação necessária, os nobres passageiros que conduz — crianças e adolescentes — estarão prejudicados.

Dizem que falta pediatra no Brasil. Não é verdade. O que falta é respeito à criança e ao médico formado para dela cuidar. Infância e adolescência valem nada para muitos governantes. Pediatria é a especialidade que congrega o maior número de médicos do país, mesmo recebendo a mais baixa remuneração. São cerca de 32 mil, ou 13% do total. A proporção é de 17 por 100 mil habitantes.

O número é suficiente para atender o universo pediátrico de uma população cuja taxa de fertilidade é de 1,8, bem próxima à da comunidade europeia, na qual há 17 pediatras por 100 mil habitantes. Porém, diante das desigualdades regionais acentuadas, a distribuição de todas as categoriais profissionais no Brasil segue a perversa lógica do modelo econômico que não se ousa modificar.

As verdades científicas que comprovam a preciosidade do retorno de investimento em saúde e educação nessa faixa etária são engavetadas. A alegada escassez de pediatras é leviano pretexto para justificar políticas públicas que os substituam por profissionais desprovidos de preparo para exercer uma das mais delicadas missões no campo da medicina. A escassez não é de pediatras, é de governos comprometidos com os direitos de quem não vota.

Com efeito, prevalece, nas políticas públicas, o desprezo pelo médico especialista que sabe lidar com os desafios da fase singular da existência. Menospreza-se a complexidade de um ciclo de vida único na evolução do indivíduo. Assim ocorre no sistema público. Assim agem os planos de saúde. Assim pensam os empresários do setor privado que fecham leitos pediátricos por não satisfazerem suas vorazes expectativas de lucro. Ferem-se os princípios éticos que deveriam nortear o desempenho dos dirigentes do país. É um flagrante desrespeito à criança.

A encruzilhada em que se encontra o desenvolvimento nacional requer mudanças de fato. O requisito qualidade é essencial à garantia das prerrogativas do cidadão. Não dá mais para empurrar de barriga. Se quiser superar desafios que o mantêm no atraso, o Brasil tem que vencer a cultura do quebra-galho. Superar a falácia do faz de conta. Sem qualidade, só há balela para engambelar as pessoas. Protela-se o acesso igualitário a um padrão de vida que não lhes pode mais ser negado.

Tamanho obscurantismo não há de ser aceito pela sociedade brasileira. Prover condições diferenciadas para a travessia da etapa de vida marcada pelo crescimento e desenvolvimento é atribuição que os governantes deveriam honrar. Não por meio de propaganda enganosa, como sói acontecer. Investir no requinte qualitativo de quem tem vocação para tão relevante tarefa, dignificando-o por meio de uma carreira que lhe valorize o mérito humano, é causa incompatível com interesses eleitoreiros.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) integra o Global PediatricEducation Consortium (GPEC). Trata-se de organismo internacional criado há cinco anos com o objetivo de qualificar a formação do pediatra, pressuposto do atendimento de excelência requerido. Reúne entidades pediátricas de 50 países, voltadas para projetos edificantes de uma sociedade justa, respeitosa e criativa. Em todos eles, o treinamento para a certificação do pediatra dura, no mínimo, três anos. No Brasil, apenas dois.

Desde 2006, a SBP tenta corrigir esse atraso. Não consegue. Manobras espúrias têm sido usadas por membros da Comissão Nacional de Residência Médica do MEC para condenar a pediatria brasileira à mediocridade. Em evento do GPEC, realizado em 1º e 2 de maio na cidade de Durham, nos Estados Unidos, foi referendada a recomendação das sociedades de pediatria do Cone Sul. Conforme o teor do texto aprovado, o Brasil terá de formar o pediatra no tempo mínimo de três anos. Se não o fizer, sua credibilidade estará seriamente comprometida.

Não se pode descuidar de um segmento prioritário da população, expondo-o a tanta vulnerabilidade. O voo do ser humano rumo à cidadania requer segurança plena. Sem piloto capaz, perde altura. O risco é iminente