carregando...

Congresso de Oncologia Pediátrica será oportunidade para discutir rumos da atenção aos pacientes, informa presidente do evento

Entrevistas/Direto ao ponto 19/10/2016

congresso-onco

O XV Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica ajudará os profissionais brasileiros a compreenderem melhor a biologia da doença e discutir possibilidades de refinamento do tratamento, visando maior cura e menores efeitos a longo prazo. Esta é a previsão da presidente do evento, dra Sima Ferman (foto), que é também a chefe do Serviço de Oncologia Pediátrica do Instituto Nacional do Câncer (Inca). 

Durante cinco dias (de 15 a 19 de novembro), pediatras e especialistas de todo o mundo estarão reunidos, no Rio de Janeiro (RJ), para discutir questões relacionadas a esta doença que mais mata brasileiros de um a 19 anos.  Não por acaso, o controle do câncer em crianças e adolescentes no Brasil é o tema central do XV Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica. 

Mais de mil profissionais da área são esperados nos debates sobre os desafios e avanços na prevenção ao câncer infantil. As inscrições ainda estão abertas. Para os associados à Sociedade Brasileira de Pediatria, os preços são diferenciados. Outras informações estão disponíveis no site do evento. 

Com a realização simultânea de outros dois eventos internacionais – o American Society of Pediatric Hematology and Oncology (ASPHO Essentials) e o Encontro Anual do Grupo Latino Americano em Oncologia Pediátrica (Galop) – dra. Sima acredita ainda que o evento permitirá ampla troca de experiências e contatos entre os participantes brasileiros e de outros países.  

Organizado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) com o apoio da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o evento tem uma programação abrangente e instigante, já disponível em http://www.sobope2016.com.br. “O aumento do conhecimento implicará em melhores resultados para o tratamento das crianças”, disse a especialista em entrevista concedida à SBP.

Confiante no êxito do Congresso, sua presidente conversou com a SBP e detalhou um pouco mais tudo o que está sendo preparado para o evento. Confira a íntegra abaixo: 

SBP: Qual a importância do Congresso da Sobope? 

Dra. Sima Ferman: Este é o maior evento da especialidade no Brasil e congrega não só pediatras, mas também cirurgiões e profissionais das equipes multiprofissionais, como nutricionistas, enfermeiros, psicólogos, entre outros. Teremos 30 palestrantes internacionais e renomados palestrantes nacionais, o que permitirá ampla troca de informações e contatos. O aumento do conhecimento implicará em melhores resultados do tratamento das crianças. 

SBP: Qual a grande novidade do evento? 

SF: Este ano programamos também o “Fórum como cuidar da sua saúde”, que estimula um diálogo com a sociedade e aponta para hábitos de vida saudáveis desde a infância na prevenção do câncer no adulto. Além disso, teremos o Simpósio INCA de controle do câncer. A propósito, nesta ocasião será lançada a publicação “Câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens: informações de incidência, mortalidade e morbidade hospitalar no Brasil”, idealizado pelo INCA em parceria com a Sobope. A primeira publicação em crianças e adolescentes foi lançada em 2008 e as informações para adultos jovens e morbidade hospitalar são inéditas no País.  

SBP: Qual a relevância para os médicos brasileiros do Congresso receber o evento internacional Aspho Essentials? 

SF: ASPHO Essentials é trazido pela primeira vez para o Brasil. Serão abordados temas de hematologia benigna, além de oncohematologia. Esta é uma oportunidade única para os profissionais do Brasil e da América Latina. Os melhores temas abordados nos anos 2015 e 2016 nos eventos realizados pela ASPHO nos Estados Unidos serão trazidos para serem discutidos no nosso País. Será apresentado o estado da arte em cada tema, por profissionais renomados. 

SBP: Quais as maiores conquistas da oncologia pediátrica no Brasil? 

SF: Acredito que seja o reconhecimento de que a criança não é um adulto pequeno e de que há necessidade que os pacientes sejam tratados por profissionais especializados. Por isso, o tratamento multidisciplinar em centros especializados na atenção a criança, a formação de equipes multidisciplinares especializadas e alguns protocolos cooperativos da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica estão entre essas conquistas.  

SBP: Em países desenvolvidos, a taxa de cura do câncer entre crianças e adolescentes chega a 80%. No Brasil, entretanto, esse indicador é menor e continua o mesmo há 30 anos. O que precisa ser feito para mudar esse cenário?  

SF: O Brasil é um país de dimensões continentais. A maior parte dos centros de tratamento é localizada nas regiões sul e sudeste. Seria interessante que a criança fosse tratada o mais próximo possível de sua residência. Entretanto, é importante que sejam atendidas em centros de excelência, com um número considerável de pacientes novos ao ano, o que possibilita experiência no manejo deste tipo de doença, que é muito complexo e específico. O controle de qualidade destes centros deve ser verificado anualmente, mas o que vemos hoje através dos pagamentos efetuados pelo SUS para tratamento quimioterápico, é que vários centros não habilitados em oncologia pediátrica recebem pelo atendimento. Isto significa que não são todas as crianças com câncer que estão sendo atendidas nos melhores locais e com os profissionais habilitados. Para aumentar as chances de cura, o diagnóstico deve ser precoce e o tratamento realizado em centros especializados, com oncologistas pediátricos treinados e toda a equipe multiprofissional especializada na atenção a criança com câncer. O câncer infanto-juvenil deve estar como prioridade na agenda política de saúde do governo.  

SBP: E o que seria necessário, em termos de formação e infraestrutura, para atender bem ao público infanto-juvenil? 

SF: No Brasil, vivemos uma transição epidemiológica, em que a mortalidade por doenças infecciosas em crianças diminuiu, e o câncer representa a primeira causa de morte por doença de 1 a 19 anos. Segundo as estimativas do Inca, nos anos de 2016 e 2017 são esperados 12.600 casos novos de câncer em crianças e adolescentes nesta faixa etária. Entretanto, ainda não estamos totalmente estruturados para atender a esta demanda. Muitos pacientes chegam ao centro de tratamento com a doença muito avançada devido ao diagnóstico tardio.

SBP: Como aperfeiçoar o diagnóstico? 

SF: Para alertar sobre a ocorrência da doença, seus sintomas e formas de tratamento, o ensino da Oncologia Clínica e Pediátrica deve ser iniciado na grade curricular dos estudantes de ciências biológicas ainda na universidade. A forma de apresentação das doenças é muito variada e qualquer profissional de saúde pode se deparar com um caso inicial de câncer. Há necessidade também de capacitação dos profissionais da atenção básica para reconhecerem os sinais e sintomas do câncer na criança e no adolescente e os referir para um centro especializado imediatamente. Conhecendo a doença facilita pensar na possibilidade do diagnóstico. É também importante o acesso a centros especializados no tratamento do câncer. A rede de atenção primária, secundária e terciária tem que funcionar interligada com sistemas de referência e contrarreferência. É importante também dar atenção às condições socioeconômicas, que têm impacto no estado nutricional, saneamento básico, transporte, entre outros, que são fundamentais para garantir a saúde da criança em geral, mas também para garantir o acesso ao tratamento.  

SBP: O número de pediatras especializados em câncer infantil é suficiente? O que é preciso ser feito para que mais pediatras se interessem por essa especialidade?  

SF: A maior parte dos centros especializados e dos profissionais se encontra nas regiões Sul e Sudeste. Há necessidade de maior número de pediatras especializados em todas as regiões do Brasil e o estímulo da residência médica em oncologia pediátrica pode preencher estas lacunas. Como o tratamento deve ser efetuado em centros especializados, é importante ainda que sejam dimensionados polos de atendimento em cada região do País. Também defendemos que estes profissionais tenham um salário digno para que possam ter dedicação exclusiva nestes centros. O tratamento oncológico é altamente complexo e requer uma dedicação muito grande dos profissionais, para ser bem-sucedido.