Câncer na criança e no adolescente: medidas de prevenção

Departamento Científico de Oncologia

  • Sim. Os tumores de causa não genética/familial nos adultos podem ter seu risco de ocorrência diminuídos, diferentemente dos tipos de câncer que ocorrem na infância e na adolescência. Fatores de risco dos diversos tumores que ocorrem no adulto, que podem ser modificados, incluem uso de tabaco, obesidade, atividade física, exposição aos agentes infecciosos, radiação ionizante e radiação ultravioleta (UV). Ocorre que muitas das exposições causadoras de câncer no adulto têm efeito cumulativo, sendo que as que se iniciam na infância devem ser objeto de preocupação do pediatra e dos familiares.

  • Embora seja conhecida a associação de alguns fatores ambientais e genéticos que possam influenciar no risco do câncer no adulto, a forma como essas exposições na infância e adolescência podem contribuir para o desenvolvimento da doença ainda é um campo de pesquisa. Os estudos epidemiológicos que investigam a associação de câncer no adulto e exposições na infância e adolescência carecem de metodologia adequada, uma vez que sofrem influência de vários intervenientes, como estudo recordatório e a escassez de marcadores genético-moleculares da exposição na infância, exceto para o tabaco.

  • Sim. A exposição ao tabaco, tanto de forma ativa, quanto passiva (fumante passivo), está associada a 33% dos tumores em adultos, incluindo câncer de pulmão, boca, laringe, faringe, esôfago, estômago, colo-retal, pâncreas, rim, bexiga, colo de útero, ovário e leucemia mieloide aguda. Estima-se que 90% dos adultos fumantes iniciaram uso do tabaco antes dos 18 anos de idade. Entre as crianças estima-se que 7,4% das que cursam o ensino fundamental e até 25,3% dos alunos de ensino médio já são fumantes.  A frequência de crianças com exposição ambiental domiciliar (fumantes passivos) chega a 40%. Na fumaça do cigarro são encontradas mais de quatro mil substâncias químicas, sendo 50 delas, tais como benzeno, comprovadamente capazes de induzir a ocorrência de tumores.

  • Sim. A exposição desde a vida intrauterina, através da placenta em mães fumantes, acarreta alterações genéticas adquiridas. Um exemplo é a metilação diferencial do ácido desoxirribonucleico (DNA), que se torna marcador genético da exposição. O DNA é um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos e de alguns vírus. A metilação de genes supressores de tumor pode ser o primeiro evento indutor do câncer. Sabe-se da associação, mesmo que fraca, entre a exposição intrauterina ao tabaco e a ocorrência de leucemia na infância. A exposição continuada na vida pós-natal, mesmo que por exposição ambiental, está associada aos tumores já mencionados nos adultos. As campanhas de mudança de hábito e de casas livres de fumo, bem como a legislação mais rígida para ambientes públicos livres de tabaco e, especialmente, o aumento da idade para 21 anos para venda de cigarros, podem ter contribuído para  diminuição em 25% da taxa de início desta prática em adolescentes, com impacto na redução da ocorrência de tumores nos adultos.

  • Obesidade e sobrepeso estão associados a 20% dos tumores em adultos, especialmente câncer de mama, endométrio, colo-retal, rim, pâncreas, esôfago, vesícula biliar, ovário e tireoide. O mecanismo provável é pela secreção de fatores que estimulam o crescimento celular, como o fator de crescimento insulina like (IGF- Insulin-like Growth Factor). Estima-se que 33% das crianças e adolescentes sejam obesos, ou tenham sobrepeso, o que os coloca em risco de doenças crônicas associadas a obesidade, incluindo câncer no adulto. Já existem várias iniciativas educacionais para o controle do sobrepeso/obesidade na infância e adolescência, através de alimentação saudável e prática de exercícios físicos regulares.

  • A alimentação tem sido associada com o processo de desenvolvimento de alguns tipos de câncer, principalmente os de mama, intestino, próstata, esôfago e estômago. A dieta tem sido estudada em relação a ocorrência do câncer de mama, especialmente em mulheres orientais que assumem costumes ocidentalizados, incluindo a alimentação. Verificou-se maior chance de desenvolver câncer de mama naquelas que mantêm a dieta ocidentalizada. As substâncias presentes na fumaça do processo de defumação, os conservantes (como os nitritos e nitratos) e o sal podem provocar o surgimento de cânceres de estômago e intestino (cólon e reto).

  • Uma dieta rica em alimentos in natura ou minimamente processados (frutas, legumes, verduras, cereais integrais, feijões e outras leguminosas) e pobre em alimentos ultraprocessados (aqueles prontos para consumir ou aquecer e bebidas açucaradas) é capaz de prevenir o surgimento da doença. A recomendação geral não é a favor de dietas que não contenham carne ou que não contenham alimentos de origem animal, mas para limitar as porções por semana. Alimentos do tipo fast food (hambúrguer, pizza e cachorro-quente) e produtos prontos para consumir ou aquecer (lasanhas, salgadinhos e biscoitos) contêm grande quantidade de gorduras e açúcares e, portanto, alta concentração de calorias. As bebidas açucaradas (bebidas não-alcóolicas normalmente vendidas em latas, caixas ou garrafas), ou seja, refrigerantes, chás e sucos industrializados, também possuem alto teor calórico, além de fornecerem poucas fibras, vitaminas e minerais. Consumi-los pode levar ao aumento do peso corporal, resultando em sobrepeso e obesidade, que são implicados no risco de câncer.

  • A associação de exposição à radiação ionizante, como raios-X, é bem conhecida pelos efeitos deletérios que promove no DNA. A bomba atômica no Japão mostrou, além do seu efeito devastador, o aumento da ocorrência de câncer em pessoas expostas em área próxima. Além disso, verificou-se que o efeito poderia ser tardio, mostrando ação cumulativa da exposição. Os raios-X, de extrema importância na medicina diagnóstica, são exemplos de radiação ionizante, também com efeito cumulativo, devendo ser usados com parcimônia na infância e adolescência. Isso porque nessa fase da vida, o indivíduo está mais suscetível aos efeitos da radiação ionizante por estar em crescimento e manter uma taxa de divisão celular proporcionalmente maior que nos adultos. Os efeitos deletérios da radiação sobre o DNA, através da geração de radicais livres na célula com alta taxa proliferativa, têm maior chance de acumular o defeito nas próximas divisões. Sabe-se que o uso racional dos exames radiológicos poderá favorecer a diminuição da exposição à radiação, com menor taxa de ocorrência de câncer no adulto associado a este agente, como leucemias e sarcomas. Atualmente a tecnologia coloca à disposição aparelhos com menor exposição à radiação.

  • A exposição à luz solar é de extrema importância para a síntese de vitamina D ativa nas células da pele. No entanto, a radiação UV também provoca alterações de bases nitrogenadas no DNA com dimerização de resíduos de timina nas células da derme, induzindo, a longo prazo, a ocorrência de tumores cutâneos, sendo o mais preocupante o tumor maligno, melanoma. O efeito da radiação UV é cumulativo ao longo da vida. Aproximadamente 25% de toda exposição à radiação UV ocorre até os 18 anos de idade. Medidas de fotoproteção das crianças e adolescentes à exposição solar, especialmente nas horas de maior incidência dos raios UV-B (entre 10h e 16h), são de fundamental importância na prevenção do câncer de pele do adulto, além da prevenção de lesões degenerativas da pele.  Vale ressaltar as medidas de proteção que incluem proteção mecânica (roupas e anteparos que produzem sombra) e proteção química com os protetores solares aplicados na pele. Deve-se fazer a fotoproteção não somente na exposição intencional, como ida à praia, mas em todas as atividades diárias, incluindo atividades corriqueiras, como espera na parada de ônibus, horário de educação física e recreação.

  • Alguns vírus são responsáveis pela ocorrência de câncer no adulto, destacando-se o vírus do papiloma humano (HPV) na indução de câncer de colo uterino, pênis e de orofaringe; e o vírus da hepatite B na indução do hepatocarcinoma. Ambos os vírus podem acometer crianças e adolescentes, tornando-se crônicos e indutores de tais tumores no adulto. Felizmente a infecção por esses vírus pode ser prevenida pela vacinação. O calendário vacinal brasileiro inclui desde os primeiros meses a vacinação para hepatite B e, na adolescência, para o HPV.

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