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Disforia de gênero, um desafio para pediatras e pacientes

O tema disforia de gênero, na conferência do psiquiatra Alexandre Saadeh, durante o CONSOPERJ, levantou questões importantes como desafios no atendimento, dúvidas e dificuldades, tanto por parte dos pais, como dos filhos, e também dos pediatras, com relação a este tema. Responsável pela triagem de crianças e adolescentes e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, Dr Alexandre Saadeh afirmou que a visão transdisciplinar é o que norteia o trabalho da equipe. “Cada profissional contribui com sua visão e área de formação, produzindo, então, uma maneira que é a agregação complexa desses conhecimentos e não a simples somatória deles”, disse o médico, responsável por uma equipe de mais 40 profissionais entre psicólogos, psiquiatras, fonoaudióloga, assistente social, gineco-obstetrícia e todo o Serviço de Endocrinologia do Instituto da Criança do HCFMUSP.

Desde 2010, quando foi criado, o ambulatório já fez a triagem de mais de 600 pacientes entre adultos, adolescentes e crianças. Atualmente estão em acompanhamento 55 crianças, 131 adolescentes e 81 adultos. São pessoas que enfrentam no dia a dia o peso das dúvidas sobre a identidade de gênero. Na sua palestra, Dr Alexandre Saadeh mostrou como conduzir essa temática no seio familiar e a importância de ouvir as crianças e suas dúvidas e como os pediatras precisam lidar com essa questão no atendimento. “O Amtigos foi criado para acompanhamento da população transexual adulta, mas, no final de 2010, chegaram os dois primeiros adolescentes, ambos com 17 anos, e no final de 2011, atendemos a primeira criança, à época com quatro anos de idade. Desde então atendemos a todas as faixas etárias. Em 2015, fecharam as triagens para a população adulta, tendo em vista a alta demanda de crianças e adolescentes. O objetivo do trabalho no ambulatório é oferecer acompanhamento integral para a população transexual, independentemente de sua faixa etária”, esclareceu.

Formado pela Universidade de São Paulo, Dr Alexandre Saadeh estuda a sexualidade humana há mais de 20 anos. Ao criar o ambulatório, ele imaginava que o público seria majoritariamente adulto. No início foi, mas a procura de menores de 18 anos cresceu substancialmente, e, por isso, a decisão de iniciar a assistência para essa faixa etária, hoje um diferencial do centro médico. Segundo ele, o assunto é atual e relevante, pois diz respeito a uma população que era invisível há muito tempo e se tornou uma realidade, seja na idade adulta, adolescente ou infantil. “Cada vez mais as crianças podem ser ouvidas em suas verdades e não as que os adultos preferem ouvir. Os adolescentes cada vez mais podem ser donos de seus corpos e serem congruentes com eles. Esse é o trabalho a ser feito: prevenir bullying e depressão; evitar autolesões e tentativas de suicídios; reparar danos que foram causados ao longo da vida nessas pessoas e contribuir para que se sintam como qualquer outro ser humano, cheio de particularidades, mas incluído, respeitado e valorizado por essas mesmas particularidades que os compõem”, declarou em sua palestra.

O psiquiatra disse que a equipe enfrenta resistências em várias áreas, mas a divulgação dos aspectos científicos, mostra trabalho sério e responsável, além de cuidadoso com a saúde e desenvolvimentos infantil e adolescente. Para ele, a disforia de gênero/incongruência de gênero não é considerada uma doença. No entanto, é preciso um diagnóstico para fazer qualquer intervenção médica. “Nosso papel, médicos e pais, é ajudar essa criança nessa situação. Tanto faz se é menina ou menino, essa criança nessa particularidade. É transformador você lidar com a questão de seu filho não ser aquilo que você imaginou, e lidar com seu filho por quem ele é”, declarou.

Para uma plateia atenta aos questionamentos sobre disforia de gênero, Dr Alexandre Saadeh afirmou que a maior parte dos pais vê na criança uma realização de seus sonhos, fantasias e o que gostariam de ter tido quando crianças. No entanto, essas crianças que chegam ao ambulatório coordenado por ele, revelam a seus pais o quanto elas são diferentes deles. O médico acredita que se essa criança for ouvida e acompanhada, é possível se evitar uma adolescência traumática, com buylling, abandono de escola, isolamento social e um sofrimento que, hoje em dia, é desnecessário. “Ninguém precisa passar por isso”, desabafou.

O Amtigos foi o primeiro ambulatório a lidar com essas questões. Hoje, existem três no Brasil: o de São Paulo, um outro dentro da Universidade de Campinas (Unicamp), que abriu em janeiro do ano passado, e um terceiro em Porto Alegre. Esses são os únicos três ambulatórios que atendem crianças e adolescentes do país inteiro.

Dr Alexandre Saadeh afirmou que a questão de transição de gênero sempre existiu e que faz parte da nossa espécie. “Da Patagônia à Sibéria, em todas as culturas. Não é um fenômeno somente do mundo ocidental, do mundo moderno ou algo que está acontecendo só agora. Isso sempre existiu. A transexualidade não tem relação nenhuma com a raça. Pode acontecer em negros, orientais, acontece, aparece, é algo que está aí. E a gente precisa aprender a escutar as crianças. E isso é o mais importante. Quem somos nós para discordar de uma criança que diz que é uma menina ou menino”, questionou o médico psiquiatra ao final de sua palestra.

*Com informações da Assessoria de Imprensa da Soperj


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