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Em entrevista, 3ª Diretora financeira da SBP fala sobre sua trajetória profissional e avalia a atual situação da pediatria no País

Pediatra com mais de 35 anos de carreira e atuação destacada no ensino médico e na assistência a crianças e adolescentes no estado de Goiás, a 3ª diretora financeira da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), dra. Fátima Maria Lindoso, foi recentemente empossada como membro titular da Academia Goiana de Medicina (AGM). Em entrevista ao SBP Notícias, ela relembra as motivações que a encaminharam para a pediatria e aborda pontos cruciais de sua trajetória profissional.

Ao detalhar sua experiência como professora titular do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Goiás (UFG), a especialista enfatiza como percebe seu trabalho, que, como afirma, mais do que transferir informações, sempre teve como meta auxiliar os estudantes na busca pela construção do próprio conhecimento e autonomia intelectual.

Dra. Fátima faz também uma análise sobre os anseios e questionamentos que cercam os pediatras em início de carreira, além de discorrer a respeito do problema da falta de valorização enfrentada pelos médicos, seja nos serviços públicos ou na medicina privada. Ela destaca ainda como as ações contínuas desenvolvidas pela atual diretoria-executiva da SBP vêm contribuindo para uma melhora na percepção dos médicos e da população em geral sobre a especialidade.

CONFIRA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA ABAIXO:

SBP Notícias - Em que momento de sua trajetória decidiu atuar na assistência às crianças e aos adolescentes?

Dra. Fátima Lindoso - Decidi ser pediatra no final do curso de Medicina. A disciplina de Pediatria foi ministrada por excelentes professores, que amavam trabalhar com crianças. Mesmo tendo a prática mais voltada para as unidades hospitalares, tínhamos ambulatórios nos serviços públicos e também em comunidades de baixa renda, onde a intervenção do pediatra fazia diferença significativa através do cuidado. Cursei Faculdade de Medicina em Recife e durante meu curso busquei desenvolver várias atividades em diferentes áreas. Porém, as que mais me deixavam feliz e realizada eram aquelas que envolviam crianças. No quinto ano do curso, durante o estágio na pediatria, defini seguir minha carreira. Realizei residência na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, entre 1982 e 1984. Em seguida, de 1984 a 1986, fiz subespecialidade em Gastroenterologia Pediátrica na UNIFESP, onde também realizei meu mestrado, entre 1985 e 1988, e cursei ainda o doutorado, de 1989 a 1993.

SBP Notícias - Poderia destacar alguns tópicos sobre sua trajetória profissional? Quais as realizações advindas da Pediatria?

Dra. Fátima Lindoso - Ao término de minha subespecialização em Gastropediatria fui residir em Goiânia, juntamente com meu esposo. Em 1987, por concurso, ingressei na carreira docente no Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FM-UFG). Em 1995, aos 36 anos de idade, prestei novo concurso e me tornei professora Titular de Pediatria da instituição. Assumi várias funções com as quais muito aprendi e fiz grandes amizades. Fui chefe do serviço de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas (HC) da UFG; preceptora da Residência de Pediatria; e, após, chefe do Departamento de Pediatria. Também atuei em outras funções, como subcoordenadora da Pós-Graduação da FM; coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Pós-graduação do HC; e membro da Comissão de Acompanhamento do PROSAUDE. Também integrei a Comissão de Ensino Médico da FM-UFG, coordenei a implantação de Metodologia Ativa da FM-UFG e integrei a Comissão de Desempenho Acadêmico da FM-UFG, além de ter coordenado o Núcleo de Ensino e Pesquisa em Saúde (NEPES) FM-UFG e o Núcleo Livre Pronto Sorriso. Nessa trajetória, destaco igualmente minhas atuações como professora da disciplina Humor no Cuidado, da Pós-Graduação Ciências da Saúde FM-UFG; representante da UFG no Conselho Curador FUNDAHC; orientadora do Programa de Mestrado Profissional da FM-/UFG; e coorientadora da Pós-graduação em Ciências da Saúde. Posso acrescentar ainda meus trabalhos como docente na Comissão de Implantação do curso de Medicina em Jataí; membro do Conselho Universitário (CONSUNI); e coordenadora, vice-diretora e diretora da FM-UFG.

SBP Notícias – Há alguma experiência que deixou uma lembrança especial?

Dra. Fátima Lindoso – Sim. No período de chefia do Departamento de Pediatria, tive a oportunidade de desenvolver um trabalho em equipe multiprofissional que muito me enriqueceu o espírito. Composta por pediatras, psicóloga, nutricionista, assistente social, pedagoga, enfermeiras e musicoterapeuta, a equipe trabalhava visando ampliar a assistência às crianças da Unidade Pediátrica do HC/UFG para extramuros. Sendo assim, fundamos uma associação denominada “Rede Multidisciplinar de Atenção Integral à Saúde da Criança e do Adolescente”, a qual mais tarde passou a integrar o projeto nacional denominado Saúde Criança Goiânia, que atualmente passou a ser denominado de Amor Solidário. Neste projeto, cada família é atendida, individualmente, a partir das suas necessidades e potencialidades com o objetivo de melhorar sua qualidade de vida e reduzir o número de internações das crianças e adolescentes. Nessa caminhada, sempre procurei nortear minha vida docente e administrativa, tendo como guia um ensinamento do farol da educação no Brasil, Paulo Freire, que disse “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”.

SBP Notícias - Como professora da UFG, quais anseios e questionamentos são mais observados nos pediatras em início de carreira? Ao longo dos anos, percebeu alguma mudança no perfil dos especialistas?

Dra. Fátima Lindoso - De forma geral, penso que a medicina no Brasil está passando por uma grave crise decorrente da maneira equivocada como as autoridades governamentais vem compreendendo e atuando em relação às necessidades de saúde da população e de como deveria ser um adequado atendimento médico. Em relação à pediatria, estamos vivendo uma enorme dificuldade devido a não valorização do nosso trabalho. O pediatra é o único médico qualificado para prestar assistência à saúde da criança e do adolescente de forma integral, iniciando estes cuidados desde a fase pré-natal. A capacitação pode ser por meio de um Programa de Residência Médica de três anos ou por prova para obtenção do Título de Especialista em Pediatria (TEP) e do Título de Área de Atuação em todas as especialidades pediátricas realizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB). Ao longo dos anos, venho observando uma diminuição progressiva no interesse dos acadêmicos recém-formados em relação a escolha profissional relacionada à pediatria em função das condições inadequadas de trabalho e dos excessos da carga horária, assim como pela não valorização do atendimento da puericultura, da má remuneração do pediatra e do número reduzido de vagas de residência médica para esta especialidade. Entretanto, por meio do trabalho exaustivo da SBP, de suas filiadas e de algumas escolas médicas onde a pediatra ainda é modelo de ensino, observamos recentemente mudanças relacionadas a procura por esta especialidade. Por exemplo, em junho de 2018 cerca de 67 médicos e residentes fizeram os exames de TEP (Título de Especialista em Pediatria) em Goiânia.

SBP Notícias - Com base em sua experiência, como define o exercício da medicina e da pediatria?

Dra. Fátima Lindoso - Este ano, em dezembro, completarei 37 anos de uma longa e feliz caminhada no exercício da medicina. Minha geração conheceu a fase áurea desta profissão, a qual deve sempre ser baseada no respeito, na ética, no amor e na compaixão ao doente. O cuidado ao paciente requer confiança, sigilo e credibilidade. Nós, pediatras, temos uma posição única e especial dentre os profissionais de medicina, por atuarmos de forma preventiva e curativa em uma das fases mais delicadas da vida, em constante evolução, desde a sua concepção até o término da adolescência. Lidamos não só com a criança, mas com tudo a ela relacionado: a família e o seu ambiente. Infelizmente, a medicina brasileira está passando por uma terrível fase. Lamentavelmente, atitudes equivocadas do governo brasileiro comprometeram de forma inexorável a formação médica no País, nos últimos anos. Desse conjunto, destaco de modo especial, a política de abertura indiscriminada de escolas médicas, que tomou como base a justificativa da falta de médicos em certas regiões, particularmente nas mais afastadas dos grandes centros urbano. Porém, estudos mostram que escolas médicas não mantém médicos em nenhum lugar. O que fixa os especialistas são condições dignas de trabalho. Por isso, armou-se um verdadeiro tsunami na formação médica brasileira. Temos mais de 300 escolas médicas no Brasil, uma situação que compromete a qualidade da formação, pois várias faculdades não têm a menor infraestrutura – como hospitais próprios ou docentes com titulação de mestres e doutores – para oferecer o ensino adequadamente.

SBP Notícias - Qual a importância de fazer parte do grupo de especialista da Academia Goiana de Medicina (AGM)?

Dra. Fátima Lindoso - A Academia Goiana de Medicina completou 30 anos de existência em 2018. É fruto do esforço, coragem e dedicação de seus fundadores: drs. Celmo Celeno Porto, Georthon Rodrigues Philocreon, Jofre Marcondes de Resende (in memorian), Simão Carneiro de Mendonça (in memorian), Francisco Ayres (in memorian) e José Normanha. Estes médicos desenvolveram uma medicina ilibada e ética, no mais elevado grau de competência, cumprindo o digno mister de cuidar do doente, conservando imaculadas a vida e a arte. Estes fundadores foram visionários e acreditaram em um sonho, mantendo viva a história e a tradição da medicina goiana. Com isto, estabeleceram a união dos tempos - passado, presente e futuro -, construindo um trajeto a ser seguido pelos seus sucessores com fundamentos bem estabelecidos, os quais norteiam o melhor caminho a ser trilhado, com sabedoria e consciência. Por isso, passar a integra a AGM é um enorme privilégio. Receber o convite para concorrer a uma vaga na Academia e ter sido aprovada me trouxe enorme felicidade, pois pude perceber que meu percurso profissional foi reconhecido por mérito entre meus pares. Estou muito honrada, mas não será tarefa fácil substituir o professor dr. Argeu Clóvis de Castro Rocha, que, ao longo de sua carreira, desenvolveu extensa atividade de ensino; contribuiu para a formação de inúmeros profissionais da ginecologia e obstetrícia; exerceu inúmeros cargos nos serviços públicos; presidiu algumas sociedades médicas; e recebeu vários títulos e honrarias.

SBP Notícias - Qual a sua expectativa em relação ao trabalho na AGM?

Dra. Fátima Lindoso - A Academia Goiana de Medicina tem como missão contribuir para o estudo e desenvolvimento das boas práticas da medicina e das ciências afins, bem como colaborar com as autoridades governamentais, sendo órgão de consulta relacionado à saúde da comunidade e educação médica no Estado de Goiás. Penso que poderei colaborar com os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pela AGM em prol da ciência e do bem-estar da comunidade, uma vez que é papel das entidades médicas fazerem amplo debate sobre os diversos temas que envolvem as práticas médicas. Nós, que pertencemos a esta Academia, devemos não apenas levarmos nossas preocupações, mas também prováveis soluções para os futuros governantes.

SBP Notícias - Em Goiás, a senhora também atua diretamente nas ações elaboradas pela Sociedade Goiana de Pediatria em defesa de saúde de crianças e adolescente e pela valorização profissional. Quais são os desafios enfrentados no estado?

Dra. Fátima Lindoso - Alguns dos desafios enfrentados em Goiás também têm sido observados em outros estados, entre eles estão os decorrentes da não valorização do trabalho do pediatra, tanto nos serviços públicos, como na medicina privada; das jornadas excessivas de trabalho; da má renumeração; do ambiente de trabalho insalubre; e da inadequada remuneração da consulta de puericultura. Em relação à defesa da saúde das crianças e adolescentes, a SGP tem desenvolvido um excelente trabalho, comandado pela presidente da entidade, dra. Marise Tofoli. Por meio de palestras e campanhas, sempre abordamos assuntos como a importância da puericultura na prevenção de doenças na infância; o incentivo ao aleitamento materno como fator de proteção contra possíveis agravos da vida futura; a alimentação saudável nos primeiros mil dias de vida; a valorização do crescimento e desenvolvimento na promoção à saúde da criança e do adolescente; entre outros. Foi reorganizado também um site voltado para atender as necessidades do pediatra, bem como dos pais ou cuidadores.

SBP Notícias - Como a senhora avalia as atividades desenvolvidas pela atual gestão da SBP? Quais os principais avanços conquistados e pontos que gostaria de destacar?

Dra. Fátima Lindoso - A atual diretoria-executiva da SBP, sob a égide da dra. Luciana Rodrigues Silva, tem desenvolvido todas as suas ações de forma transparente e resolutiva. O grupo busca parcerias com todos os presidentes de filiadas e desenvolve um trabalho descentralizado, democrático e participativo, sempre visando atingir com profundidade os anseios da pediatria brasileira e as questões que envolvem a criança. É um trabalho que requer atenção, esforço, paciência, dedicação e respeito. Tenho observado um crescimento continuo na busca dos pediatras pela SBP justamente por estarem percebendo os benefícios destas ações.


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