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SBP faz alerta sobre a representação midiática de crianças e adolescentes em casos de violência

O papel da mídia ao abordar a imagem de crianças e adolescentes no contexto da violência foi o tema central da palestra apresentada pela secretária do Departamento Científico de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), dra. Evelyn Eisenstein, durante o Fórum de Pediatria do Conselho Federal de Medicina (CFM), realizado em Brasília (DF). Na ocasião, a especialista questionou a abordagem dos veículos de comunicação, principalmente, a falta de contextualização na cobertura de casos em que crianças e adolescentes são agentes ou vítimas da violência.

“Recentemente, um bebê foi baleado dentro do útero da mãe, na periferia do Rio de Janeiro. A mídia, ao invés de simplesmente noticiar, deveria ter levantado questionamentos sobre o porquê de ocorrerem tiroteios em comunidades a qualquer hora do dia. A pauta precisa incluir o direito à proteção da população que vive nessas localidades. Mas, infelizmente, no geral falta aprofundamento nas questões”, destacou a médica.

De acordo com a dra. Evelyn, muitos jornalistas não recebem treinamento adequado para representar a criança na mídia ou debater a fundo questões sociais. Como consequência, violações à privacidade e à dignidade são regularmente cometidas. “Ocorrem várias exposições indevidas de imagem por parte da imprensa. O uso de termos pejorativos também é constante. Além do mais, a contextualização das notícias geralmente é baseada em fontes da esfera criminal, o que estreita a percepção entre causa e consequência dos problemas”, pontuou.

Outro destaque da palestra foi a discussão sobre distorção e abordagem tendenciosa de determinados temas. “Um grande absurdo que observamos foi a discussão sobre a redução da maioridade penal proposta pela Câmara dos Deputados. O Brasil é signatário da Convenção dos Direitos da Criança adotada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que estipula a maioridade em 18 anos. Não é admissível que contextos políticos mais instáveis tentem retirar direitos mundialmente ratificados”, explicou a pediatra.

SENSACIONALISMO – Segundo a dra. Evelyn, o processo gradativo de apagamento da fronteira entre jornalismo e entretenimento coloca em xeque a credibilidade da informação que recebemos pelos veículos tradicionais, fenômeno caracterizado como espetacularização da mídia. Programas de rádio e televisão tem utilizado cada vez mais o apelo sensacionalista e explorado a imagem de vítimas da violência.

De outro lado, as redes sociais vêm sendo utilizadas para propagar discursos de ódio e intolerância. “As mídias são reflexivas entre si e, como câmaras de eco, ampliam a sensação de violência. Notícias, fotos, vídeos e imagens se multiplicam sem responder a qualquer critério ético. Infelizmente, o espetáculo por si se tornou mais importante que o debate do conteúdo”, ressaltou.

PROTEÇÃO SOCIAL – Premissas sobre direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também foram enfatizados na exposição. “Toda criança tem direito à vida plena, com acesso à saúde, a áreas de lazer, à segurança e à escola pública de qualidade. São direitos básicos de proteção social. Mas, na prática, isso não acontece. No Rio de Janeiro, por exemplo, todos os dias temos escolas sendo fechadas por causa da troca de tiros”, lamentou.

Durante a palestra, a dra. Evelyn apresentou ainda uma série de sugestões que podem ser aplicadas por médicos e suas entidades profissionais no combate à violência infantojuvenil. Entre elas, a elaboração de campanhas sobre as consequências a curto e longo prazo dos maus tratos; a promoção de treinamento adequado nos cursos de graduação em medicina para o reconhecimento de agressões físicas em crianças e adolescentes; e o incentivo à educação em saúde para as próprias crianças e suas famílias.

Além destas iniciativas, ela apontou o desenvolvimento de ações intersetoriais com a mídia e outros órgãos de apoio, como a Rede de Jornalistas Amigos das Crianças da ANDI e o posicionamento ativo à respeito da dignidade humana e dos direitos à vida de crianças e adolescentes como pontos fundamentais para o combate à violência.


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