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Vigilância sobre doenças infecciosas deve ser permanente, orienta presidente do 19º Infectoped

infectoped2016

“O volume de novos conhecimentos na área de infectologia e, especificamente, aqueles relacionados à faixa etária pediátrica, se renova rapidamente, sendo necessária a atualização constante”. A avaliação é do dr. Robério Leite (foto), presidente do 19º Congresso Brasileiro de Infectologia Pediátrica (Infectoped 2016), que aconteceu em Fortaleza, no início de novembro. O evento foi palco para intensos debates sobre a prevenção à zikavirose, Ebola, sífilis congênita, rubéola, sarampo, dentre outros problemas de saúde, e o impacto dessas doenças na saúde de crianças e adolescente. 

Nesta entrevista à Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que em parceria com a Sociedade Cearense de Pediatria (SOCEP) protagonizou a realização do maior encontro nacional na área, dr. Robério Leite faz um balanço sobre os cinco dias de atividades no evento, por onde passaram mais de mil participantes. Para o infectologista, que também é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Departamento Científico de Infectologia da SBP, “ainda falta muito a evoluir na compreensão e enfrentamento das doenças infecciosas emergentes e também nas que insistem em ressurgir”.  

Confira abaixo a íntegra da entrevista: 

SBP: O Congresso reuniu mais de mil pessoas em Fortaleza. Ao que o senhor atribuiu esse alto grau de interesse? 

Dr. Robério Leite (RB): Os temas relacionados à infectologia pediátrica interessam a todos, independentemente da especialidade, e são de grande relevância para a saúde pública, sobretudo as doenças emergentes e suas repercussões para a saúde humana. Nos últimos dois anos, tivemos muitas surpresas nesse sentido, como o aumento da incidência dos vírus Ebola, Zika e Chikungunya, por exemplo. Portanto, são assuntos que despertam o interesse e a curiosidade de todos. 

SBP: Todos os anos o Brasil é assombrado pelo vírus da dengue. Quais as novidades que o Congresso trouxe sobre esse tema?  

RB: A maior novidade é que hoje dispomos de mais uma arma para o enfrentamento desse vírus, que é a vacina contra a dengue, licenciada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para uso no Brasil. Discutiu-se também a necessidade de capacitação dos pediatras para a diferenciação clínica das doenças exantemáticas no atual contexto da tríplice epidemia de dengue, zika e chikungunya. 

SBP: O que se pode esperar da vacina contra a dengue? Existe uma previsão para a vacina entrar no calendário do Programa Nacional de Vacinação?  

RB: Os estudos clínicos da vacina contra a cengue demonstraram que ela é capaz de conferir uma proteção substancial contra formas graves e reduzir a necessidade de hospitalização. Isso é fundamental para diminuir os óbitos e também os custos da doença. Com relação à incorporação da vacina contra a dengue ao calendário do Programa Nacional de Vacinação, isso depende da conclusão de estudos de custo-benefício para avaliação da viabilidade da sua adoção. Os calendários da SBP e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) já trazem essa recomendação. 

SBP: Outro vírus que tem assustado o brasileiro é o Zika. Existem muitas dúvidas sobre ele. Qual contribuição que os palestrantes trouxeram para o debate deste tema? 

RB: A principal contribuição internacional foi a de trazer um panorama epidemiológico atualizado da dispersão global do vírus Zika e de como as outras formas de transmissão, como a por via sexual, poderão repercutir em relação ao seu controle. Tivemos ainda o privilégio de contar com a presença de colegas de Pernambuco e do Ceará, que estão participando ativamente do acompanhamento clínico das gestantes e de seus bebês com microcefalia. De modo pioneiro, foi divulgado o conjunto de aspectos clínicos e de alterações nos exames de imagem que caracterizam a Síndrome da Infecção Congênita pelo Vírus Zika. 

SBP: Casos de sífilis congênita tem voltado à cena e o Ministério da Saúde lançou, recentemente, uma campanha nacional de prevenção. O que mais pode ser feito? 

RB: Reafirmamos durante o Congresso a necessidade imperiosa de melhorar a qualidade da assistência no pré-natal como forma mais eficaz para enfrentar o aumento da sífilis congênita no Brasil. Também foi muito importante discutir ainda as alternativas do tratamento dos bebês com sífilis congênita no contexto do desabastecimento de penicilina cristalina. 

SBP: Nos últimos dois anos a vacinação de meninas de nove a 13 anos contra o HPV tem causado polêmica. Ainda hoje sobram essas vacinas nos postos de saúde. De que forma os pediatras podem a desmistificar o tema? 

RB: Vacinar adolescentes é, por si só, um desafio em todo o mundo e aqui, no Brasil, não é diferente. O pediatra pode contribuir de diferentes formas: um primeiro aspecto é o de esclarecer que se trata de uma vacina segura, com evidências em estudos clínicos e no acompanhamento, após sua comercialização. Além disso, o pediatra pode focar no esclarecimento de que se trata de uma proteção contra o segundo principal câncer responsável por mortes entre as mulheres e que a melhor idade para oferecer essa proteção é entre nove e 14 anos. 

SBP: O Brasil é referência no tratamento do HIV. Por outro lado, todos os anos centenas de brasileiros são infectados por vírus comuns em países bem mais pobres. O que fazer para mudar essa realidade? 

RB: Essa mudança passa por uma transformação de atitudes e de comportamento da sociedade. E isso é sempre muito difícil e desafiador. É preciso educar, principalmente os jovens, para a adesão à adoção de condutas de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis que não eram do hábito das gerações anteriores. Especificamente em relação ao HIV, o estímulo à realização do teste e a ampliação da indicação do tratamento logo após o diagnóstico deverão ter impacto na redução da transmissão. 

SBP: Os casos de HIV e de sífilis estão aumentando, a dengue não dá trégua e o Zika também tem assustado. O que mais preocupa os infectologistas nesse momento? 

RB: Todas essas questões são preocupantes, embora o Zika pareça, no momento, pelas surpresas e incertezas para a ciência, o tema mais desafiador. No entanto, o mais importante é que temos ainda muito a avançar para a compreensão e enfrentamento das doenças infecciosas emergentes e reemergentes, cada uma ocupando a cena principal ao seu tempo ou mesmo resistindo secularmente, como a sífilis.

 

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