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Há três anos, Márcia Beiral e Ana Cristina Cartágenes, alunas do 9° período do curso de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), experimentaram trocar o jaleco branco por outro, bem colorido, e o estetoscópio por um livro, e percorrer o Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG). As duas fazem parte do Projeto de Extensão Universitária Alunos Contadores de Histórias do IPPMG, que todo semestre reúne 70 estudantes de diversos cursos com a missão de promover uma atividade lúdica com crianças e adolescentes atendidos na instituição.

Por duas horas semanais, cada um deles circula por enfermarias, ambulatórios e centros de terapia intensiva, contando histórias para os pequenos pacientes. Essa é uma iniciativa que, além de humanizar o espaço hospitalar, transforma o olhar clínico do futuro profissional. “Na Medicina, somos acostumados a ver o paciente, antes de tudo, como a doença que ele tem e como a gente vai tratar aquela doença. No projeto, consigo enxergar a criança com todas as potencialidades de uma criança, que quer se divertir, dar um sorriso, independentemente de estar com o braço imobilizado, recebendo medicação”, conta Márcia. “O projeto me trouxe isto: é importante não esquecer que estou tratando de uma criança”, resume.

Ana Cristina concorda com Márcia e diz que ver o paciente como um ser integral, além da patologia, fez com que ela levasse a experiência para seu dia a dia. “Uma vez, estava atendendo no ambulatório uma criança com uma dor aguda que não deixava a gente examinar direito. Comecei a contar a história do “grúfalo” para ela, que é o meu livro preferido, e ela passou a prestar atenção na história e deixar a gente fazer o exame. O médico que estava comigo perguntou: ‘Sério que você está contando história?’. Desci, peguei mais livros, e aí conseguimos fazer todos os exames, porque a gente criou um vínculo”, relembra a estudante. “Ganhei a confiança dela naquele momento. Ela parou de me ver como a médica má que quer apalpar a barriga que está doendo e, provavelmente, passou a me ver como uma amiga.”

Quando o projeto nasceu, em 2008, era restrito aos cursos da área de saúde, mas foram tantos alunos de outros cursos interessados na iniciativa, que ele passou a integrar a grade de extensão da universidade. “Neste ano, cerca de 300 estudantes participaram do encontro de apresentação do projeto, num sábado de sol de janeiro, e as vagas foram preenchidas em menos de cinco minutos na internet”, comemora a fisioterapeuta e especialista em literatura infantil Regina Fonseca.

Ao lado da enfermeira Verônica Pinheiro e da pediatra Sônia Motta, Regina está à frente da iniciativa desde o início. Elas fazem a seleção e o treinamento dos contadores em três momentos. Primeiro, eles assistem a palestras com profissionais do hospital para conhecerem a complexidade do espaço e dos pacientes. Em seguida, participam de uma oficina de contação de histórias. Por último, fazem um estágio de quatro horas em todos os espaços onde vão circular no IPPMG.

Hoje, as fundadoras do projeto têm uma equipe de coordenadores bolsistas, que desenvolve todo o trabalho com a nova turma capacitada. São 15 apoiadores, alunos há mais tempo no projeto, como Márcia e Ana Cristina, que são “padrinhos e madrinhas” dos novos contadores. São eles que, além de acompanharem o dia a dia dos alunos da iniciativa em cada semestre, selecionam os livros, organizam as festas de confraternização e atualizam a página Alunos Contadores de Histórias no Facebook.

“É o que nós chamamos de protagonismo. Toda uma proposta de dar autonomia aos estudantes a partir da entrega dele ao projeto”, explica a pediatra Sônia Motta. “Cada aluno que sente o projeto como dele faz a diferença. Ele não está aqui cumprindo nada. Ele é responsável por tudo o que acontece aqui dentro”, completa Regina.

O vínculo com a iniciativa muitas vezes não termina nem mesmo quando o aluno conclui a graduação em Medicina. Patrícia Eloan, 27 anos, formada em Medicina desde 2013 e residente em Pediatria, tornou-se contadora de histórias em 2010 e, atualmente, integra o grupo sempre que há um evento comemorativo. A futura pediatra diz que o projeto foi fundamental para ter certeza de que queria tratar mesmo de crianças. “Aqui eu descobri que podia e queria fazer o paciente sorrir, mesmo quando ele está enfrentando uma doença grave”, diz ela.

Janaína Alves, graduada em julho, conta que, ao ingressar no projeto, em 2012, aprendeu a dialogar com os pequenos. “Se você consegue falar a linguagem da criança, ela vai te responder, e isso é fundamental em uma consulta. É ela que você tem que ouvir, e não apenas os pais”, conclui. A jovem destaca ainda a importância da leitura no tratamento. “O lúdico e a imaginação de fato influenciam no curso da doença de alguma forma. Pode não ser a cura, mas o estado da criança muda. Hoje, na minha abordagem, tenho muito do Contadores”, reconhece. Janaína comemora ainda a influência que o projeto também tem no comportamento dos pais. Segundo a médica, a mãe de um de seus pacientes fez questão de que ela soubesse que havia adotado a leitura no dia a dia da criança em casa. Mais uma conquista dos Alunos Contadores de Histórias.

Histórias que merecem ser contadas

“Tive uma paciente grave, entubada, que não interagia comigo. Sempre que contava história, ela estava olhando para o teto. Achava que eu devia ser muito ruim contando história, mas toda semana eu voltava e lia para ela. Passaram-se duas semanas, um dia estava andando rápido com o meu jaleco branco de aula pelo hospital e olhando para baixo quando uma criança gritou: ‘É ela, é ela!’. Quando levantei os olhos, era essa paciente no colo da mãe apontando para mim e dizendo: ‘É ela que conta história para mim’. Quase comecei a chorar. De alguma forma, a criança me reconheceu. Mesmo quando a gente acha que não está sendo ouvida, mexe de alguma forma com os pequenos. Sei que ela passou por coisas difíceis, mas, se eu tiver contribuído um pouquinho para trazer um pouco de alegria para ela, já me sinto recompensada.”
Márcia Beiral, aluna do 9° período de Medicina.

“No início do projeto, os médicos não gostavam muito da presença dos contadores de histórias, por acharem que atrapalhava a rotina do atendimento. Certo dia, eu contava história para uma criança internada na Emergência do IPPMG, quando a médica pediu que me afastasse para que ela pudesse colher sangue para análise. ‘Eu ouço com os ouvidos!’, disse o pequeno Mauro quando me afastei do leito. Imediatamente, voltei para perto do Mauro e continuei contando a história. O garoto ouvia e participava da história – sem uma lágrima, enquanto a jovem doutora retirava seu sangue para análise.”
Regina Fonseca, especialista em literatura infantil
e uma das coordenadoras do projeto

“Uma vez na enfermaria, contei a mesma história cinco vezes. Toda vez que eu terminava uma criança gritava: ‘De novo!’. Eu falava que o monstro tinha ido embora, e o garoto mostrava a capa e dizia: ‘Ele voltou!’.”
Ana Luiza Ceia, formanda do curso de Medicina

“Eu me apaixonei pela Pediatria contando história. Estava lendo uma história no CTI (Centro de Terapia Intensiva) para uma menininha, que não fazia nada, tinha o olhar vago. E, quando estava contando a história, percebi que ela acompanhava a leitura com os olhos. Quando terminei, perguntei a ela se queria outra história e ela piscou os olhos. Nessa hora a mãe disse: ‘Ela quer, ela gosta’. Naquele dia, contei três ou quatro histórias para ela. No final, deixei um desenho e o giz de cera que a gente dava para as crianças, mas confesso que fiquei na dúvida se deixava ou não, porque ela não se mexia. A mãe percebeu e disse ‘Pode deixar que eu a ajudo a pintar’.”
Janaína Alves, graduada em Medicina (julho 2015)