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É preciso estimular a doação de órgãos no Brasil, afirma a presidente do DC de Cardiologia da SBP

SBP em Ação 29/09/2016

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No Brasil, a situação dos transplantes de coração em crianças e adolescente é muito delicada. O País acompanhou há poucos meses a notícia de um transplante de coração infantil que deixou de ser realizado por falta de transporte da Força Aérea Brasileira (FAB). O órgão sairia de Minas Gerais para Brasília, aonde a criança estava internada. Algumas semanas depois, o paciente morreu. A FAB alegou, sem entrar em detalhes, que problemas operacionais impediriam o transporte. Contudo, dramas assim não são raros.

Segundo estimativas do Departamento Científico de Cardiologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, cerca de 23 mil crianças nascem, anualmente, no Brasil, com diagnóstico de cardiopatia congênita e necessitam de tratamento cirúrgico, mas 65% não têm acesso ao tratamento indicado. Os maiores índices de defasagem estão nas regiões Norte e Nordeste (93,5% e 73,4% respectivamente). E os menores nas regiões Sul e Centro Oeste, com 46,4% e 57,4% respectivamente. O resultado é uma alta mortalidade e restrição da qualidade de vida. O que poderia ser evitado, uma vez que 70% dessas crianças têm potencial de cura com o tratamento correto. 

Para a presidente do Departamento Cientifico de Cardiologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), dra Patrícia Guedes, alguns estados do Brasil, principalmente no Norte e Nordeste, sequer realizam cirurgias cardíacas mais simples. Por isso, ela acredita que o número de 38 pacientes pediátricos que esperam na fila por um transplante cardíaco, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), é subnotificado.

“Em muitos estados as demandas não são inseridas dentro do cadastro nacional. Isso ocorre porque, como falta estrutura para operações cardíacas, a família precisa se mudar de estado para esperar um transplante e como muitas não têm condições para isso, sequer passam a fazer parte do cadastro” explica a dra Patrícia. Outro ponto sensível é a falta de cirurgiões cardíacos pediátricos e médicos instensivistas especializados nessa cirurgia em crianças.

Em 29 de setembro se comemora o Dia Mundial do Coração, instituído pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A data, que mobiliza entidades de todo o mundo para promoverem ações de prevenção a doenças cardíacas e reforçarem suas campanhas de incentivo à doação do órgão para transplante, é um momento oportuno para se refletir sobre estes problemas.

Uma das medidas necessárias para reverter o quadro, afirmam os especialistas, é incentivar a doação de órgãos no Brasil, que está muito atrás de nações como Espanha que tem 30 pmp, ou seja, 30 doadores para cada um milhão de habitantes. A média brasileira no primeiro semestre de 2016 foi de 14 pmp. Nesse ritmo, dificilmente a meta da ABTO, 17 pmp, será alcançada.

Entre os motivos para essa avaliação prévia, é o desempenho registrado nos três estados mais populosos, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, cujas taxas de doação estão em patamares inferiores aos de 2015. Em nível nacional, Santa Catarina consolida-se no topo do ranking, com taxas comparáveis às de países desenvolvidos.

Outro ponto a ser trabalhado pelo governo e pela sociedade é a logística para a realização de um transplante de coração. O tempo entre a retirada do órgão do doador e a implantação no receptor não pode ultrapassar cinco horas. Porém, em um País de dimensões continentais o transporte se torna um desafio, aumentando ainda mais as dificuldades enfrentadas pelos pacientes pediátricos que estão na fila de espera por um transplante.

Neste contexto, a conscientização assume papel relevante. Como afirma a dra Patrícia, é preciso investir em campanhas de conscientização que incentivem a doação de órgãos porque existe muita resistência das famílias em aceitarem a morte cerebral do familiar. É preciso também investir mais em centros cirúrgicos pelo Brasil com esta especialidade.  

“É difícil falar em prevenção quando se aborda os problemas cardíacos em crianças porque, diferente dos adultos, que muitas vezes desenvolvem doenças cardíacas por hábitos de vida prejudiciais à saúde como sedentarismo, alimentação gordurosa e consumo de cigarros, a maioria das crianças que precisam de um transplante sofre de cardiopatias congênitas”, alerta a presidente do DC.

Para a dra Luciana Rodrigues Silva, presidente da SBP, este é um problema grave, que merece a atenção do governo e dos responsáveis pelo Sistema Nacional de Transplantes. Segundo ressaltou, é importante desenvolver estratégias específicas para os transplantes pediátricos de coração e também para outros órgãos, que também enfrentam os mesmos problemas.