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Fórum de Pediatria do CFM traça panorama de problemas e perspectivas para a especialidade no Brasil

SBP em Ação 24/11/2016

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Os desafios decorrentes da ampliação do tempo de a Residência Médica em pediatria, a valorização do profissional e desafios encontrados na prática clínica, como o aumento da sífilis congênita e o atendimento de adolescentes, foram alguns dos assuntos debatidos durante o II Fórum de Pediatria, promovido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em Brasília, na terça-feira (22). 

Na abertura, o coordenador da Câmara Técnica de Pediatria do CFM e 2º secretário da entidade, dr Sidnei Ferreira, agradeceu o presidente da autarquia, Carlos Vital, pela criação da Câmara Técnica e pediu o empenho dos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) para a criação de estruturas semelhantes. Também defendeu a criação de Comissões de Assuntos Parlamentares nas filiadas da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). 

“A defesa da nossa profissão passa por ações no Congresso Nacional e precisamos estar preparados para atuar”, argumentou dr Sidnei Ferreira, que também é secretário-geral da SBP. Já a presidente da Sociedade, dra Luciana Rodrigues Silva, ressaltou, ainda, que o momento atual é de extrema importância, no qual se precisa melhorar o atendimento à criança e valorizar o profissional. 

Por sua vez, o secretário-geral da Associação Médica Brasileira (AMB), dr Antônio Jorge Salomão, destacou as mudanças na Residência Médica em Pediatria, que entrarão em vigor, a partir de 2019. Segundo ele, “foi um avanço, mas que exige atenção, pois o passo seguinte será definir os parâmetros curriculares, o que será discutido em reunião no Ministério da Saúde”, informou, dando a tônica de discussões que seguiram durante o encontro. 

Ao encerrar o II Fórum de Pediatria, dr Sidnei Ferreira avaliou que os debates foram muito produtivos. Segundo disse, as propostas sugeridas pelos participantes serão compiladas e apresentadas futuramente na forma de um documento. O presidente do CFM, dr Carlos Vital, também elogiou o envolvimento dos pediatras na busca de mudanças que melhorem a sociedade, como alimentação saudável e sexo seguro, e reafirmou que a entidade continuará lutando pela valorização da especialidade. 

CONFIRA A SÍNTESE SOBRE ALGUNS TEMAS ABORDADOS 

VALORIZAÇÃO – Dra Luciana Rodrigues Silva foi a responsável pela conferência “A valorização do pediatra e da pediatria”, na qual apresentou os desafios atuais do pediatra, como a baixa remuneração e as péssimas condições de trabalho. Ela defendeu um currículo em que a competência técnica seja potencializada pelas qualidades humanas e assegurou que a SBP está atenta para as questões que afligem os especialistas. 

“Recentemente, aprovamos um plano estratégico para atuar nos próximos dois anos e meio e estamos montando uma Rede Nacional de Pediatria. Também contamos com a interlocução do CFM e com a AMB para trabalharmos juntos pela valorização do pediatra”, afirmou. Na sequência, os participantes focaram na análise da proposta de ampliação da Residência na especialidade de dois para três ano, abordando questões como financiamento, currículo e preceptoria. 

FINANCIAMENTO - O 2º secretário da SBP, dr Paulo Nader, discorreu sobre os problemas do financiamento da residência médica. “Hoje, cada residente custa ao hospital cerca de R$ 40 mil e o Governo Federal destina R$ 148 milhões por ano para o pagamento de bolsas. Com o aumento em mais um ano, os custos do hospital e da União aumentarão em 50%. Temos de debater como será feito este financiamento”, arguiu. 

O currículo nas Residências Médicas foi o tema da palestra da professora da Universidade Federal do Espírito Santo, dra Rosana Alves, que apresentou as competências necessárias para a formação de um pediatra, como a educação permanente. “Na nossa área, a obsolescência do conhecimento é muito rápida. Então, temos de fazer nosso residente fazer avaliações críticas de estudos clínicos, em que ele próprio possa construir seu conhecimento quando sair da residência”, argumentou. Ela também defendeu uma integração maior das residências com as secretarias municipais e estaduais de saúde. 

Já o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dr Sílvio da Rocha Carvalho, que defendeu uma maior valorização do preceptor, parte fundamental do processo de ensino-aprendizagem. “Há uma confusão sobre o papel do coordenador, do supervisor e do preceptor. Porém, independente da nossa vontade, quem trabalha com programas de Residência é um preceptor, pois em algum momento vai orientar um residente”, argumentou, ao defender a valorização dessa função.

ATENÇÃO PRIMÁRIA – Ainda durante o II Fórum de Pediatria do CFM, tratou-se da presença do pediatra na atenção primária, com a abordagem de temas como puericultura, atendimento ao adolescente, prevenção de doenças do adulto na infância e o aumento dos casos de sífilis congênita no país. “Por que os pediatras estão se afastando do atendimento clínico, atuando, primordialmente, em plantões? ”. Este foi um questionamento feito pela secretária do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da SBP, dra Ana Estela Leite, que discorreu sobre os dilemas da pediatria.  

Para ela, o hábito que as famílias adquiriram de levar seus filhos para o pronto-socorro; a baixa remuneração paga pelos planos de saúde; os custos elevados de um consultório e a disponibilidade exigida do pediatra afastaram esse especialista das clínicas, consultórios e postos de saúde. “É uma situação difícil, o que não invalida alguns avanços que tivemos, como o pagamento diferenciado para o atendimento em puericultura”, ponderou. 

Para reverter o quadro de desestímulo à pediatria, dra Ana Leite defendeu que todo atendimento em pediatria deva ser considerado como puericultura e, assim, tenha melhor remuneração, com a implementação da tabela da CBHPM e a remuneração de todos os retornos. “É preciso uma política de valorização do pediatra em consultório, pois cada U$ 1 investido na infância, significa uma economia de U$ 8 na vida adulta”, argumentou. 

ADOLESCÊNCIA – O atendimento ao adolescente foi abordado pela professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e assessora de Políticas Públicas para Crianças e Adolescentes com Deficiência da SBP, dra Alda Elizabeth Boehler Azevedo. De acordo com seu relato, o atendimento a essa faixa etária, que começa no fim da puberdade, mas não têm uma data limite fixa, deve ser realizado pelo pediatra, que precisar ficar atendo aos fatores de risco e promover os aspectos protetores, além de ter conhecimento sobre as patologias inerentes à idade. 

“É um grupo que não recebe a atenção necessária. Devido às grandes alterações hormonais a que são submetidos, deveriam ter atendimentos regulares de três em três meses, em que seriam avaliados o estado nutricional, o crescimento físico, a alimentação e o desenvolvimento psicossocial. A adolescência precisa deste atendimento”, defendeu a especialista. 

ALIMENTAÇÃO – Em debate sobre aspectos nutricionais, a 3ª secretária da SBP e professora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFMT), dra Virgínia Resende Silva Weffort, alertou para a necessidade de uma alimentação saudável na gravidez e na infância como forma de prevenção das doenças do adulto. “Infelizmente, cada vez mais nossas crianças estão comendo errado. Isso é um problema, pois a carga genética só influencia 20% das nossas doenças, ficando o restando a cargo do nosso estilo de vida. Quanto mais pobre em nutrientes for a alimentação na infância, piores serão as consequências na velhice”, lamentou. 

Na opinião dela, a alimentação do brasileiro tem piorado. Houve uma redução no consumo alimentos básicos e maior participação de alimentos ultra processados. Um aumento no consumo de carne, biscoitos, refrigerantes, provocando excesso de sacarose, e substituição de refeições por leite ou iogurte. “Essa inadequação nutricional está levando à obesidade, baixa estatura e hipovitaminose”, alertou. 

OCUPANDO ESPAÇOS – O conselheiro federal pelo Paraná e diretor clínico do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, dr Donizete Giamberardino, tratou da presença do pediatra na rede de assistência, em especial na pública. Após apresentar dados do estudo Demografia Médica, do CFM, ele concluiu que o problema está na má distribuição dos profissionais, concentrados no Sudeste e nas regiões metropolitanas. “O que fixa um médico? Salário digno, planos de cargos e condições de trabalho. Para aumentarmos a presença do pediatra, temos de oferecer essas condições”, pontuou. 

Dr Donizete lembrou, ainda, que enquanto o poder público não oferecer condições de trabalho dignas para o pediatra, as residências estarão formando profissionais para atender na iniciativa privada. Um exemplo da falta de valorização do pediatra é que nas portarias do Ministério da Saúde que tratam das políticas públicas de saúde para crianças e adolescentes não consta a indicação do pediatra. “Como fazer um atendimento integral sem médico? ”, questionou. Entre as estratégias de atuação para valorização do pediatra, o conselheiro do CFM defendeu a equidade de acesso ao médico para todas as crianças e adolescentes e a participação do pediatra como membro das equipes de saúde da família. “Nosso afastamento e prejudicial ao futuro do país”. 

SÍFILIS CONGENITA – Em mesa que discutiu o recrudescimento da sífilis no Brasil, o membro da Câmara Técnica de Pediatria do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj), dr Gil Simões Batista, relatou sua experiência com o assunto, que aumentou após fiscalizar um hospital carioca que registrou 365 casos de sífilis congênita em um ano. “Tenho 40 anos de prática clínica em hospitais e nunca tinha me deparado com uma situação dessa”, comentou. 

Após apresentar dados do Boletim Epidemiológico sobre Sífilis, editado pelo Ministério da Saúde, que comprovam o crescimento da infecção, dr Gil Simões defendeu melhorias no pré-natal, já que apenas 3,7% das mulheres detectadas com sífilis na gravidez realizaram o tratamento adequado. “Esses dados refletem o abismo social em que vivemos”, esclareceu. 

Na sequência, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e representante da SBP, dr Marcos Junqueira, defendeu mudanças culturais para que haja um efetivo combate à sífilis congênita. “Conseguimos números animadores no combate à transmissão vertical do HIV, mas retrocedemos no combate à sífilis congênita”, lamentou. 

Finalmente, a representante da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), dra Rosane Ribeiro Figueiredo Alves, afirmou que há fatores que favorecem o recrudescimento da sífilis e outros que combatem a doença. Entre os que ajudam a evitar, ela citou a Recomendação CFM nº 2/2016, que recomenda os médicos a solicitarem exames de hepatites B e C, sífilis e HIV para todos que tenham vida sexual ativa. “Rastrear a sífilis apenas na gravidez é muito pouco”, argumentou.