Recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria para Antibioticoterapia de Crianças e Adolescentes com Pneumonia Comunitária  

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* Documento atualizado na reunião do núcleo gerencial do departamento de infectologia realizada em 09 de outubro de 2003, gestão 2001-2003.

Recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria para Antibioticoterapia de Crianças e Adolescentes com Pneumonia Comunitária
Recommendation from the Brazilian Society of Pediatrics for Antibacterial Therapy of Children and Adolescents with Community-Acquired Pneumonia
( É Recomendada a Leitura de Todo o Documento Para a Adequada Compreensão)

Documento Aprovado pelos Departamentos de Infectologia e Pneumologia da Sociedade
Brasileira de Pediatria em julho de 2002 e apresentado durante o XIII Congresso Brasileiro de Infectologia Pediátrica em novembro de 2002.

Cristiana M. Nascimento-Carvalho1 , Heloísa H. Souza-Marques2

1 Professor Adjunto, Doutor, Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Salvador , Bahia.
2 Doutora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médica assistente do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, Capital.

1 nascimentocarvalho@hotmail.com
2 heloisahsm@icr.hcnet.usp.br

1, 2 Revisão da literatura e Elaboração do artigo.

Resumo

Objetivo:
padronizar o uso dos antibióticos para o tratamento das crianças e adolescentes com pneumonia comunitária no Brasil.

Fontes dos dados: bases de dados Medline e Lilacs, documentos da Organização Mundial de Saúde / Organização Panamericana de Saúde, de 1980 a 2002, busca na Internet, em português, espanhol e inglês, utilizando-se as palavras-chave pneumonia, criança, adolescente, etiologia, tratamento, e questionamentos a pesquisadores com reconhecido saber sobre o assunto.

Síntese dos dados: recomenda-se utilizar taquipnéia como critério para distinguir entre as crianças com Infecção Respiratória Aguda aquelas que têm pneumonia e tiragem subcostal para indicar hospitalização; este último classifica a pneumonia como grave. Chama-se pneumonia muito grave quando associam-se convulsões, sonolência, estridor em repouso, desnutrição grave, ausência da ingestão de líquidos ou sinais de insuficiência respiratória grave como cianose central. Crianças < 2 meses sempre devem receber tratamento hospitalar com ampicilina associada a aminoglicosídeo ou a cefalosporina de terceira geração. Crianças > 2 meses podem ser tratadas com amoxicilina ou penicilina procaína quando o tratamento for ambulatorial, e, quando o tratamento for hospitalar, penicilina cristalina ou ampicilina para os casos graves, oxacilina associada a cloranfenicol ou a ceftriaxona para os casos muito graves.

Sempre que houver a suspeita da etiologia ser C. trachomatis, C. pneumoniae, M. pneumoniae, B. pertussis deve-se utilizar um macrolídeo, preferencialmente a eritromicina.

Conclusões: O diagnóstico de pneumonia pode ser baseado em avaliação clínica, assim como a indicação de hospitalização. Os principais antibióticos a serem utilizados são amoxicilina, penicilina, eritromicina, ampicilina, oxacilina, cloranfenicol, ceftriaxona, aminoglicosídeos, conforme a faixa etária e a gravidade.

Palavras-chave: pneumonia, antibiótico, tratamento, criança, adolescente.

 

Abstract

Objective:
to standardize the antibacterial therapy of children and adolescents with community-acquired pneumonia in Brazil.

Sources: Medline, Lilacs and World Health Organization / Panamerican Health Organization documents (1980-2002), and internet, in Portuguese, Spanish and English, using the keywords "pneumonia, children, adolescent, etiology, treatment," and inquiring known researchers about pneumonia.

Synthesis of Data: Tachypnea is recommended to be used as a criterion to distinguish patients with pneumonia among children with Acute Respiratory Infection and chest indrawing to indicate hospitalization. Chest indrawing defines severe disease. Very severe disease includes the addition of convulsions, somnolence, stridor, severe malnutrition, inability to drink or signs of severe respiratory failure like central cyanosis. Children aged < 2 months must be hospitalized and treated with ampicillin and aminoglycosides or and third generation cephalosporins. Pediatric outpatients aged > 2 months may be treated with amoxicillin or procaine penicillin G and inpatients may be treated with crystalline penicillin G or ampicillin for severe disease, and oxacillin plus chloramphenicol or plus ceftriaxone fer very severe disease. Whenever infection by C. trachomatis, C. pneumoniae, M. pneumoniae, B. pertussis is suspected, a macrolide must be used, preferably erythromycin.

Conclusions: Clinical evaluation may diagnose pneumonia and indicate treatment in hospital. The main antibiotics to be used are amoxicillin, penicillin, erythromycin, ampicillin, oxacillin, chloramphenicol, ceftriaxone, aminoglycosides, according to age and disease severity.

Key-words: pneumonia, antibiotics, treatment, children, adolescent.

Introdução

As Infecções Respiratórias Agudas (IRA) são uma causa comum de morbidade na faixa etária pediátrica, (1) sendo a pneumonia a forma mais séria de todas as IRA. (2) Embora a freqüência anual de IRA nos primeiros anos de vida seja uniforme em todo o mundo (4 a 8 episódios anuais nos primeiros 5 anos de vida), (3) a incidência de pneumonia é 5 a 10 vezes maior nos países em desenvolvimento que nos países desenvolvidos. (4-6) Ademais, naquele primeiro grupo de países, as pneumonias são responsáveis por elevadas taxas de hospitalização e óbito, especialmente em crianças menores de cinco anos. (4, 7-11) Em 1995, 11,6 milhões de crianças, cujas idades se encontravam entre zero e cinco anos, morreram em todo o mundo (12), 95% delas em países em desenvolvimento. (13) Neste grupo de indivíduos, pneumonia é considerada a causa mais freqüente de morte, sendo a ela atribuídos 4 milhões de óbitos anuais, (13) situação que a caracteriza como a mais importante causa prevenível de óbito. (7) Metade das mortes relacionadas à pneumonia ocorrem em crianças cuja idade é inferior a um ano. (14) No Brasil, durante o ano de 1998, 5,4% e 12,8% dos óbitos ocorridos nas faixas etárias menores de um ano e entre um e quatro anos, respectivamente, foram causados por pneumonia. (15) Na atualidade, as estatísticas oficiais do Ministério da Saúde apontam as IRA como a segunda ou terceira causa de morte em menores de cinco anos, nas diferentes regiões, superadas apenas pelas Afecções Originadas no Período Perinatal e pelas Doenças Infecciosas e Parasitárias, (15-18) sendo que 85% dos óbitos atribuídos às IRA são devido à pneumonia.(5, 19)

Nos diversos países das Américas, as IRA são responsáveis por cerca de 20 a 40% de todas as hospitalizações em crianças com idade inferior a cinco anos, englobando causas como pneumonia, bronquite, bronquiolite e outras afecções do aparelho respiratório. (20) No Brasil, durante o ano de 1999, 8,1% (969.752/11.950.797) de todas as internações foram ocasionadas por pneumonia, sendo que, em crianças menores de cinco anos, 26,7% (459.680/1.721.121) de todas as internações foram atribuídas a esta causa. (21) Os fatores identificados como favorecedores da maior gravidade e mortalidade das IRA nos países em desenvolvimento encontram-se listados na Tabela 1, tendo sido imputada maior importância à dificuldade e demora de acesso ao atendimento médico. (13)

Por conseguinte, fica demonstrada a relevância das Pneumonias como doença prevalente na faixa etária pediátrica, nos cenários mundial e nacional.

Diagnóstico

Pneumonia é um quadro sindrômico resultante da inflamação do tecido pulmonar.

Desta forma, as manifestações clínicas decorrentes desta inflamação são comuns às diversas etiologias, (27-30) embora algumas manifestações guardem relação estreita com determinado agente etiológico. (27, 30) Pneumonia comunitária é a que decorre de infecção por agentes oriundos da comunidade em que o paciente está.

Do ponto de vista prático, em virtude da importância das IRA como causa de morbidade e das pneumonias como causa de morbidade e mortalidade, conforme apresentado na seção anterior, é mister distinguir entre as crianças com IRA as que tem pneumonia. Um estudo realizado por Shann (1984) demonstrou associação entre óbito em crianças com pneumonia em países em desenvolvimento e etiologia bacteriana. (31) Foi buscando reduzir a mortalidade por pneumonia neste grupo de indivíduos, que a Organização Mundial de Saúde (OMS), através do Programa de Controle de Infecções Respiratórias Agudas, desenvolveu, na década de 1980, normas para o diagnóstico e conduta de casos de pneumonia em crianças menores de cinco anos, nos países em desenvolvimento. (32, 33) Tais normas são passíveis de serem aplicadas por agentes comunitários de saúde de forma a contrapor a dificuldade e a demora de acesso ao atendimento médico. Este Programa começou a ser implantado no Brasil em 1984, tendo sido incorporado às ações básicas do programa para a assistência integral à saúde da criança. (34) Em 1994, o Ministério da Saúde lançou as normas para a assistência e controle das infecções respiratórias agudas na infância (35) e, em 1997, a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) propôs a inclusão destas normas na estratégia de Atenção Integral às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI). (20) Entre os objetivos desta estratégia encontra-se o de simplificar o diagnóstico de pneumonia para o menor número de sinais prontamente identificáveis com maior sensibilidade e especificidade para detectar, entre as numerosas crianças com IRA, aquelas que têm alta probabilidade de ter pneumonia (13), classificar a gravidade da doença e definir o uso de agentes antibacterianos (14). A classificação visa identificar o grupo de crianças com pneumonia grave ou muito grave que requer tratamento antimicrobiano e admissão imediata em um hospital, o grupo de crianças com pneumonia sem gravidade que requer tratamento antimicrobiano em nível ambulatorial e o grupo de crianças sem pneumonia que não deve receber antimicrobiano. Os sinais propostos como "critério de entrada" são tosse e / ou dificuldade para respirar. A CLASSIFICAÇÃO DO CASO EM PNEUMONIA BASEIA-SE, A PARTIR DAÍ, NA DETECÇÃO DE TAQUIPNÉIA, sinal clínico com melhor sensibilidade e especificidade, valores preditivos positivo e negativo, em diversos estudos (31, 36-39). Aí define-se taquipnéia como freqüência respiratória >60 incursões/minuto em crianças <2 meses, freqüência respiratória >50 incursões/minuto em  crianças cuja idade esteja entre 2 e 11 meses, e freqüência respiratória > 40 incursões/minuto em crianças cuja idade esteja entre 12 e 59 meses. A classificação em pneumonia grave baseia-se na presenca de tiragem subcostal e em pneumonia muito grave na presença de convulsões, sonolência, estridor em repouso, desnutrição grave, ausência da ingestão de líquidos ou sinais de insuficiência respiratória grave como cianose central, para as crianças com idade >2 meses. Para o grupo menor de 2 meses, define-se como pneumonia grave a presença de taquipnéia ou tiragem subcostal e pneumonia muito grave a presença de convulsões, sonolência, estridor em repouso, sibilância, febre ou temperatura baixa ou ausência de ingestão alimentar. (35, 40)

Vale a pena ressaltar que nesta estratégia busca-se identificar as crianças com maior probabilidade de morrer entre as crianças com IRA, ou seja, aquelas que têm pneumonia bacteriana (31). No entanto, apesar de taquipnéia, quando ausente, ser o melhor achado que individualmente afaste a probabilidade de pneumonia e a presença de tiragem, juntamente com outros sinais de esforço aumentado para respirar aumente a chance de haver pneumonia, estas mesmas alterações poderão estar presentes em outras afecções das vias aéreas inferiores como bronquiolite e asma aguda. (41, 42) Estudo recente realizado na Índia sugere que se pesquise história de episódio anterior de dificuldade respiratória e se busque escutar sibilos para utilizar broncodilatador pela via inalatória e só após tal abordagem considere-se a freqüência respiratória para classificar a probabilidade da criança ter pneumonia. (43) Já o diagnóstico de bronquiolite pode ser sugerido pelo estado geral da criança, que freqüentemente está preservado, apesar do desconforto respiratório, requerendo, no entanto, para a confirmação diagnóstica, avaliação radiológica onde se busca encontrar hiper-insuflação pulmonar. (44) Portanto, enquanto o diagnóstico diferencial com asma aguda pode ser viável através da abordagem clínica do paciente, o diagnóstico diferencial com bronquiolite requer avaliação radiológica complementar. Vale a pena também ressaltar que o uso de antimicrobianos em crianças com crise aguda de asma ou bronquiolite não alterará o curso clínico da doença; no entanto, o não uso de antimicrobianos em crianças com pneumonia bacteriana colaborará para a evolução desfavorável do caso, motivo pelo qual se aceita o uso de antimicrobianos quando há sinais de comprometimento das vias aéreas inferiores na impossibilidade de se firmar o diagnóstico diferencial entre aquelas patologias.

Chamamos a atenção para a necessidade da criança ter a freqüência respiratória contada e a presença de tiragem subcostal pesquisada apenas por inspeção, antes de qualquer manobra para a realização de outras partes do exame físico, e quando a mesma estiver tranqüila, sendo alimentada ou dormindo, durante um período completo de um minuto, ou por dois períodos de trinta segundos. (45)

Quando possível, a radiografia de tórax deve ser realizada em duas posições (póstero-anterior e perfil), não só para o diagnóstico diferencial entre as diversas afecções das vias aéreas inferiores, mas como também com o objetivo de avaliar a extensão e as complicações nas crianças com pneumonia. (45, 46) No entanto, em vista do exposto anteriormente, como bronquiolite e asma aguda. (41, 42) Estudo recente realizado na Índia sugere que se pesquise história de episódio anterior de dificuldade respiratória e se busque escutar sibilos para utilizar broncodilatador pela via inalatória e só após tal abordagem considere-se a freqüência respiratória para classificar a probabilidade da criança ter pneumonia. (43) Já o diagnóstico de bronquiolite pode ser sugerido pelo estado geral da criança, que freqüentemente está preservado, apesar do desconforto respiratório, requerendo, no entanto, para a confirmação diagnóstica, avaliação radiológica onde se busca encontrar hiper-insuflação pulmonar. (44) Portanto, enquanto o diagnóstico diferencial com asma aguda pode ser viável através da abordagem clínica do paciente, o diagnóstico diferencial com bronquiolite requer avaliação radiológica complementar. Vale a pena também ressaltar que o uso de antimicrobianos em crianças com crise aguda de asma ou bronquiolite não alterará o curso clínico da doença; no entanto, o não uso de antimicrobianos em crianças com pneumonia bacteriana colaborará para a evolução desfavorável do caso, motivo pelo qual se aceita o uso de antimicrobianos quando há sinais de comprometimento das vias aéreas inferiores na impossibilidade de se firmar o diagnóstico diferencial entre aquelas patologias.

Chamamos a atenção para a necessidade da criança ter a freqüência respiratória contada e a presença de tiragem subcostal pesquisada apenas por inspeção, antes de qualquer manobra para a realização de outras partes do exame físico, e quando a mesma estiver tranqüila, sendo alimentada ou dormindo, durante um período completo de um minuto, ou por dois períodos de trinta segundos. (45)

Quando possível, a radiografia de tórax deve ser realizada em duas posições (póstero-anterior e perfil), não só para o diagnóstico diferencial entre as diversas afecções das vias aéreas inferiores, mas como também com o objetivo de avaliar a extensão e as complicações nas crianças com pneumonia. (45, 46) No entanto, em vista do exposto anteriormente, ressaltamos a importância da decisão baseada em dados clínicos para o manejo da criança com IRA, quando a investigação radiológica não for passível de ser realizada.

Etiologia

Uma grande variedade de agentes infecciosos pode causar pneumonia. (47) No entanto, a dificuldade para a obtenção de material do tecido infectado e a ausência de métodos confiáveis que possam de modo rápido informar sobre a participação dos diversos agentes tornam difícil a determinação individual da etiologia de cada caso de pneumonia. (1) Deste modo, utilizamos na prática clínica informações oriundas de investigações científicas e que orientam a probabilidade etiológica conforme dados clínicos de fácil obtenção como a idade, como está apresentado na Tabela 2. Alguns estudos têm sugerido que a Moraxella catarrhalis também pode ser agente causal de pneumonia na faixa etária pediátrica. (49-52)

Devido à freqüência de bactérias piogênicas com capacidade de invadir a corrente sangüínea entre as causas de pneumonia, a coleta de hemocultura continua sendo um método onde o material é de fácil obtenção e que possibilita o conhecimento do agente causal em cerca de 1 a 3% dos casos ambulatoriais (27, 28, 53) ou 1-4,5% dos casos hospitalizados. (49, 54, 55) A importância da implementação deste meio diagnóstico tem sido defendida largamente, (56, 57) de maneira a assegurar a realização das hemoculturas seguindo as normas técnicas vigentes (58), pelo menos entre as crianças com pneumonia que necessitam de tratamento hospitalar. (55) Outro método importante para a investigação de etiologia bacteriana é a cultura do líquido pleural, passível de ser realizada quando há derrame, com a sensibilidade maior quando realizada antes do início do tratamento antimicrobiano. No Brasil, dados do estudo SIREVA-VIGIA (Sistema Regional de Vacinas) têm mostrado uma taxa de isolamento do agente etiológico em 20% nestes casos. (Comunicação Pessoal) Na Tabela 2 também estão apresentadas as principais etiologias das pneumonias comunitárias e seus aspectos clínicos relevantes, nas diferentes faixas etárias.

A visão clássica de que o infiltrado alveolar ou intersticial está associado a etiologia bacteriana ou viral, respectivamente, (59) dando à avaliação radiológica um poder de diferenciar entre estes dois grupos etiológicos tem sido modificada ao longo dos últimos anos.

Um estudo finlandês, utilizando métodos específicos de investigação etiológica apenas disponíveis em laboratórios de pesquisa, mostrou que infecção bacteriana pode apresentar infiltrado alveolar assim como infiltrado intersticial. (60) Um estudo realizado recentemente no Brasil mostrou que o padrão radiológico pode ser influenciado pela idade, possivelmente em decorrência de diferenças nas respostas inflamatórias dos indivíduos mais jovens quando comparados com os mais velhos. (61) Desta forma, a presença de sinais radiológicos como consolidação, derrame pleural, pneumatocele podem ser vistos como sinais que têm associação com etiologia bacteriana mas a ausência deles não significa que a etiologia não seja bacteriana. (60).

Tratamento

Devido à dificuldade do pronto diagnóstico etiológico das pneumonias, o tratamento instituído via de regra é empírico. (46)

A primeira decisão a ser tomada é quanto à necessidade de hospitalização. Segundo a estratégia do AIDPI, as crianças que apresentarem pneumonia grave ou muito grave deverão ter a terapêutica antimicrobiana iniciada por via venosa, e a assistência hospitalar. (12) A Tabela 3 apresenta um resumo das principais indicações de hospitalização em pacientes com pneumonia na faixa etária pediátrica. Justificamos que a indicação de hospitalização reside na maior chance de óbito que tais pacientes apresentam devido à maior gravidade na apresentação da doença ou da menor capacidade em responder à terapêutica ambulatorial. (62, 63) A taxa de hospitalização entre indivíduos com pneumonia e idade < 16 anos em um estudo brasileiro foi 24%. (64)

Os pacientes que podem ser tratados ambulatorialmente devem ser reavaliados nas primeiras 48 horas de tratamento de modo a assegurar a boa resposta à terapêutica instituída.(46) Os cuidados gerais também devem ser orientados como a manutenção da oferta farta de líquidos por via oral de modo a permitir a manutenção da hidratação, a oferta alimentar conforme o que for melhor aceito pelo paciente, a desobstrução das vias aéreas superiores através de medidas habituais de higiene, o uso de broncodilatadores quando necessários e a orientação quanto ao retorno imediato à unidade de saúde quando surgir qualquer um dos sinais de gravidade. Este tratamento ambulatorial é possível para os que têm idade > 2 meses e neste caso a terapêutica antimicrobiana deverá ser dirigida para, principalmente, Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae, justificando a indicação de penicilina procaína por via intramuscular ou amoxicilina por via oral, durante 7 a 10 dias. (1) Caso ao ser reavaliado o paciente não melhore mas também não apresente indicação de assistência hospitalar, pode ser realizada a substituição do antimicrobiano em uso por outros que sejam resistentes à ação das betalactamases. (Figura 1A) Tal conduta baseia-se no fato de que H.influenzae e Moraxella catarrhalis podem causar pneumonia e podem também produzir betalactamases. (65) Quando a suspeita clínica for Chlamydia trachomatis, Chlamydia pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae ou Bordetella pertussis, a opção é um dos macrolídeos, preferencialmente a eritromicina durante 14 dias, (47), devido à ausência de estudos clínicos sobre o uso dos novos macrolídeos em crianças. (66)

Para as crianças com idade < 2 meses, em que o tratamento iniciado será SEMPRE sob regime de internação hospitalar, emprega-se a associação ampicilina e aminoglicosídeo ou ampicilina e cefalosporina de terceira geração (cefotaxima ou ceftriaxona). Esta associação visa o tratamento dos agentes mais freqüentes neste grupo etário como o estreptococo do grupo B, enterobactérias, Listeria monocytogenes e S. pneumoniae (Tabela 2). O aminoglicosídeo pode ser gentamicina, amicacina ou tobramicina, devendo esta escolha ser feita conforme o perfil regional de resistência bacteriana. Em recém-nascido (idade < 28 dias), prefere-se a cefotaxima à ceftriaxona em virtude dessa última ligar-se às proteínas séricas e por isso poder deslocar a bilirrubina, (67) gerando risco aumentado de kernicterus.

Havendo suspeita de infecção por C. trachomatis, emprega-se a eritromicina por 14 dias. Para os indivíduos com idade > 2 meses e que necessitam de tratamento hospitalar, o esquema antimicrobiano deverá ser escolhido conforme a gravidade: para os casos graves, inicia-se a penicilina cristalina ou a ampicilina e para os casos muito graves a oxacilina associada ao cloranfenicol ou à ceftriaxona. Tal classificação baseia-se na falta de tempo para a observação da resposta terapêutica nos casos muito graves, em que opta-se por um esquema antimicrobiano que trata Staphylococcus aureus e H. influenzae produtor de betalactamase, além de tratar o S. pneumoniae e os H. influenzae não produtores de betalactamases. Também para as crianças hospitalizadas são importantes as medidas de suporte, como a hidratação, a nutrição, a oxigenoterapia, o uso de broncodilatadores e antitérmicos, entre outras, conforme a necessidade de cada caso. Um algoritmo em que as condutas acima estão resumidas é apresentado na Figura 1A e Figura 1B. Caso o paciente evolua de forma desfavorável e passe do tratamento ambulatorial para hospitalizado, ou do quadro grave para muito grave, a mudança de terapêutica antimicrobiana segue o mesmo raciocínio apresentado na Figura 1A.

A posologia dos principais antimicrobianos utilizados no tratamento das pneumonias em crianças e adolescentes é apresentada na Tabela 4, Tabela 5 e Tabela 6. Nos últimos 20 anos, tem sido crescente o número de relatos de pneumococo não susceptíveis à penicilina em todo o mundo. (68) O mecanismo de resistência atribuído ao pneumococo é alteração nas PBPs (penicillin bound protein) não envolvendo a produção de betalactamases (67) e esta resistência pode ser classificada em intermediária ou absoluta conforme a concentração inibitória mínima. (58) Estudos diversos demonstraram que o uso de antimicrobianos em doses habituais trata adequadamente as infecções que não comprometem o Sistema Nervoso Central causadas por pneumococo com resistência intermediária à penicilina. (69-71) Dados do estudo SIREVA-VIGIA vêm demonstrando que aqui no Brasil a taxa de resistência intermediária de cepas invasivas de pneumococo tem oscilado em torno de 17,5% no período compreendido entre 1993 e 2001. (72, 73, Comunicação Pessoal) Esta mesma casuística apresenta taxa de resistência absoluta em torno de 2,2%. No entanto, não existem estudos clínicos sobre a resposta terapêutica das infecções pneumocócicas onde a resistência à penicilina é absoluta. Apesar da pouca freqüência deste tipo de situação no nosso país, chamamos a atenção para, neste tipo de infecção, a indicação da vancomicina. (74)

Um estudo que vem sendo realizado em Salvador desde 1998, integrante de um estudo multicêntrico da OPAS para a avaliação da resposta terapêutica à penicilina cristalina em crianças com pneumonia grave mostrou que, até julho de 2001, de 98 crianças avaliadas, em 13 (13,3%) houve necessidade de trocar o antibiótico. (75)

Conclusões

Concluímos que as pneumonias comunitárias na faixa etária pediátrica cuja idade seja > 2 meses podem ser tratadas com amoxicilina ou penicilina procaína quando o tratamento for ambulatorial, e, quando o tratamento for hospitalar, penicilina cristalina ou ampicilina para os casos graves, oxacilina associada a cloranfenicol ou a ceftriaxona para os casos muito graves, e para os < 2 meses ampicilina associada a aminoglicosídeo ou a cefalosporina de terceira geração. Sempre que houver a suspeita da etiologia ser C. trachomatis, C. pneumoniae, M. pneumoniae, B. pertussis deve-se utilizar um macrolídeo, preferencialmente a eritromicina.

Agradecimentos

Aos estudantes do quinto e sexto ano da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Almir Magalhães Ferreira Júnior, Daniel Farias, Luciano Dourado e Thomas Wagner Novaes, pela colaboração, e aos membros do Núcleo Gerencial dos Departamentos de Infectologia e Pneumologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, pela revisão deste trabalho.

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