Entendendo o Desenvolvimento da Criança (revisado em fevereiro/2011)


Autor: Rosa Resegue*
Pediatra assistente do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coordenadora do Projeto Desenvolver – Programa de Integração-Assistencial – Embu, Membro do Departamento de Pediatria Ambulatorial da SBP.

Apoio e Departamento Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria Presidente: Jayme Murahovschi

Introdução: Compreender a importância do desenvolvimento da criança nos nossos dias, significa explorar o próprio papel que a criança assume na nossa sociedade.

1. O que é desenvolvimento?

O desenvolvimento pode ser definido como o processo de construção da identidade humana. Essa definição leva-nos a concluir que o desenvolvimento inicia-se no momento da concepção e não se detém até a morte do indivíduo.

2. Nas publicações sobre o assunto, é comum encontrarmos termos como “desenvolvimento afetivo”, “desenvolvimento motor”, “desenvolvimento de linguagem”. Por que essas subdivisões?

Para que os fenômenos fossem melhor conhecidos foram subdivididos e cada especialidade encarregou-se de entender as partes do dado fenômeno nos mínimos detalhes. Se por um lado, esse processo foi bom, pois permitiu um enorme avanço nos conhecimentos, por outro, acarretou o fracionamento da pessoa que deixou de ser vista como um ser integral, para ser conhecido por seus setores, órgãos e, muitas vezes, por suas doenças.

3. O que significam essas subdivisões?

O desenvolvimento é comumente subdividido em vários setores ou domínios, como:

• Desenvolvimento motor –

 motor grosso - define as atividades dos grandes músculos do corpo e relaciona-se com as funções de sustentação da cabeça, sentar, andar, correr.

 motor fino - define as atividades relacionadas aos movimentos de preensão e relaciona-se com as etapas do movimento de pinça. A aquisição da pinça foi um grande marco para nossa espécie, pois foi a partir dela que o ser humano começou a utilizar ferramentas como a caneta, pincel e outros tipos de ferramentas.

• Desenvolvimento da linguagem;

• Desenvolvimento cognitivo – relaciona-se às funções ditas mentais superiores como a memória, associação, raciocínio dedutivo, capacidade de planejamento e simbolização, dentre outras.

• Desenvolvimento da subjetividade;

• Desenvolvimento social:

• Desenvolvimento perceptivo.

4. Existe alguma dessas funções que é mais importante do que a outra?

Embora cada uma delas siga uma certa seqüência na construção de habilidades específicas, essas funções são completamente interdependentes. No entanto, na nossa opinião, o grande eixo integrador de todas elas está no desenvolvimento da subjetividade. Através da construção da subjetividade, o desenvolvimento particulariza-se, torna-se único e irreproduzível.

5. Como ocorre o processo de desenvolvimento?

Esta é uma questão que sempre foi motivo de muita discussão. Duas questões quanto desse processo é biológico ou cultural? O que pode ser considerado universal em todas as crianças e o que pode ser considerado fruto do modo como as pessoas vivem?

6. Como explicar, então?

Na atualidade, essa dualidade entre o biológico e o cultural tende a ser superada. O ser humano é um ser da cultura, um ser social e, portanto, seu processo de desenvolvimento está fortemente atrelado ao seu momento histórico e ao modo como as pessoas responsáveis pelo seu cuidado vivem e relacionam-se entre si. Assim, a nossa espécie daria os limites das nossas possibilidades: não temos asas, enxergamos até uma determinada distância, ouvimos em determinadas freqüências, mas é através da relação com o outro que nos transformamos em seres da cultura, assimilamos os conhecimentos do nosso tempo, tornamo-nos parte de uma determinada comunidade. O processo biológico-maturacional predomina apenas nos primeiros anos de vida, mas mesmo nessa fase, esse processo só ocorrerá se houver uma relação significativa com outras pessoas.

7. E onde entra a importância da mãe e das outras pessoas da família?

Desde o momento da concepção a criança já ocupa um lugar no imaginário de sua família: é o mais velho, terá o nome do pai, será a minha princesa, enfim toda uma infinidade de possibilidades. Para que ocorra o acontecer humano é necessário que a criança seja recebida e reconhecida por um outro. Desse modo, ela vai construindo a sua identidade através daquilo que percebe refletido nas pessoas que a rodeiam, particularmente daquelas responsáveis pelo seu cuidado.

8. Quais são as experiências que o recém-nascido traz de sua vida intra-útero?

Ao contrário do que se pensava antes, o recém-nascido já nasce com experiência de sua vida intra-útero. A audição acontece a partir do quinto mês de gestação, sendo o feto capaz de escutar os ruídos provenientes do funcionamento do organismo materno, e pode se acalmar ao ouvir a reprodução ritmada dos batimentos cardíacos após o nascimento. A audição dos sons externos chega de forma muito atenuada, havendo maior nitidez para os sons graves. O paladar encontra-se também desenvolvido, parecendo haver uma preferência para o gosto doce. O feto consegue perceber o contato através da parede abdominal, principalmente a partir do sétimo mês de vida intra-uterina.

9. Quais são as competências do recém-nascido?

Sabe-se que o bebê tem percepções visuais desde o nascimento com uma nítida preferência pelo rosto humano. Durante o primeiro mês, a melhor distância dos alvos visuais é de 20 a 30 centímetros, exatamente a distância entre o rosto da criança e o da mãe na amamentação.

Desde as primeiras horas de vida o recém-nascido é capaz de voltar os olhos na direção de um som com preferência pela voz humana, principalmente a da mãe.

Recém- nascidos que nunca foram alimentados reagem diferentemente aos 4 sabores básicos, existindo uma preferência inicial por soluções doces.

Bebês de uma semana conseguem perceber diferenças entre cheiros complexos, podendo distinguir o odor materno de outros cheiros.

10. Muitas vezes as mães relatam que suas crianças apresentam comportamentos diferentes desde o nascimento. Esse comentário procede?

N verdade existem diferenças nítidas no comportamento dos bebês desde o nascimento. Recém-nascidos, diferentemente dos adultos, não possuem uma alternância nítida entre o sono e a vigília, oscilando entre diferentes estados que se sucedem rapidamente. Entre esses, existe um estado mais propício para a interação caracterizado por um olhar vivo com a criança calma e ativa. Ao nascimento, durante a primeira hora seguinte ao parto, o bebê mantém-se nesse estado. Nas 48 horas seguintes haverá um predomínio dos estados de sonolência, como se o recém-nascido estivesse se recuperando. Posteriormente, haverá um aumento progressivo dos períodos de vigília. No entanto, existem diferenças marcantes entre os bebês. Alguns mantêm-se muito pouco no estado de atenção passando muito rapidamente da sonolência para o choro excessivo, outros permanecem muito mais tempo atentos, permitindo uma interação tranqüila com seus pais. Esses estados influenciam e são influenciados pelos cuidados recebidos, mas podem também, como decorrentes do temperamento da criança.

Além disso, os bebês também variam muito, em relação ao seu grau de irritabilidade, atividade motora, preferência por outras relações sociais ou pela solidão. No entanto características não são definitivas, é através de interação e das experiências vividas, o temperamento será modificado, neutralizado ou fortalecido durante o desenvolvimento da criança, num processo de interação entre biológico e cultural.

11. Meu filho de cinco meses leva à boca tudo que consegue agarrar. Isso ocorre porque estão nascendo os dentinhos?

Embora os dentes possam realmente estar nascendo nessa idade, o fato de a criança colocar as coisas na boca, geralmente não tem relação com esse processo. Trata-se muito mais de uma tentativa de pesquisar as características do objeto apreendido. É como se ela usasse a boca para perceber melhor esses objetos.

12. Minha filha de sete meses estranha as pessoas que não são do seu convívio. Meus parentes dizem que ela está muito mimada. Como proceder?

O estranhamento é uma reação normal das crianças nessa idade e pode manifestar-se através de uma grande gama de reações, que vão desde o simples abaixar dos olhos até o choro diante de pessoas não familiares à criança. O estranhamento, desde que não seja tão acentuado a ponto de desestruturar a criança, é uma reação saudável, que indica que sua mãe e as outras pessoas de seu convívio tornaram-se objetos definitivos de seu amor.

13. Minha pediatra disse-me que as crianças andam por volta de um ano de idade. Minha filha de 10 meses já está andando, posso deixar?

Não há problema nenhum no fato da criança andar, sentar ou falar mais cedo. Por outro lado, não há, também, nenhuma correlação desses fatos com um maior grau de inteligência ou capacidade motora dessas crianças na vida adulta. Por outro lado, algumas crianças andam só após os 13 meses.

14. A madrinha de meu filho deu-lhe um andador. Devo usa-lo?

Não. Deve-se dar as oportunidades para que a criança experimente o mundo que a rodeia de forma segura. O andador é uma fonte constante de acidentes e, muitas vezes, o seu uso deixa as crianças inseguras ao tentarem ficar na posição ereta ou andarem sem o mesmo. O único andador que poderia ser utilizado seria aquele que as crianças empurram.

15. Os brinquedos educativos são realmente melhores para as crianças?

Para a criança, todo brinquedo é educativo. De uma forma geral, quanto mais inacabado é um brinquedo maiores possibilidades ele traz e, portanto, é mais atrativo para as crianças, que geralmente adoram os cacarecos deixados pela nossa cultura. É como se elas reinventassem os objetos. Para a criança, brincar é tão importante quanto andar ou respirar. É brincando que a criança experimenta, modifica, simboliza e compreende o mundo que a rodeia.

No entanto, as mudanças no modo de vida das pessoas fizeram com que, muitas vezes o brinquedo esteja sendo oferecido como substituto da presença do adulto ou simplesmente em resposta ao apelo consumista dos nossos dias. Nas classes sociais mais favorecidas, em muitas situações, as crianças logo cedo transformam-se em pequenos executivos com uma agenda lotada em que não há tempo para brincadeiras. Por outro lado, as crianças, por medo da violência, estão cada vez mais trancafiadas em casa tendo acesso ao mundo apenas pela televisão. Tanto numa como noutra situação, não está sendo permitido à criança experimentar a diversidade, não há tempo para que viva o seu tempo de criança.

16. Meu filho não tem limites. Qual é a melhor maneira de discipliná-lo?

Essa pergunta é cada vez mais freqüente para todos os profissionais que atuam com crianças. É como se as famílias atônitas com as mudanças da organização da sociedade não se sentissem mais capazes de impor autoridade aos seus filhos. O papel que esses profissionais devem assumir é o de devolver àqueles que cuidam da criança sua capacidade de encontrar o melhor caminho dentro das possibilidades de suas vidas.

Excetuando-se o fato de não se permitir o uso da violência contra a criança, não existe uma maneira melhor ou ideal de discipliná-las. Cada família encontrará essa resposta dentro dos seus princípios, costumes, do seu modo de vida. Isso não quer dizer, entretanto, que não se deva colocar limites que são fundamentais para que ela crie uma imagem coerente de seu mundo e consiga viver de forma harmônica numa sociedade em que, mais cedo ou mais tarde, esses limites lhe serão impostos.

17. Como fazer para estimular melhor as crianças?

A estimulação tem aparecido como grande preocupação nos últimos anos, em parte em decorrência dos inúmeros conhecimentos sobre a plasticidade cerebral, conceito que define que durante toda a vida do indivíduo, mas principalmente nos primeiros anos, a função é capaz de retroagir sobre a anatomia. Parte dessa resposta está nas palavras do poeta Drummond:

“Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
De vaidoso intelectual...

Eis que acode meu coração
E oferece, como uma flor,
A doçura desta lição
Dar a meu filho o meu amor.”

Além das palavras do poeta, as crianças do nosso tempo precisam ter o direito de ir e vir, o direito a conviver com a diversidade, enfim o direito às mesmas oportunidades.

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