Página 03 - Semana Mundial da AmamentaçAo (SMAM) 2004


Não há mais dúvidas sobre a superioridade do leite materno exclusivo nos primeiros 6 meses do bebê. Esta é a recomendação da SBP, do Ministério da Saúde e da OMS, que preconizam também que se continue amamentando até dois anos ou mais. Para Elsa Giugliani, presidente do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade, os profissionais que recomendam um tempo mais curto ainda não estão suficientemente conscientizados sobre a questão.A humorista Maria Paula, do programa Casseta&Planeta Urgente, da Rede Globo, é a madrinha da Campanha desse ano.

SBP Notícias: Maria Paula, como vai Maria Luiza?

Maravilhosa. É muito calma, está crescendo bem. Com dois meses pesou 5,5kg. É um bebezão!

Como está sendo a experiência com a amamentação?

Inicialmente foi difícil. Nas duas primeiras semanas meu peito doía, o bico rachou...

O que você fez?

Pedi ajuda. Liguei para o Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira (IFF), no Rio de Janeiro.

Qual era o problema?

Eu até começava posicionando direito, mas depois ia relaxando, Maria Luiza ficava mais abaixo e não pegava o mamilo inteiro, aí machucava. Mas a Elizabeth (do IFF) foi à minha casa e me ajudou a acertar a pega. Eu queria muito amamentar.

E como foi depois?

Passou a não doer mais, comecei a curtir, a sentir prazer. Você fica cada vez mais próxima do seu filho, a intimidade vai crescendo... É uma sensação indescritível! Mas acho importante dizer que o parto foi difícil e o começo da amamentação também. Era tudo muito novo... Por isso é tão importante o apoio do pai.

Como está sendo a participação do João?

Fundamental. Ele é super presente. E quando Maria Luiza fica enjoada, pega o violão e começa a cantar.

Como é a música que ele fez sobre a amamentação?

Diz assim: "O neném quer mamar. Não adianta chupeta, não adianta tapiar. O neném sabe o que é bom e sabe onde tem".

Você já tinha informação sobre o aleitamento materno?

Não tinha a menor idéia de nada. Mas procurei me informar.

A SBP tem feito essa campanha há muitos anos. Você já tinha visto alguma?

Ah...sim. A da Luiza Tomé com os dois bebês foi muito fofa.

Como vai fazer na volta ao trabalho?

Vou levar Maria Luiza e amamentar. A produção do programa já preparou um berço.

Dra. Elsa, esse ano o tema da SMAM é o aleitamento exclusivo. Por que 6 meses só de peito?

Os estudos mostram que não há vantagens em se iniciar os alimentos complementares antes dos 6 meses, podendo haver desvantagens. Constatou-se que as crianças que recebem outros alimentos antes desse período têm mais episódios de diarréia e hospitalizações por infecção respiratória.

Faz realmente diferença?

Sim. Sabe-se também que quando a criança é exposta a proteínas de outros tipos de leites (estranhos à espécie humana) antes dos quatro meses, aumenta o risco de alergias, asma e diabete. Além do mais, a amamentação exclusiva nos primeiros 6 meses protege a mulher contra uma nova gravidez e facilita a perda de peso.

Cientificamente está suficientemente comprovado?

Está comprovada a proteção da amamentação exclusiva contra mortes infantis e doenças, em especial as infecciosas. Há necessidade de mais estudos para avaliar alguns benefícios a longo prazo, como prevenção de doenças cardíacas, obesidade, hipertensão, alguns tipos de cânceres, etc. O interessante é que praticamente nenhuma pesquisa mostra que amamentar faz mal (só em situações específicas, como mãe soropositiva para o HIV).

Desde 2000 a OMS recomenda 6 meses de amamentação exclusiva e a continuação com a adição de outros alimentos até dois anos ou mais. Mas ainda hoje muitos profissionais ainda recomendam um tempo menor...

Em parte, essa é uma conseqüência da "cultura da mamadeira", que prevaleceu até o final dos anos 70. A partir dos anos 80 tem se tentado recuperar a "cultura da amamentação", mas mudanças desse nível não se fazem da noite para o dia.

Quando deve ser o desmame?

A mãe e a criança devem tomar a decisão. Existem vários fatores em jogo, como disponibilidade e interesse maternos, influência de parentes, amigos e "maturidade da criança" para o auto-desmame. A mãe obviamente tem influência no processo, sugerindo passos quando seu filho está pronto para aceitá-los. Quem preconiza o "desmame natural" o enxerga como um processo, que ocorre quando a criança não sente mais necessidade de mamar. O desmame é um marco do desenvolvimento, como sentar, engatinhar, caminhar, falar, etc. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio do seu desenvolvimento antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional.

Mas existem muitos mitos...

Os mais comuns são: "a criança jamais desmama por si própria"; "a criança que mama é muito dependente"; "a amamentação prolongada é um sinal de problema sexual da mãe"; "quanto mais tarde, mais difícil é o desmame". Mas em que se baseiam essas afirmativas? Estudos etnográficos sugerem que antes do uso disseminado de leites não-humanos para crianças, elas tradicionalmente eram amamentadas por 3 a 4 anos – época em que usualmente deixam de amamentar quando lhes é permitido fazê-lo de acordo com a sua vontade.

Isso é o que ocorreria se não fosse a interferência do meio cultural...

As diversas teorias se baseiam em informações de primatas não-humanos, em especial de gorilas e chimpanzés, que dividem com o homem 98% do seu material genético. Acredita-se que a idade do desmame nesses e em outros mamíferos seja primariamente uma função genética e instintiva, com alguns componentes ambientais. De acordo com essas hipóteses, o período natural de amamentação para a espécie humana seria de 2,5 a 7 anos.

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