carregando...

Fim da melodia

Arquivo 15/10/2012

 

DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR
Médico, professor titular emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, representante da SBP no Global PediatricEducation Consortium (dicamposjr@gmail.com)

Publicação: 13/10/2012 04:00

Verdade seja dita, o barulho crônico não apenas ensurdece. Produz estragos tão sérios quanto a perda da audição. É incompatível com o silêncio, a condição ambiental em que desabrocham as virtudes da mente humana. A perda do direito ao silêncio é um dos indicadores mais evidentes do oneroso preço a ser pago pelas novas gerações que darão continuidade à história da espécie no planeta.

Efeitos nocivos da era do decibel não se dão por acaso, por mera explosão tecnológica que avança sem possibilidade de ser contida. O barulho ensurdecedor que se tornou rotina do cotidiano não tem geração espontânea. Foi criado para alcançar objetivos econômicos cujos resultados se traduzem em número crescente de vítimas. Inclui-se certamente entre as estratégias de manutenção da ordem dominante. Tem eficácia arrasadora. Despoja o indivíduo de pré-requisitos essenciais ao desempenho da verdadeira cidadania. Sepulta progressivamente a liberdade criativa, competência inerente ao ato de pensar.

Pensamento supõe condições ecológicas favoráveis, entre as quais, ambiente seguro, mínima ansiedade e a interlocução saudável que permita a troca de ideias e raciocínios críticos capazes de embasar o processo construtivo inerente às funções do intelecto. Tal prática, pelo potencial transformador que lhe é próprio, passou a ser alvo de poderosos mecanismos de censura subliminar. Um deles é a sedução do consumo destinada a despertar o hedonismo amoralista que pauta as habilidades de hoje, quase todas fundadas no beatificado empreendedorismo negocial elevado à categoria de genialidade. De fato, a besta apocalíptica do consumismo anda solta. Quanto mais contagia as massas, menos elas pensam. Emerge assim o perfil de imensas manadas conduzidas por sagazes tropeiros. A maioria dos governantes trata a população dessa forma. Nega-lhe o direito de pensar, afogando-a na perversa ilusão do crédito fácil que só a faz comprar. Nada mais. Quem compra os males espanta. É a nova mentira imposta aos cidadãos pelos doutos economistas.

Ao lado do consumo desvairado, o barulho crônico é poderoso instrumento utilizado para cassar a prerrogativa humana do pensar. Está presente em todos os espaços urbanos, equipamentos de som, programas de rádio e televisão, cinemas, restaurantes e similares. Além de retirar os momentos de silêncio indispensáveis à imersão no mundo interior, remanso sagrado da consciência ontológica, desvia a atenção, destrói o sono, impõe ritmos abusivos, estressa diálogos, oculta sons inspiradores, aniquila a leitura, diminui a audição, evoca selvageria, embrutece as relações humanas, individualiza limites, robotiza a espécie.

Trios elétricos, bandas de rock, funk, punk e outros sintetizam a tendência deformante a que se condena a tradição melodiosa da humanidade. São arremedos de conjuntos ditos musicais que introduzem o reinado do barulho crônico para se apoderarem do conceito de música. Já não se valoriza o concerto melódico, só o desconcerto ritmado pelo furor da eletrônica. É a triste realidade dos megashows e megaeventos animados por megadecibéis que destroem a sensibilidade artística, arrastando jovens induzidos à farra prazerosa do pior teor, mergulhando-os no anonimato da multidão em que prevalece o estímulo alienante, subjacente à modalidade da zoeira em vigor.

O apelo sensual, escandalosamente produzido pelo rock e demais ritmos que têm o compasso das relações sexuais, traz lucros exorbitantes aos empresários do ramo em detrimento da educação humana de imatura clientela. É um dos barulhos que pervertem precocemente a criançada. Allan Bloom, no livro O declínio da cultura ocidental, afirma: “A vida se transformou numa interminável fantasia masturbatóriapré-empacotada… O negócio do rock é capitalismo perfeito, suprindo a demanda e ajudando a criá-la. Tem toda a dignidade moral do tráfico de drogas, mas quando surgiu, era algo tão novo e inesperado que ninguém pensou em controlá-lo, e agora é demasiado tarde”.

A melodia é o doce e suave tempero da sensibilidade humana. Nada se lhe compara como linguagem legítima da alma que dá sentido à vida. A cultura brasileira dos tempos atuais faz tudo para neutralizá-la. Quer vê-la ausente da sociedade. Não convive com o pensar. Prefere engolir tudo o que vem pensado, pronto para ser consumido. Mormente o enlatado que se importa das capitais do império econômico. A decadência cultural da sociedade parece ter vindo para ficar. O barulho bloqueia o pensamento. Derrota a sensibilidade. É o fim da melodia.