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Infância intoxicada

Arquivo 09/02/2012

Publicação: 08/02/2012

Dioclécio Campos Júnior

Médico, pesquisador associado da UnB, secretário de Estado da Criança do DF, foi presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (dicamposjr@gmail.com).

 

Contra fatos não há argumentos. Falam por si mesmos. Não há como desmontá-los. Muito menos ignorá-los, como se inexistissem. As versões que despertam podem divergir, porém não os extinguem. A realidade que lhes é inerente independe de elucubrações emocionais. Tem cunho existencial próprio. A verdade irrefutável que representam está na arquitetura do conteúdo, não na fugacidade da aparência. As versões esgotam-se. Os fatos podem ser devastadores, se não reconhecidos na essência.

Assim caminha a sociedade humana. Convive com excrescências. Faz de tudo para ocultá-las. Implode o patrimônio ético que, convertido em pó, asfixia direitos e restringe a respiração moral. Como tudo na vida tem preço, não só monetário, as novas gerações pagam caro pelas mudanças de hábito a que o progresso material do mundo moderno as tem induzido. A moeda de troca é devastadora. A efígie que lhe confere marca tem a cara de uma nova morbidade, cujos sinais e sintomas são fatos concretos.

A doença em curso ainda não possui nomenclatura própria. Mas o reconhecimento da síndrome que permite diagnosticá-la dispensa recursos tecnológicos. Os danosos componentes socioambientais que a constituem afligem cidadãos que vivem na sociedade capitalista de hoje. A tríade sintomática é assustadora, assume dimensão quase epidêmica. De fato, violência de toda natureza degrada a vida mundo afora; dependência química contamina parcelas crescentes da população; obesidade avança irrefreável. A gravidade dos efeitos que tais distúrbios produzem sobre as pessoas é evidente. Nem carece de comprovação.

Outra verdade consagrada volta à tona. Não se erradica morbidade por meio de tratamento puramente sintomático. Identificada a causa, somente ações preventivas são capazes de enfrentá-la com eficácia. Tudo o mais recai na categoria de medidas protelatórias de elevado custo e baixo alcance curativo. Combater violências, esvaziar cracolândias, facilitar acesso à cirurgia bariátrica são práticas imediatistas que ajudam, mas não resolvem.

A causa maior da morbidade que assola a espécie no novo milênio já foi descoberta. Pela natureza dos transtornos psicossomáticos que desencadeia, a enfermidade é vista como uma forma de intoxicação iniciada na infância. Trata-se de fenômeno definido como estresse tóxico, desde os anos 1970. Consiste em transtornos provocados na estrutura cerebral em construção, alterando o crescimento e a diferenciação do projeto original do novo ser humano oriundo do processo de fecundação. Decorre do esvaziamento da convivência familiar, precariedade social que expõe a frágil criatura ao desamparo afetivo, às carências em que é obrigada a sobreviver, às agressões diversas que a subestimam. É o cenário estressante que intoxica a infância dos novos tempos. Os danos derivados desse hedonismo egocêntrico da atualidade são flagrantes.

Estudos científicos demonstram que a gênese dos desajustes comportamentais de adolescentes e adultos concentra-se nos primeiros anos de vida. O impacto do estresse crônico sobre a tenra infância resulta na produção endógena aumentada de substâncias que causam desestruturação desconcertante do cérebro. Uma delas é o hormônio chamado cortisol. Não só desfaz conexões existentes entre as células cerebrais, como inibe o estabelecimento de outras.

As repercussões do estrago são previsíveis. Prejudicam a conduta, os hábitos alimentares, a educação, a economia e a saúde ao longo de décadas da vida, adoecendo gerações inteiras. As doenças infecciosas perdem terreno para a nova morbidade. O desafio das iniciativas requeridas para conter a intoxicação da infância é imenso. As autoridades que não o percebem devem ser substituídas, sob pena de aprofundarem a catástrofe que se avizinha.

A formação dos profissionais de saúde, particularmente a do pediatra, precisa ser estendida na duração e reformulada no conteúdo. E como infelizmente o lar já não existe, a criança deve passar a maior parte do tempo fora de casa. Não em qualquer lugar, mas em espaço seguro, livre do estresse, apropriado ao teor lúdico que merece, rico na estimulação cognitiva a que tem direito, povoado por entes afetivos que a entendam, provedor da nutrição que lhe assegure crescimento saudável. Eis o investimento preventivo que os governos prometem e não fazem. Que a sociedade começa a entender, sem ensejar. Conforme disse Frederick Douglass, no século 19, “é muito mais fácil construir crianças fortes que reparar homens quebrados”. É o afeto agora ou a droga logo mais.