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Nelson Mandela eternamente

Arquivo 16/12/2013

DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR
Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria e representante da SBP no Global PediatricEducation Consortium (dicamposjr@gmail.com)
Publicação: 10/12/2013

Bem próximo ao Natal, desaparece a pessoa que mais encarnou, no século passado e no presente, o valor humanista que dá sentido à espécie. Não por acaso. Sua biografia tem a ver com o menino Jesus. É um dos maiores legados para a evolução da humanidade. Inscreve-se, por isso mesmo, no reduzido acervo de exemplos de vida a fertilizar o solo da sociedade e garantir a perspectiva do desenvolvimento humano. Traz energia a endossar a fé de que nem tudo está perdido. Transforma sacrifícios, privações e sofrimentos em ternas substâncias existenciais a darem significado à vida.

Emociona pela dócil essência da alteridade que inspira gestos, palavras e ações, oriundos de mente sublime forjada, a duras penas, na obstinada devoção ao próximo, objetivo maior da luta contra o apartheid. Transpõe fronteiras geográficas, históricas, culturais, filosóficas e religiosas, difundindo os valores morais e éticos como indicadores seguros para aferir o índice evolutivo da verdadeira sustentabilidade. Comprova e dimensiona a relevância do amor imaterial à causa da convivência igualitária desprovida de privilégios de qualquer natureza, diferentemente do que ocorre em civilização baseada na lei do mais forte e na exploração do mais fraco.

Nelson Mandela deixa-nos, no mundo de hoje, conscientes do que representa liderança autêntica, corajosa e ousada, atuando em completo desprendimento pessoal, perseguindo o sonho de transformar os seres humanos do planeta, aproximando-os para fraternizá-los no vínculo afetivo, com igualdade plena a ser construída sem retorno. Ao transbordar o leito das conquistas nacionais, expandindo-as para a grandeza das verdades universais, integra a nobre galeria dos arquitetos da sociedade humana. Está ao lado de Cristo, Francisco de Assis, Gandhi e Luther King, referências que salvam a humanidade do mergulho, sem retorno, nas profundezas da injustiça social.

São pessoas que se sucederam no tempo, mantendo acesa a luz no fim do obscuro túnel da evolução humana. O serviço por ele prestado à sociedade em que nasceu, cresceu e transformou extrapola a escala dos valores econômicos que cegam a mente humana, impedindo-a de vislumbrar o modelo social que a permanência da espécie no planeta está a exigir. Mandela reforça tão sagrada equipe pelo mérito de sua personalidade rica em singeleza, discrição, humildade, e alegria, que resistiram a 27 anos de prisão inominável. Ao sair da masmorra, liberou as virtudes acumuladas para ensejar a libertação de sua gente.

As biografias são distintas, mas muito parecidas se relevadas as peculiaridades temporais e espaciais em que se desenrolaram. Todos eles penaram duramente para empunhar a bandeira da igualdade e da justiça. Cada um enfrentou o calvário próprio. Carregou o tipo de cruz que lhe cabia. Superou a dor dos espinhos da coroa que lhes impingiram em versões diversificadas. Três deles foram mortos: Cristo, Gandhi e Luther King. Francisco de Assis foi tragado pela doença. Nelson Mandela viveu 95 anos, atravessando longo calvário até chegar ao fim da existência. Todos exerceram a pobreza com convicção, atestando coerência entre o que pensavam e o que faziam.

Francisco de Assis expressou, numa frase, toda a doutrina de sua fé: “Só é livre quem nada possui”. Gandhi, com aguçada sensibilidade, percorreu franciscanos caminhos, navegando na beleza de princípios que conquistaram reconhecimento mundo afora. A subversão da ordem sem violência marcou-lhe a carreira desde a experiência vivida inicialmente na África do Sul. A desobediência civil é valiosa contribuição que deixou como herança para as mobilizações populares que não podem parar. Luther King, inspirado em formação cristã, abraçou o exemplo do líder hindu, desmontando pacificamente o radicalismo do apartheid americano. Nelson Mandela aprofundou os fundamentos desse fio da meada milenar, demonstrando a supremacia dos valores humanos sobre os instintos animalescos que não podem prosperar.

O conceito de eternidade envolve múltiplas visões. Muitas religiosas, outras filosóficas e algumas poéticas. O filósofo francês Sponville não atrela eternidade à duração temporal do ser. Alega que passado não existe, já passou. Futuro, tampouco. Logo, só existe o presente. Se vivido de forma ininterrupta, é a eternidade. Na mesma linha, cantava Vinicius de Moraes sobre o amor: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Mandela nunca interrompeu o amor à causa humanista. Viveu-a enquanto durou. Sem cessar. Eternamente.