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O desafio do crack

Arquivo 21/02/2011

Rita Cavalcante Lima é doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em Saúde Mental pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/FIOCRUZ). Professora da UFRJ, é tutora na residência multiprofissional do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da mesma instituição e no Programa PET-Saúde Mental Crack, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde. Sobre o tema, conversou com a SBP Notícias, edição 61, agora no formato de revista. Leia a íntegra, a seguir.

Professora, o aumento do consumo do crack tem sido muito discutido atualmente. Como definiria a situação de crianças e adolescentes hoje em relação à droga?

O consumo do crack foi iniciado em nosso país na década de 1990, em áreas delimitadas como algumas cidades de São Paulo e regiões fronteiriças com os países produtores da coca. A partir dos anos 2000, temos assistido uma expansão desse mercado e capilaridade por todo o território nacional, com impactos clínicos e sociais sobre crianças e adolescentes, sobretudo sobre aquelas que já se encontravam sob baixa proteção familiar, comunitária e de políticas sociais.

Existem poucos estudos no país sobre como alguns segmentos sociais vêm participando desse novo cenário do uso do crack, atualmente potencializado pela expansão do seu mercado. No entanto, pesquisas do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) da UFRJ e números do DATASUS continuam apontando que o uso nocivo do álcool tem sido o que produz maior dano para o conjunto da sociedade. Foram 6.109  mortes associadas ao uso de álcool em 2005, contra apenas 24 relacionadas ao uso de cocaína (crack, merla e cocaína). A  idade média na qual ocorre o primeiro uso também é diferente: 12,5 anos para a bebida e 13,5 para o crack.

No entanto, não podemos negar que o uso do crack tem emergido como um desafio para as respostas profissionais, considerando os agravos clínicos e sociais relacionados ao consumo dessa droga, sobretudo para crianças e adolescentes.

 O problema tem mesmo atingido todas as classes sociais?

            Sim. Esta foi uma das diferenças observadas entre o usuário do crack dos anos de 1990 para os de 2000. O nível de escolaridade e de renda familiar era superior ao da média nacional no início dos anos 2000. Que diferença se deu, então, de uma década para a outra? Segundo relato dos usuários, eles iniciaram no uso da “pedra” a partir de uma oferta do mercado: “– Ia comprar o “branco” e não tinha. Pedia maconha e também não tinha. Aí, perguntavam se queria a “pedra”. Fiquei com medo de ficar igual a um “zumbi”, mas terminei aceitando”. Relatos como esse demonstram que o aumento do uso do crack recente deu-se por uma estratégia planejada do tráfico de cocaína, que passou a levar essa droga refinada para mercados externos (Europa e Estados Unidos) mais lucrativos e deixar uma mistura de cocaína em forma de pasta não refinada com bicarbonato de sódio no mercado nacional.

Quais são as principais repercussões para crianças e adolescentes?

            O crack tem maior toxidade do que qualquer droga da família da cocaína, portanto, com maior potência para gerar distúrbios cardiovasculares, ataques do coração, aumento da pressão arterial, convulsões, efeitos respiratórios como dor no peito e dificuldade de respirar, efeitos gastrointestinais como dores e náuseas, além de distúrbios psiquiátricos, como depressão, ansiedade, irritabilidade, distúrbios do humor e paranóia em seu uso crônico.

            Seu primeiro efeito, no entanto, é uma sensação de euforia que desaparece rapidamente, requerendo do usuário novo consumo da droga. Como sua principal via de uso é a inalação da fumaça produzida pela queima da pedra em latas, pequenas garrafas plásticas, canudos e canetas, temos observado em crianças e adolescentes, lesões nos lábios, língua, garganta e extremidade dos dedos, aumentando sua vulnerabilidade para doenças infecto-contagiosas. Essa forma de acesso também tem sido responsável por problemas no sistema respiratório como congestão nasal, tosse, expectoração de muco preto e sérios danos nos pulmões.

            Segundo a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), crianças e adolescentes que fazem uso contínuo de crack podem ter o desenvolvimento cerebral comprometido, com impacto direto na capacidade cognitiva, ou seja, na maneira como o cérebro percebe, aprende, pensa e recorda as informações captadas pelos cinco sentidos. Assim, é comum que usuários da droga apresentem dificuldades de aprendizado, raciocínio, memória, concentração e solução de problemas, o que afeta o progresso acadêmico, o comportamento e a frequência escolar. Usuários crônicos que estão em fase de desenvolvimento ainda podem apresentar distúrbios de conduta, transtornos afetivos e alimentares, além de transtornos ansiosos como fobia social e quadros de estresse. Sintomas do Transtorno de Deficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) são frequentes em usuários de substâncias psicoativas, como o crack, assim como problemas de autonomia e habilidade para estabelecer relações interpessoais.

            Conquanto, os danos não se restringem aos sinais e sintomas de saúde. Agravos sociais são percorridos na trajetória de qualquer usuário, implicando no caso dos adolescentes em aumento das complicações com a polícia, com o tráfico e com a Justiça, fazendo com que alguns transitem para o cumprimento de medida socioeducativa. Por não terem meios próprios para conseguir dinheiro, crianças e adolescentes também estão mais suscetíveis a adotarem atitudes de risco para comprar a droga, sendo submetidos à exploração sexual comercial, em relações desprotegidas.

 Como acredita que o pediatra poderia atuar na prevenção?

            Como um profissional fundamental, que  acompanha o primeiro ciclo vital de existência,  que tem contato com responsáveis e educadores, o pediatra pode ser um aliado fundamental para esclarecer, debater e produzir formas de prevenção do uso de crack.

 E quanto às políticas públicas, o que é preciso ser feito?

            O Governo Federal lançou, em 2010, o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, que envolve fortalecimento das ações de qualificação profissional e comunitária, pesquisa, tratamento em Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e outras Drogas (CAPSad), leitos em hospitais gerais para público a partir dos quatro anos de idade, leitos em comunidades terapêuticas, aumento do acompanhamento das famílias em vulnerabilidade social através dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) e repressão. O desenho dessa política tomou o problema do crack como multideterminado, portanto, exigindo uma resposta vinculada ao desafio da integralidade. Estimaram a alocação de R$ 410.000.000,00 para esse conjunto de ações. Se os recursos não forem contingenciados e ocorrer um monitoramento correto, poderemos ter alguma melhora no quadro de insuficiência de assistência em que nos encontramos.

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