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O mito da alta complexidade

Arquivo 21/03/2011

Segunda-feira, 21 de março de 2011

  Dioclécio Campos Júnior

Médico, pesquisador associado da UnB, secretário da Criança do DF, foi presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (dicampos@terra.com.br)

O conceito moderno de complexidade pede revisão. Tornou-se atributo exclusivo da tecnologia. Tudo o mais é secundário. A máquina faz parte da anatomia humana. Regula comportamentos, universaliza linguagens. Os indivíduos são súditos embevecidos de uma majestade mecanizada. Veneram equipamentos de última geração em detrimento dos seres humanos das novas gerações.

A expressão complexidade vem do latim, complexus. Significava aperto, ação de abraçar. Tinha o sentido figurado de amor, vínculo afetivo. Com o tempo, perdeu conteúdo humano para a inebriante novidade da maquinaria. As consequências de tamanha inversão axiológica ferem a sensatez. Intrincadas profundezas da mente, minuciosos mecanismos que vivificam estruturas viscerais, contingências da homeostasia regulatória, mistérios da expressão fenotípica do genoma, energia das ondas emocionais — sistemas humanos em aprimoramento há milhões de anos — foram apequenados. Não preenchem os critérios atuais dos fenômenos complexos. Toda criatura os possui, logo são tidos como coisas simples, desimportantes. Só as máquinas esbanjam complexidade.

Áreas como educação e saúde amargam os efeitos dessa mutilação conceitual. Ensino e aprendizagem são ações interativas, empáticas por excelência. Mobilizam a riqueza do universo afetivo-emocional fundado em convergências cognitivas singulares oriundas do contexto civilizatório que lhes dá origem. Não há procedimentos mais complexos. No entanto, são vistos como atos corriqueiros. A carreira do magistério esboroa-se. A educação perde substância. Os mestres, pessoas formadas na complexidade imanente à pedagogia, integram o proletariado dos novos tempos. Os procedimentos educacionais de ponta carecem de complexidade tecnológica. Valem pouco. A prioridade é a inclusão digital. Formar cidadãos é banalidade.

No campo da medicina, o impacto negativo é ainda maior. Médicos diferenciados no atendimento essencialmente clínico, baseado no exercício profissional livre do império mercadológico da tecnologia, são desrespeitados tanto pelo SUS quanto pelos planos de saúde. Pagam para trabalhar, tão insignificante é o que recebem. Os que se utilizam de procedimentos de alta complexidade tecnológica são tratados como deuses. Beneficiam-se da flagrante distorção conceitual que privilegia a indústria de equipamentos médico-hospitalares.

Exemplo é o parto normal, síntese da alta complexidade fenomenológica da qual resulta o nascimento do novo ser. Nenhuma máquina se lhe compara na amplitude, nem na sutileza de funcionamento dos sistemas orgânicos envolvidos. Infelizmente, cresce a prevalência da cesariana. Como qualquer outra intervenção cirúrgica, aparenta alta complexidade que, a rigor, não possui. A assistência ao parto normal, tida como elementar, é procedimento muito mais delicado que o cirúrgico. Requer amplo conhecimento científico, sensibilidade relacional, habilidade clínica e sabedoria paciente. A cesariana, não. Basta anestesiar a parturiente, fazer incisões, retirar a criança e costurar os tecidos lanhados. Nem precisa conversar com a mulher. Muito menos entendê-la. É procedimento simples, embora visto de forma diferente.

Outro conjunto fenomenológico extremamente complexo assegura crescimento e desenvolvimento à criança e ao adolescente. Promovê-lo na lógica das incessantes mudanças que supõe é tarefa eivada de implicações genéticas, anatômicas, fisiológicas, bioquímicas, nutricionais, psicológicas e educativas, entre outras. Não é ato banal. Ao contrário, muito complexo. Todavia, o pediatra, especialista no dignificante cuidado com o ser humano nesse ciclo de vida, é desmerecido na esmerada missão que exerce. Sua prática contraria a única classificação de complexidade em vigor, a tecnológica. Não usa equipamentos sofisticados, de resto ineficazes para o alcance de sua nobre atuação. Trabalha com os mais apurados indicadores clínicos para assistir as originalidades da existência em formação, procedimentos de elevada complexidade pela própria natureza. Porém, seu mérito profissional não é reconhecido. Sobrevive, a duras penas, engrossando fileiras do proletariado, ao lado dos professores.

Revitalizar a medicina e a educação só será possível se o mito da complexidade tecnológica, carente de sensibilidade, for revisto em favor da valorização da complexidade clínica e do requinte pedagógico, condenados ao desprezo. Senão a indústria estará cada vez mais rica, os cuidadores do ser humano, cada vez mais pobres, e a população sempre mal assistida.