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O país estuprado

Arquivo 06/04/2009

Brasília, segunda-feira, 06 de abril de 2009


Dioclécio Campos Júnior
Médico, professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria
dicampos@terra.com.br

Muito se fala. Pouco se faz. A violência triunfa soberana todos os dias. Os requintes aprimoram-se, avançam em criatividade mórbida. O susto e o pânico irmanam-se na incredulidade. Rostos estupefatos juntam-se nas fotos. Olhares de desespero delimitam feições patéticas. O medo condiciona comportamentos. O pavor incontido contagia os gestos. O horror corrompe os ambientes, desequilibra pessoas, alimenta o metabolismo da tragédia.

Não há um só dia em que a degradação humana deixe de comparecer ao noticiário da imprensa brasileira. É o crime, nas mais diversas versões e terríveis falências da ética, a mostrar presença constante no âmago de uma sociedade que se recusa a pensar. Da miséria à fome, da pedofilia à corrupção política, da facada ao estupro, passando pela bala perdida, não há limite para a maldade que cerca o cidadão deste país.

Boa parte das famílias já experimentou a dor lancinante, a humilhação inesquecível de ver entes queridos mortos, mutilados ou violentados pela sanha da delinquência que se alastra nas cidades. As vítimas visadas são as mais fracas, mulheres e crianças. Prostituição infantil, pedofilia e estupro estão na ordem do dia, na pauta dos jornais, na agenda dos criminosos. Enquanto isso, as discussões de autoridades encarregadas dos destinos do país permanecem centradas nas sístoles e diástoles da economia. É o único assunto que lhes interessa no momento. A formação da cidadania em bases educativas, morais e éticas respeitáveis fica para depois, a distância, em segundo plano. A saúde financeira, abalada pela anemia dos investidores, é a preocupação prioritária, mesmo com todas as desigualdades sociais que não se desfazem há mais de 500 anos.

A maioria das crianças brasileiras, nascidas em berço pobre, cresce sem proteção, em locais desfavoráveis, exposta a todos os riscos imagináveis, além daqueles não imagináveis que surpreendem diariamente pela perversidade inaudita. A sobrevivência de seres nas fases mais tenras da vida depende do trabalho dos pais, que ficam obrigados a se ausentar de casa. Sem alternativa, deixam os filhos entregues à própria sorte, sob os cuidados de irmãos igualmente menores ou de babás vizinhas sem qualquer preparo para tamanha responsabilidade. Faltam creches e pré-escolas onde essas crianças possam ser acolhidas, estimuladas, nutridas e educadas apropriadamente, como aquelas nascidas em berço esplêndido. Desprotegidas, vivem à mercê do acaso. Vulneráveis, são alvos de crueldades devastadoras. Abandonadas, mergulham no fundo do poço. Esquecidas, perdem-se nos descaminhos da marginalidade. Humanas, são tratadas como vira-latas. Chegam à juventude sem identidade, sem referências, sem amanhã. Têm como dimensão existencial apenas o hoje. Duro, adverso, hostil, injusto.

Por seu lado, o modelo econômico em vigor transforma todas as atividades em negócio. O sexo tornou-se forte objeto de consumo. A indústria do setor agiganta-se. Cria mercado em todas as faixas etárias. Promove erotização precoce, veste as meninas com trajes de mulher em idade fértil, ensina-lhes os gestos sensuais e as maquiagens de modelo. A internet favorece a carreira dos consumidores do mercado que prostitui e violenta crianças. Estupradores andam soltos em busca da vítima mais próxima. De preferência as mais frágeis, incapazes de reagir. Assim se forma o cenário propício aos abusos de toda ordem, com os quais as famílias ainda não atingidas habituam-se. Não reagem.

A educação infantil de qualidade para todos, caminho ideal para reduzir comportamentos antissociais, é proposta que não sensibiliza porque levaria a uma sociedade igualitária. Não há PAC para privilegiar a infância carente. Os investimentos só se fazem em obras e projetos que não reduzem o fosso entre ricos e pobres. Nunca se desrespeitou tanto a infância, período nobre da espécie destinado ao desenvolvimento do cérebro, evolução que só se alcança pela ternura lúdica do brincar, pelo calor do afeto verdadeiro, pela linguagem da imaginação criativa, pelo estímulo da compreensão generosa.

Negar às crianças pobres o direito de acesso à educação infantil qualificada é violência de impacto mental e social comparável à do estupro. Agride o ser humano na estrutura mais profunda da personalidade em formação. Equivale a violar a nação no íntimo de sua integridade infantil florescente, envergonhando-a com cicatrizes sociais incuráveis. É o Brasil estuprado pela violência da iniquidade que não se resolve com as medidas protelatórias de sempre.

Editor: Dad Squarisi // dadsquarisi.df@diariosassociados.com.br