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O sublime gesto da adoção

Arquivo 03/02/2010

Dioclécio Campos Júnior

Médico, professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (dicampos@terra.com.br)
A adoção de uma criança abandonada, tornada órfã ou rejeitada é prova maior de que a humanidade evolui. Lentamente, é claro. Mas, sem retrocesso. Afinal, a metamorfose que converte o animal em gente é uma travessia difícil e demorada. Leva tempo. Os avanços dignos de registro, que a sociedade pode comemorar, são os produtos desse processo. Tudo o mais é desprovido de sentido. Só se presta a perpetuar a animalidade com a força bruta de uma das espécies mais cruéis do planeta.

Como disse Teilhard de Chardin, a mudança só foi possível graças à cerebralização. Vale dizer, ao surgimento progressivamente diferenciado do cérebro nas espécies animais. Trata-se de uma reviravolta luminosa que projetou a trilha evolutiva da qual resultou o Homo sapiens. O fenômeno biológico que deu substrato à consciência, base dos valores éticos e morais que se expandem a despeito das inevitáveis e frequentes distorções de rota.

No âmago do ser humano residem bons sentimentos nem sempre compreendidos quando expressos em palavras. Só o gesto consegue traduzi-los com clareza, tornando-os perceptíveis. É a marca distintiva da personalidade. O retrato não falado que identifica, sem retoques, a face perfeita da alma que oculta do ego o rico tesouro de suas têmperas originais. Nada mais autêntico que o gesto para testemunhar a intenção verdadeira. É o idioma universal da comunicação que não simula. A linguagem polimorfa que dispensa regras gramaticais.

O gesto tem germinação espontânea. Brota isento. Pulsa sem arritmias. Estua sem desvios. Surpreende pelo inesperado. Comove pela beleza. Arrebata pela sublimidade. Quanto mais simples, mais legítimo. Tanto mais silente, mais terno. Não é autêntico sem o intuito da doação, sem o fermento da alteridade. Pode passar despercebido, embora ocorra diariamente em todos os lugares do mundo. De diferentes maneiras, é verdade, mas com iguais propósitos.

A adoção do filho de outrem é o exemplo completo de gesto tão radiante no brilho da forma quanto ilimitado na magnitude do conteúdo. Vai muito além do ímpeto de uma generosidade passageira. Não se restringe ao mero ato de acolher, nem ao frio cumprimento das exigências burocráticas que cobram paciência e testam vocação. É o timbre suave da bondade que não consegue esconder a melodia do amor. A bioquímica da ternura cujas substâncias interagem no calor da fonte espiritual, catalizadas pela cordialidade de enzimas que são proteicas na estrutura, mas dóceis na ação.

Quem adota a pequenina criatura sabe o que faz. Conhece o que quer. É guiado pela estrela do bem. Tem a visão universal da fraternidade, o olhar contagiante da placidez que emana da mente solidária. Sabe que nada é mais devastador do que a rejeição de uma criança, o ato capaz de violar as profundezas imaculadas de um ente em formação. Substitui-lhe a doçura de origem pela amargura do destino. Sufoca as sístoles afetivas de um coração feito para amar, adorar, ser amado e adorado. É a perda da essência humana, destruída pela marginalização ontológica que desfigura virtudes potenciais. Uma violência que cheira injustiça e beira a tragédia.

A adoção é a saída benfazeja para mudar o prognóstico desalentador de quem veio ao mundo sem saber como nem por que sobreviver no tenebroso mar do abandono. A oferta de ninho generoso cujo calor emotivo não lhe pode ser negado. Especialmente no momento crucial para o desabrochar da vida num jardim menos espinhoso e mais florido.

A sociedade brasileira tem vocação adotante que cresce em número. Mostra os sinais positivos de uma cerebralização que descortina horizonte favorável aos valores radiosos da consciência social. Tão relevante quanto doar órgãos para manter a vida do próximo é adotar o próximo cheio de órgãos e vazio de vida.

A adoção não pode discriminar. Deve ser entendida como o parto que culmina uma gravidez exposta a todos os riscos. Ao nascer, a criança nunca traz o perfil do bebê idealizado pela gestante. Mas, no átimo sublime do nascimento, o afeto fala mais alto e mergulha o recém-nascido nas infinitas entranhas da adoção natural que é a maternidade. Uma criança adotada é o recém-nascido oriundo do útero social. Nem sempre realiza a expectativa da família ao idealizar a criatura que deseja acolher. Mas, o gesto da adoção deve ser exercido com a mesma nobreza da maternidade. Sem preconceitos. O ser humano é único. Gênero, cor da pele e idade diferentes são riquezas singulares da espécie. Saber admirá-las na sua diversidade é ser mais gente e menos animal.