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Origem da desigualdade social

Arquivo 18/07/2011

Sábado, 16 de julho de 2011

Dioclécio Campos Júnior

Médico, pesquisador associado da UnB, secretário de Estado da Criança do DF,
ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria 
(dicampos@terra.com.br)

 

O Brasil ocupa o décimo primeiro lugar entre os países que têm o maior número de milionários no mundo. A elite orgulha-se do feito. Cento e 10 mil ricaços concentram fortunas na ex-colônia portuguesa do Novo Continente. Parecem numerosos, embora escassos. Equivalem a menos de 0,05% da população. O país só favorece o privilégio da nata em detrimento dos direitos da plebe tida como ignara. A história transcorre, as políticas públicas sucedem-se, mas as iniquidades continuam.

Iludida pelo anúncio de questionável mobilidade social, a pobreza é levada a acreditar que subiu de degrau. Enquanto não se dá conta do engodo de que é vítima, crê gozar, mas engana-se. Busca relaxar, mas contrai-se. O endividamento avassalador que sustenta o consumismo, estratégia capitalista bem-sucedida, tira o sono do cidadão. Espalha o pavor da inadimplência. No atual modelo de sociedade — ditadura econômica globalizada —, a distribuição de renda é falaciosa. Opera na lógica marqueteira do refrão. De tanto ser repetida, assume aparência de verdade. Populariza o crédito sedutor com a atraente moldura de pretensa conquista democrática que confunde qualidade de vida com quantidade de dívida. Os donos do dinheiro comandam o espetáculo. Quanto mais endividam o povo, mais aumentam o capital. As classes sociais seguem as mesmas. Ricos, remediados, pobres e miseráveis compartilham desigualmente a riqueza nacional. Aos primeiros, a abundância. Aos últimos, as migalhas. A economia é emergente, mas a realidade é imergente na injustiça.

A desigualdade social, que deveria envergonhar a nação, é implantada já na primeira infância, isto é, nos primeiros seis anos de vida, período em que a negação de direitos danifica, de forma irreversível, a essência da individualidade. Afeta o ser humano em fase de diferenciação do equipamento orgânico indispensável à cidadania plena — o cérebro. De nada valem predisposições genéticas favoráveis, inscritas no âmago das novas criaturas, se as condições ambientais necessárias à sua expressão não forem asseguradas no momento preciso. Operado tal estrago, não há bolsas ou outras bondades estatais que possam restabelecer a igualdade destruída na origem da vida.

A criança normal nasce com 100 bilhões de neurônios, células nobres do ser pensante. Além de incontáveis, são desconectadas. Requerem rápido, extenso e intenso processo de conexão a fim de que se habilitem ao exercício das funções primordiais, no contexto da inteligência em preparo, da personalidade em surgimento. Ligam-se por meio da chamada sinapse, o elo vital que se estabelece entre as ramificações emitidas. Estímulos sensoriais próprios da relação afetiva entre o bebê, a mãe e o pai, ademais de outros integrantes do meio familiar, aprimoram a dinâmica do novo útero — o social —, onde o crescimento e o desenvolvimento da criança precisam ter continuidade após a saída do útero materno. São os mecanismos geradores das sinapses. Cada neurônio chega a fazer 15 mil conexões nos primeiros seis meses de vida. Aos três anos, se tudo correr normalmente, o cérebro já contará com mil trilhões delas.

Essa complexa fenomenologia estruturante é base da cognição fecunda concentrada na primeira infância. Seu êxito garante a riqueza mental inerente ao ser humano maduro. Vem daí o espectro das originalidades criativas ilimitadas que assegurarão o desempenho produtivo do adulto, nas inúmeras atividades em que se envolve. É a germinação da semente infantil, da qual brotam todas as singularidades da árvore da vida. A beleza pura e futura das flores que lhe dão alma e o viço fecundo dos frutos que a perpetuarão estão contidos no cerne tonificante da graciosa plântula que a antecede. A expansão de caule robusto só será possível se for fértil o solo em que lança raízes e límpida a água com que for regada.

A formação plena do cérebro na idade certa é o direito mais fundamental, bem implícito nos diplomas legais em vigor. Não pode ter vigência postergada. Todas as crianças têm que ser cuidadas com a mesma qualidade, tornadas imunes aos agravos à saúde com idêntica excelência, premiadas com igual profusão de estímulos para liberarem a energia inovadora que trazem ao mundo. Negá-lo é crime que a sociedade não cessa de cometer. Cérebros inferiorizados no momento único de estruturação carregam cicatriz indelével. Erradicar a desigualdade do desenvolvimento cerebral é prioridade absoluta e inadiável. Só assim todos os cidadãos poderão ser milionários, ou então nenhum deles. Justiça seja feita.