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Primeiro residente do intercâmbio SBP/CHOP retorna dos EUA

Entrevistas/Direto ao ponto 01/04/2016

Graças à SBP, tive a oportunidade de estar inserido em um centro hospitalar de referência mundial

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Arino Neto (à direita), com médicos observadores do México

 

Primeiro colocado no Programa de Intercâmbio entre a SBP e o The Children’s Hospital of Philadelphia (CHOP), nos EUA, Arino Faria de Oliveira Neto, do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), de Pernambuco, acaba de retornar ao Brasil. O residente de pediatria foi um dos dois escolhidos entre os que cursavam, no ano passado, o segundo ano dos primeiros serviços que aderiram à formação de três anos com o novo currículo global e teve algumas despesas custeadas pela Sociedade. Leia, a seguir, a entrevista.

O que foi mais importante no estágio?

O CHOP é o mais antigo hospital exclusivamente pediátrico do EUA, está vinculado à University of Pennsylvania, uma das mais prestigiadas da medicina norte-americana. O principal foi a possibilidade de dispor de toda a estrutura da instituição, desde a atenção primária até a terciária, de alta complexidade. O hospital é moderno, bem equipado, com profissionais de alto padrão, o que tornou a experiência muito proveitosa.

Qual a duração da residência em pediatria no CHOP?

Três anos. Os residentes são muito bem preparados, assim como os estudantes de medicina.

Pode comentar sobre o currículo?

Durante a visita médica, é possível notar bem os preceitos do currículo do Consórcio Global de Educação Pediátrica (GPEC, a sigla em inglês), onde os interns (R1s) são responsáveis pelos pacientes, pela apresentação do quadro clínico e pela definição de conduta, enquanto os residentes seniors (R2s e R3s) desenvolvem habilidades de preceptoria e docência com os interns e os estudantes de medicina. Tudo isso é supervisionado pelo médico attending (preceptor), que funciona como um mediador das discussões e define condutas junto aos seniors dos pacientes mais complexos.

O que destaca nas suas atividades?

Durante o tempo que estive nas enfermarias de pediatria geral, aprendi um pouco sobre o sistema de saúde americano, que é bem diferente do brasileiro, e a forma de lidar com os pacientes. Além disso, assisti às visitas médicas, que são inclusivas para os familiares dos pacientes, observei a utilização pelos residentes e preceptores dos pathways (diagramas de conduta) próprios do CHOP, e tive ainda a experiência de ver um prontuário eletrônico totalmente eficaz, que se torna uma ferramenta única e integrada no cuidado do paciente.

E sobre o seu dia a dia?

Toda segunda, terça e quinta, pela manhã, na sala de conferências ocorria o morning report (relatório matinal), que abrangia desde a discussão de casos clínicos por residentes e preceptores, com o exercício de listar hipóteses diagnósticas, passando por apresentação de temas pré-determinados, até atividades interativas de resolução e debates sobre questões do board exam (exame de ordem), com as quais interagíamos por meio de um aplicativo de celular conectado à internet. Participei ativamente de discussões sobre dengue, ocasião em que diagnostiquei corretamente o caso do paciente após apresentação por um preceptor que viajara para o Laos, no sudeste asiático e também sobre o vírus Zika e sua relação causal com a microcefalia. Nas quartas-feiras, tínhamos palestras de especialistas do próprio CHOP ou convidados de outros hospitais americanos.

Diariamente havia reunião para os residentes de pediatria, estudantes de medicina e observadores, na qual era oferecido o almoço, degustado durante atividade teórica, que incluía o relato de caso pelos R1s, com discussão de diagnósticos diferenciais após apresentação do quadro clínico e exame físico de paciente do CHOP, com posterior revelação do diagnóstico e explanação. Havia também exposição sobre diversos temas, como constipação, distúrbios do sono e transexualidade, realizadas pelos residentes seniors, e palestras ministradas por especialistas do CHOP. Além dessas atividades, minhas manhãs eram ocupadas ainda com visitas de enfermaria de pediatria geral.

Como foi conhecer áreas além das quais estagiou?

Tive grande facilidade de comunicação com o responsável administrativo do Departamento de Pediatria Geral, Chris Hickey, e com a pediatra responsável por minha supervisão, dra. Tenney-Soeiro. Me interessei em conhecer alguns ambulatórios de atenção primária e pude acompanhar durante um turno o trabalho da dra. Rachel Hachen, na clínica de espinha bífida, onde são acompanhados o crescimento e o desenvolvimento de crianças com alterações congênitas na medula espinhal. Também acompanhei visitas médicas em setor misto de Hematologia/Pediatria Geral. Fui muito bem recebido pela equipe do hematologista Alan Cohen, que ficou particularmente curioso sobre minha vivência com pacientes portadores de anemia falciforme no Brasil, além da situação do vírus Zika. Pude ainda conhecer a clínica Karabots – localizada em West Philadelphia, região mais carente da cidade – que faz parte da rede do CHOP. Acompanhei consultas de puericultura e de urgência, e observei como um sistema de saúde integral e funcional é importante para o bom atendimento do paciente.

Você teve contato com pacientes?

Não, pois as regras para o estágio são explícitas sobre a proibição de contato direto com pacientes. O Termo de Responsabilidade deixa isso muito claro para que possamos ser aceitos. No entanto, eu acompanhava alguns preceptores ao final da visita médica, quando iam examinar os pacientes e conversar com as famílias. Alguns preceptores me incluíam na discussão e explicavam pontos do exame físico, da terapêutica, tiravam minhas dúvidas sobre os protocolos do hospital, medicamentos etc.

Qual o resultado da experiência?

Foi muito positiva, pessoal e profissionalmente. Graças à SBP, tive a oportunidade de estar inserido em um centro hospitalar de referência mundial, com profissionais dedicados aos pacientes e ao ensino dos residentes e estudantes de medicina, com acesso a tecnologias que eu até então só conhecia na teoria. Aprendia coisas novas todos os dias e compartilhei minhas experiências como médico no Brasil.

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Arino Neto no IMIP