Dúvidas sobre suicídio na infância e adolescência - parte 1

Departamento Científico de Adolescência

  • Porque no Brasil o suicídio é a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, e desde 2002, os óbitos causados por esta prática cresceram 10%. Entretanto, não devemos nos esquecer que entre 10 anos completos e 15 anos incompletos, um número menor de casos, representando ¼ do número evidenciado na segunda metade da adolescência já é descrito, situação que se revela muito preocupante. Para especialistas, os principais motivos que levam ao suicídio são: depressão, ansiedade, abuso de drogas e álcool, abuso sexual, além da violência doméstica, pais ausentes, baixa autoestima, falta de perspectiva e projeto de vida, frustrações com a própria vida, sentimento de não pertencimento, bullying, pressão social pelo sucesso e pelo corpo perfeito ou vulnerabilidade social intensificados no ambiente escolar.

    Desta forma, o alerta é que não há “receita” que detecte seguramente quando uma pessoa está vivenciando uma crise suicida, nem se tem algum tipo de tendência suicida. É sempre bom ficar atento, dedicar mais tempo de qualidade com seus filhos, conversar e procurar ajuda, principalmente com aqueles que estão entrando na adolescência. Este é um momento muito difícil, muita pressão biológica, social e emocional. O assunto exige cuidado e não se pode silenciar.

  • Sim, situações diversas desde a exposição  voluntária  ou uso  de agrotóxicos, crises políticas e econômicas, discriminação homofóbica ou transfóbica, ataques racistas, agressões psicológicas e/ou físicas, sofrimento no trabalho, perda de emprego, conflitos familiares, diminuição ou ausência de autocuidado, perda de um ente querido, doenças crônicas, dolorosas e/ou incapacitantes podem ser fatores que vulnerabilizam os adolescentes e jovens, mesmo que não sejam considerados como determinantes para o suicídio.

  • São muitos os fatores que podem explicar por que os suicídios estão aumentando entre os adolescentes. Porém, o fator de risco mais importante é “desesperança em relação ao futuro”, não vislumbrar um projeto de vida que dê sentido a sua existência. A instabilidade característica da adolescência como um período da vida em que o indivíduo tem as obrigações com a vida adulta, de um lado, abre possibilidades de escolha livre do que se quer fazer no futuro, e por outro, pode se tornar um espaço vazio, no qual o indivíduo não sabe para onde caminhar.

    Outro aspecto é a mudança das relações sociais, tanto na família quanto em outros círculos de convivência social. Muitos adolescentes com ideação suicida (ato de pensar e até planejar o suicídio) recuam pelo medo de magoar pais, avós, irmãos e outros familiares e pessoas queridas. Sabe-se que adolescentes que convivem com mais proximidade e relação afetiva de cumplicidade e segurança aos seus familiares e amigos têm menos propensão ao suicídio. “Vínculos sociais fortes” são fatores de proteção importante. O sentido de vida e os vínculos sociais dão força aos indivíduos mesmo nas situações mais extremas.

  • Sim, existem vários mitos e tabus relacionados ao tema. Como, por exemplo:

    a)      “Quem fala não comete”: A pessoa tenta sim, por isso é importante falar sobre isso.

    b)      “Quem tenta uma vez, não tenta outra”. Tenta sim, por isso é preciso fazer um trabalho de “pósvenção” (vai ser abordado em outra pergunta) para que ela não venha cometer suicídio de fato.

    c)      Efeito Werther: refere-se ao aumento de casos depois de um suicídio amplamente divulgado ou eventos em mídia, filmes, séries ou jogos. Exemplo é o livro que narra o sofrimento do jovem Werther em decorrência de um amor impossível, que desencadeou na Europa, uma série de suicídios. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), na veiculação de conteúdos relacionados ao suicídio, não se deve tentar atribuir culpas.

    d)       É um mito “que falar sobre suicídio aumenta os casos”. Não há confirmação científica de que falar sobre o assunto estimularia atos autoagressivos. É preciso falar sim sobre o suicídio, além de acolher, orientar a todos aqueles em que se identifica a idéia. E ainda, incentivar a procurar ajuda. 

  • O problema não é o jogo em si, mas o desamparo que existe nestas situações. O problema da Baleia Azul, por exemplo, é que o jogo pede para que os adolescentes não contem para ninguém o que estão fazendo e, muitas vezes, o distanciamento dos pais no monitoramento de seus filhos, ou seja, a falta de conversa, diálogo e conhecimento dos sentimentos, pensamentos e percepções dos filhos, que são muito importantes para sua estabilidade, abrem espaço para o suicídio.

     

  • Não há idade específica, porque crianças e adolescentes sofrem psiquicamente. Assim, se pode abordar em qualquer idade, mas de formas diferentes. Para crianças é preciso falar da morte, mas de forma lúdica, como através de brincadeiras, pois o brincar é a principal arma dela para viver. Se a criança estiver sofrendo, ao brincar ela conseguirá se expressar mais facilmente e fantasiar. Nas escolas, professores podem propor atividades na aula de artes para a criança se manifestar ou mesmo os pais durante as atividades em família. É necessário um tempo adequado de atividades para as crianças brincarem e socializarem entre si e assim, expressarem os sofrimentos. 

  • É importante que os pais e/ou professores estejam abertos a escutar o que os adolescentes e crianças falam. Quando os pais ou professores escutam, a criança ou adolescente podem comunicar os fatores de risco, como bullying, por exemplo. É preciso estar aberto a escutar e estar atento no comportamento das crianças e adolescentes e para isso é interessante criar espaços e oportunidades para que o diálogo aconteça, de forma respeitosa e afetuosa.

  • Percebendo quando os filhos e alunos tem umamudança drástica no seu comportamento. Nesse momento é chegada a hora de perguntar o que está acontecendo e se o filho ou o aluno está precisando de ajuda e deixar claro que você está ali para tentar ajudar no que ele necessitar.

    Muitas vezes aquele aluno que está no meio da escola, cercado de colegas, se sente sozinho ou o filho, no meio de uma festa junto com os seus entes queridos, fala frases como: “Eu vou cometer uma bobagem!” “Eu não presto” ou “Sou um peso para vocês” “Ninguém gosta de mim” a recomendação, é perguntar “Qual é a bobagem que você está pensando em fazer?” e não fazer julgamentos, críticas ou discriminar, mas acolher e ajuda você dizer que está ali para escutar o que ele tem pra falar, se colocando disponível. O pior de tudo na questão do suicídio é o silêncio”.

    Pode -se abordar sobre o suicídio direta ou indiretamente, é importante ter uma fala de acolhimento. Primeiro conversar com o filho ou aluno em particular e oferecer ajuda, sem criticá-lo. Outra ideia é propor uma roda de conversas em grupo, abordando questões do tipo “o que você faz para vencer os momentos difíceis da sua vida?” ou “o que você pensa quando está triste ou decepcionado”. Pois, os adolescentes aprendem muito trocando suas vivências com os pares e, também percebem que o sofrimento alheio faz parte deles e desta maneira um ajudo o outro.

  • Quando a criança ou adolescente apresenta:

    a)      Discriminação: está sendo ridicularizado pelos colegas;

    b)      Impulsividade:  grita, agride a si próprio ou a outros alunos, paredes, objetos e não sabe controlar seus impulsos;

    c)      Perdas recentes não elaboradas: quando perdem parentes e não lidam bem com essa situação. É preciso ficar atento ao comportamento e à fala;

    d)      Mudança de comportamento: tanto na fala quanto na própria sociabilidade. Era expansivo fica mais calado;

    e)       A conversa: manifesta o desejo de morrer ou fala em morte com frequência;

    f)       Postura corporal: quando fica mais cabisbaixo, com a postura curvada para frente;

    g)      Solidão: se sente sozinho, não fica enturmado e está sempre isolado de toda turma. O isolamento pode se manifestar na forma de não atender a telefonemas de amigos, interagir menos nas redes sociais, ficar em casa fechado em seu quarto, reduzir ou cancelar todas as atividades sociais, principalmente, aquelas que costumava e gostava de socializar. E ainda quando apresenta dificuldades para tomar decisões que antes resolvia normalmente;

    h)      Escolaridade: dificuldade na aprendizagem com declínio nas notas;

    i)       Drogas:  início ou aumento do consumo de álcool ou drogas;

    j)       Adolescentes perfeccionistas: com alto nível de cobrança de si mesmo, precisam de atenção e;

    k)      Depressão: o suicídio nem sempre está associado a um quadro depressivo, mas jovens que apresentam sintomas da doença ou que já estejam ou não em tratamento exigem um cuidado mais atento.

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