Auto anticorpos na prática da reumatologia

Departamento Científico de Reumatologia

  • Se seu filho apresenta febre, dor ou inchaço nas articulações (artrite), isto pode levar à suspeita de uma doença reumática autoimune. O termo doença autoimune significa que o sistema de defesa do organismo (o sistema imune) reage contra componentes de seus próprios órgãos e tecidos, e este desarranjo na imunidade causa inflamação e diversas manifestações das doenças reumáticas. 

  • Nas doenças autoimunes há produção de auto-anticorpos e alguns auto-anticorpos podem ser determinados por exame laboratorial, principalmente os anticorpos antinucleares que dão o resultado do FAN positivo. O FAN é atualmente chamado de ANA que significa anticorpos antinucleares. Este exame é feito por meio de uma técnica de imunofluorescência que indica diferentes padrões de coloração em várias partes das células (contra antígenos intracelulares). O auto-anticorpo mais específico para as doenças reumáticas chama-se anti-DNA dupla-hélice ou nativo, mas há outros identificados por extração de anticorpos antinucleares extraídos do núcleo por métodos químicos contra ribonucleoproteínas (RNP), e outras proteínas cujos nomes recebem as iniciais do nome do paciente nos quais estes anticorpos foram identificados como (Ro) de Robert, (La) de Lane e (Sm) de Smith. Se o resultado do FAN der muito alto ou se houver mais de um autoanticorpo positivo, significa que seu filho precisa ser acompanhado por um Reumatologista Pediátrico.

  • Crianças com artrite, sobretudo aquelas menores de 5 anos, têm maior probabilidade de ter inflamação ocular, chamada de uveíte, se tiverem o ANA positivo. Esta inflamação ocular causa pouco ou nenhum sintoma, como dor, vermelhidão ou baixa acuidade visual, sendo comumente identificada apenas pelo oftalmologista com o exame chamado de lâmpada de fenda.Sendo assim, as crianças menores, e que não apresentam sintomas devem ter acompanhamento oftalmológico regular com intervalo de 3-6 meses, independentemente dos sintomas de artrite, porque se ele (a) tiver a uveíte precisa ser tratado precocemente com colírios ou tratamento antirreumático,porque a uveíte pode comprometer a sua visão.

  • Se seu filho não tem artrite, mas tem dores nas pernas quando brinca ou corre e o exame deu positivo, pode ser uma coincidência e não há motivos para preocupação porquê o ANA pode ser positivo em 15-30% de crianças saudáveis. Isto pode acontecer inclusive após infecções ou viroses comuns da infância. Da mesma forma que os sintomas da virose desaparecem os autoanticorpos formados por este mecanismo podem desaparecer.

    Nesta idade o Lúpus se manifesta diferentemente em cada paciente, com muitos sinais e sintomas, tais como: febre, dores nas juntas, inflamação na pleura, a membrana que envolve os pulmões, no pericárdio ou amembrana que envolve o coração, podendo também causar nefrite ou até mesmo convulsões. Neste caso, há títulos elevados de ANA/FAN e a presença de vários outros autoanticorpos.  As manifestações isoladas de dores nas pernas (como dor de crescimento)são queixas muito comuns e associadas a outros mecanismos funcionais durante o desenvolvimento e se apenas o ANA/FAN foi positivo,ele deve ser acompanhado com conduta expectante, isto significa observação e controle.

  • O teste do látex é um exame para identificar o fator reumatóide. O mais importante a saber sobre o fator reumatoide é que crianças com artrite, de forma diversa dos adultos com Artrite Reumatóide, raramente apresentam o fator reumatoide e o teste do látex positivo.

    A pesquisa do fator reumatoide é um exame indicado para estabelecer o diagnóstico da Artrite Reumatóide no adulto. Se no adulto houver a suspeita de reumatismo espera-se que o teste do látex dê positivo em 90%, porque este teste é um marcador para a doença nos adultos. Por outro lado, em crianças e adolescentes, apenas 10-20% apresenta o teste positivo,nas formas de artrite mais graves e difíceis de tratar.

    Se uma criança apresentar sinais de artrite com duração maior que 6 semanas ou mudar de articulações ficando persistente, mesmo se o látex der negativo ela precisa ser tratada e precocemente porque o tratamento mais precoce propicia melhores resultados, caso contrário os sinais podem se agravar com o tempo.

  • Os autoanticorpos  (IgG) atravessam a placenta e passam do sangue da mãe para o feto, isto acontece nas mulheres gravidas comLúpus Eritematoso Sistêmico. Os autoanticorpos anti-Ro e anti-La, mesmo com a doença controlada podem causar a Síndrome do Lúpus Neonatal, onde o bebê pode apresentar lesões de pele parecidas com o Lúpus Discoide, pode ter hepatite, anemia e muito precocemente, na gestação durante formação do coração,apresentar o bloqueio no sistema de condução, ou seja dos nervos que promovem os batimentos do coração, e a criança passa a ter bradicardia(batimentos do coração muito lentos), podendo também ter miocardite com mau funcionamento cardíaco.

    Em algumas situações mais raras, a gestante pode não ter oLúpus Eritematoso Sistêmico, mas tem o anticorpo anti-Ro presente. É possível que pessoas saudáveis tenham este anticorpo e ele passa para a circulação fetal causando a lesão permanente no sistema de condução ou os nervos que promovem os batimentos no coração. Todas as manifestações do Lúpus Neonatal são transitórias, desaparecendo com o desaparecimento das imunoglobulinas maternas na circulação do bebê. Mas o bloqueio causado durante o desenvolvimento fetal é permanente. Nestes casos recomenda-se que a mãe faça o seguimento com um reumatologista porque há outras doenças autoimunes que podem ter o anti-Ro positivo.