Por que os adolescentes se expõem ao risco?

Departamento de Comportamento de Risco

  • Fala-se em comportamento de risco quando uma pessoa, voluntária e repetidamente se expõe ao perigo com a possibilidade de colocar em jogo a sua integridade física ou mental e, até mesmo, a própria vida. Algumas pessoas se sentem atraídas pelos comportamentos de risco sem nenhuma razão clara que os motive.

  • O adolescente atual é moldado pelas rápidas mudanças sociais, pela explosão demográfica, pelas tecnologias, pelo isolamento, pela migração, pelas guerras e tensões entre as nações. Portanto, luta contra o mundo, que o limita e o reprime. Ele anseia pela liberdade, tenta ultrapassar os limites, almeja a independência e expõe sua vida a riscos

    Assim, é bastante comum na adolescência reconhecer comportamentos de risco, por se tratar de uma fase da vida em que os valores ainda estão sendo formados; existirem muitas dúvidas e uma necessidade de se mostrar livre, o que pode se revelar por atos de rebeldia. Com frequência, se tem notícias sobre a morte de um adolescente, devido a um desses comportamentos de risco, bem como, pela falência da sociedade que não os enxerga e nem lhes acolhe diante de suas necessidades, lembrando ser alguém que está em crescimento e desenvolvimento, portanto bastante sensível a tudo que o rodeia.

    Destacamos que não são todos os adolescentes que passam por essas situações, mas uma parte significativa tende a apresentar certos tipos de comportamento de risco.

  • A adolescência é uma etapa especialmente caracterizada por comportamentos de risco. Embora as habilidades básicas necessárias para perceber os riscos estejam ativas, a capacidade de regular o comportamento de forma consistente com essas percepções não está totalmente madura. “Na adolescência, os indivíduos dão mais atenção para as recompensas em potencial, vindas de uma escolha arriscada do que para os custos dessa decisão”. Entre os comportamento de risco pode-se observar, as prática sexuais desprotegidas, esportes radicais, desafios entre colegas e diferentes tipos de comportamentos suicidas, como dirigir em alta velocidade ou embriagado, desrespeitar os sinais de trânsito, fazer excursões ou participar de atividades perigosas sem a devida preparação ou equipamento necessário, participar de jogos de azar e apostar grandes somas de dinheiro, além de muitos outros comportamentos como entrar em áreas ou grupos perigosos, desafio da baleia azul, passar rasteiras nos colegas conduzindo a graves lesões cerebrais ou medulares,etc... Frequentemente, os adolescentes se envolvem em comportamentos de risco caracterizados por experiências nas quais liberam muita “adrenalina”! Eles veem como positivo o fato de experimentar emoções intensas, pois, aparentemente, isso faz com que se sintam mais vivos. Para eles, este é um sinônimo de “viver a vida intensamente”. Porém, nem todos os jovens sentem a mesma motivação para explorar os seus limites.

  • Até algumas décadas atrás, esse desejo era canalizado para algumas formas de expressão (os comportamentos de risco também são sensíveis à moda). Assim, observou-se comportamento de risco relacionado ao uso e abuso das drogas. As drogas começaram a ser sinônimo de juventude a partir dos anos sessenta e, nos anos setenta já haviam se tornado uma prática que envolvia uma parcela de adolescentes e jovens. Simultaneamente, foram observados os transtornos alimentares (anorexia, bulimia, vigorexia, entre outros) que ocorreram nas últimas décadas do século XX e persistem até os dias atuais. Já nos anos 90 tomamos contato com massacres e vandalismo. Também foi nessa década que surgiu o costume de marcar ou fazer incisões na pele. As tatuagens e os piercings tornaram-se uma moda dolorosa, mas tolerada. Outras modas de comportamentos de risco apareceram nos últimos anos, na era digital, onde os desafios são propostos nas redes sociais.

  • O mundo de hoje produz comportamentos de risco por uma razão fundamental: “no fundo, cada um, trava a sua batalha sozinho”. As coisas podem se complicar quando o comportamento de risco e a sociabilidade nascente se combinam. “Na adolescência, a causa principal de morte são os acidentes que, em geral, estão ligados a um comportamento de risco”, “Um dos motivos principais do comportamento de risco é a influência do meio social. Os adolescentes são levados a impressionar os amigos, em busca de aprovação, enquanto também vão se tornando mais independentes dos pais.” A família encontra-se em transformação, não é mais um núcleo que colabora a moldar os jovens em uma classe, em valores e em limites e, o seu relacionamento com o mundo é construído em bases muito frágeis. Assim, começa uma jornada em busca de significados, que muitas vezes culmina nessas explorações perigosas. As crianças e adolescentes saem pelo mundo em busca dessas referências e limites, muitas delas de extremo risco. Crescem no mesmo ambiente que seus pais, mas emocionalmente, muito distantes deles. Observa-se a cada dia, crianças experimentando riscos, antes apenas evidenciados entre adolescente como, infecções sexualmente transmissíveis, violência, acidentes e outros.

  • Os comportamentos de risco são regulados no cérebro, numa área onde estão os neurônios relacionados com o prazer e vícios. Nos adolescentes, é uma área com muita produção de dopamina, que lhe proporciona sensação de prazer quando liberada (Quanto mais intensa é a experiência, maior sua liberação) Portanto, é a principal responsável pela maioria dos comportamentos típicos do adolescente, como a busca de novidades, os excessos (como ouvir música alta) e o comportamento de risco, que também gera euforia e produção de dopamina.

  • A atração pelos comportamentos de risco desempenha um papel importante na evolução dos indivíduos e de toda a espécie humana. Se os seres humanos sempre se comportassem de forma excessivamente prudente e conservadora, dificilmente cresceriam ou expandiriam seus horizontes. A humanidade deve a sua evolução aos homens primitivos que ousaram experimentar para obter fogo, um elemento que eles também temiam. Uma dose de risco é importante na vida de qualquer pessoa. É o que conhecemos como “sair da zona de conforto”. Sempre que enfrentamos o desconhecido, experimentamos elementos que fogem do nosso controle. Assim, somente dessa forma conseguiremos aprender e nos tornaremos pessoas melhores. Além disso, o desconhecido também traz emoções positivas para a nossa vida.
    Porém existem casos em que a atração pelos comportamentos de risco se torna algo compulsivo ou corre-se risco de morte, de acidentes com sequelas que colocam em risco ou em vulnerabilidade as pessoas atingidas. O objetivo é simplesmente experimentar fisicamente e quimicamente as sensações de perigo. Esses tipos de comportamento são muito semelhantes aos de um usuário. Em geral, há um forte componente autodestrutivo, que pode ou não se associar a uma depressão.

  • A falta de convivência familiar aponta para a ausência de determinados valores na formação dos jovens. O afastamento do convívio familiar, associado às demandas do mundo globalizado os colocam em risco. A mídia também influencia o comportamento dessa faixa etária, valorizando situações de perigo que levam à adoção de estilos divergentes dos padrões de saúde. O status da condição adolescente converge para a iniciação às saídas sem a companhia dos pais, a iniciação do namoro, o "ficar", a condição de votar e até mesmo de dirigir. Nesse panorama, a instabilidade emocional pode gerar conflitos, inclusive ocasionando o etilismo, o tabagismo, a drogadição, os acidentes automobilísticos, as infecções sexualmente transmissíveis e o risco à saúde, o que ressalta a vulnerabilidade desse grupo populacional.

    Além disso, percebemos que a sociedade também se encarrega de projetar suas falhas nos "excessos da juventude" e os responsabiliza pela marginalização, pela prostituição, pela opção por drogas, não assumindo sua responsabilidade diante de tais fatos nem oferecendo possibilidades de dividir o ônus social ou oferecer outros caminhos ou oportunidades a esses adolescentes ou jovens.

    O convívio com a aceleração do desenvolvimento permite observar marcantes transformações sociais que interferem de forma significativa no comportamento dos jovens, levando à adoção de estilos divergentes aos recomendados na manutenção da saúde.

  • São eles:

    a) Consumo de Álcool e Drogas

    O consumo de álcool e drogas está sempre no topo da lista quando se trata de comportamento de risco. Ambos, geralmente, induzem ao uso abusivo e, a curto prazo, comprometem a capacidade de julgamento do indivíduo, podendo levá-lo a se envolver em situações perigosas, como acidentes e ações violentas, por exemplo. O risco de dependência é maior porque o jovem está numa fase de experimentação e as dependências adquiridas podem permanecer durante a vida adulta.

    b) Abuso de Medicação

    Os medicamentos foram desenvolvidos para tratar problemas específicos e devem ser utilizados nas dosagens indicadas. Pessoas que se automedicam ou utilizam remédios psicoestimulantes, euforizantes, hipnóticos, etc.. estão colocando a sua saúde em risco. É muito importante apenas utilizar medicação mediante prescrição médica e mantê-las sempre longe do alcance de crianças e de pessoas que tenham qualquer tipo de transtorno psicológico.

    c)Alimentação Altamente Restritiva

    A pressão pelo corpo perfeito leva muitas pessoas a desejarem emagrecer a qualquer custo, nem que, para isso, precisem ficar sem comer ou ingerir apenas uma pequena quantidade de alimentos. Esse comportamento é considerado de risco porque pode gerar doenças graves, como é o caso da anorexia. Lembrar que os transtornos alimentares devem ser conduzidos por profissionais habilitados e, caso possível, por equipe multidisciplinar.

    d)Atividade Física Intensa e Sem Supervisão

    A atividade física intensa e sem supervisão, pode levar a lesões graves nos músculos, ossos e articulações e associar-se a um distúrbio da imagem corporal, sendo denominada vigorexia.

    e) Imprudências no Trânsito

    O trânsito é algo que deve ser levado bastante a sério porque um movimento imprudente ou desatento pode resultar em uma fatalidade. O excesso de confiança, o uso do celular ao volante e a combinação de álcool e direção são os principais sinais desse comportamento e faz com que muitos não coloquem apenas a própria vida em risco, mas também das outras pessoas que estiverem dentro do carro e de outros motoristas, ciclistas e pedestres.

    f) Atitude Violenta

    A atitude violenta é realizada de forma intencional, trazendo riscos para aquele que o apresenta e para as pessoas que se relacionam com ele. A violência nunca é um bom caminho e deve ser evitada sempre, em qualquer situação.

    g) Atividades Viciantes

    Não são apenas substâncias químicas que podem causar uso abusivo certas atividades, como jogos, autolesão, redes sociais e compras, por exemplo, podem levar pessoas a se tornarem dependentes delas. As consequências incluem contração de dívidas, descontrole quando não se consegue realizar tal atividade e o comprometimento de relações pessoais.

    h) Redes Sociais: Sexting, cyberbullying, grooming,

    A idade de uso da tecnologia está se antecipando e isso leva os adolescentes a entrarem mais cedo em práticas de risco. O adolescente, pode iniciar apenas por curiosidade, para chamar a atenção ou até por tédio. A facilidade de acesso é tamanha que pode se tornar uma prática frequente, com riscos potenciais derivados da prática do sexting, como violação à privacidade por exposição pública, à chantagem financeira, emocional ou sexual e o cyberbullying iniciados a partir da publicação não consentida de uma imagem cedida na privacidade ao parceiro ou amigos.

    Deve-se prestar atenção especial à esses comportamentos e práticas, lembrando que, a participação de adolescentes com 10 a 12 anos nas práticas de sexting já pode ser observada, sendo esse grupo etário especialmente vulnerável, porém, a vulnerabilidade se estende a todo o grupo de adolescentes.

  • A idade mínima para ingresso nos sites é desrespeitada pelos usuários, apesar de constar nos termos de uso da maior parte das plataformas. Geralmente, pais são responsáveis pela criação do perfil, mas negligenciam as atividades dos menores depois de aberta a conta. Meninos e meninas utilizam as redes sociais como diários, compartilhando sucessos, frustrações e expondo a intimidade sem critério. A selfie, autorretrato do mundo digital, apresenta uma menina que quer parecer mulher e exagera na pose e na maquiagem em busca de sensualidade. Na internet não há limite entre o público e o privado e, no ímpeto de chamar atenção, o jovem apela para a sexualidade e, as fotos uma vez publicadas, as imagens dificilmente desaparecerão da internet, podendo trazer problemas futuros.

  • O ideal é optar sempre pelo diálogo, para entender as razões pelas quais está agindo daquela maneira e, assim, oferecer o seu apoio sem julgamento.
    O tratamento irá variar de acordo com o tipo de comportamento de risco que o indivíduo está apresentando. Alguns deles podem ser transformados através de autoconhecimento e mudança de hábitos, enquanto outros precisam do acompanhamento de um profissional especializado na área. Independente de qual for o tratamento, o apoio dos familiares, responsáveis ou grupos é essencial para se possa vencer esse desafio, e que se consiga ter mais qualidade de vida, não prejudicar a si ou a mais ninguém.

  • Ter conversas abertas em idades precoces frequentemente e, não somente quando surgem preocupações. Os pais devem discutir o papel potencial dos relacionamentos afetivos saudáveis, bem como os possíveis riscos e consequências. Discutir a empatia (o conceito de se colocar no lugar do outro) ainda nos primeiros anos de vida; noção de respeito pelo corpo e o espaço do outro. É PRECISO SER REALISTA, falar dos riscos, do respeito ao outro e indicar as sequelas. Portanto na relação de pais e filhos, o vínculo de confiança deve ser construído ainda na infância e mantido para que o adolescente possa confiar naqueles que o educam, conduzem, acolhem, protegem ainda que estejam em situação de risco.

  • As descobertas sobre esse período da vida ajudam a lançar um olhar novo sobre o adolescente e a reconhecê-lo como alguém que não está pronto e que, por isso, precisa ser acolhido e orientado. Elas ajudam a reconhecer que a adolescência é uma fase característica e especial e que, inclusive o desenvolvimento cerebral dos adolescentes apresenta suas peculiaridades – que precisam ser conhecidas e respeitadas.

    Portanto:

    · Estimular mudanças no comportamento das crianças e adolescentes relacionados à hábitos de rotina (alimentação, sono, vestuário, falta às aulas, isolamento, uso excessivo de telas) e humor;

    · Abrir espaço para o diálogo sobre diferentes assuntos;

    · Acolher e ouvir o que o adolescente tem a falar sobre si, sobre seu mundo de relações e incertezas;

    · Orientá-lo sobre os riscos do uso de jogos ou comportamentos que podem colocar sua vida em risco;

    · Estimulá-lo e valorizar suas competências e interesses genuínos;

    · Estabelecer limites de forma coerente e consistente;

    · Explique, dê informações e não tenha medo de ser considerado “chato ou careta”.

    · Se houver o sentimento de perda da autoridade, procure um profissional para se fortalecer.

    · O papel dos pais é não negligenciar durante esse período e buscar se informar para ajudar os filhos com fatos e não com opiniões.

    · Evite apelidos preconceituosos ou “brincadeiras” que exponham ou possam ofender

    · Insista em estar perto e orientar para que eles se esforcem em terminar o que começaram

    · Os pais podem ajudar buscando orientações profissionais e informações para momentos de troca e crescimento conjunto.

    · Os conceitos de pressão de grupo, sexualidade, relações online versus offline, etc., também devem ser discutidos dentro da família. Nas redes sociais adequadas (naquelas onde há revisão por profissionais especializados) os pais podem encontrar alguns recursos úteis que os ajudarão a se informar sobre esse mundo digital em constante mudança e a preparar esse tipo de conversa. · O acompanhamento e o conhecimento dos aplicativos e do mundo digital poderá estimular a conversar e compartilhar com eles as informações como: publicar apenas coisas úteis, verdadeiras e com bons propósitos.

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