Excesso no uso de eletrônicos pode prejudicar desenvolvimento, reafirma especialista da SBP em evento na Bahia

postado 10/22/2018

Especialistas que estudam as implicações do uso excessivo de dispositivos eletrônicos online sobre a saúde e a integridade psicossocial e física de crianças e adolescentes abordaram o tema na 'I Conferência Tecnologia e Infância', realizada na sede do Ministério Público Estadual, no Centro Administrativo da Bahia (CAB). As palestrantes afirmaram que a utilização indiscriminada de aparelhos - conectados ou não à internet, como computadores, tablets e celulares - tem potencializado ou está relacionada a danos à segurança física e psicológica, à cognição socioafetiva e ao bem-estar motor, auditivo e visual de crianças e adolescentes.

A conferência foi aberta pela coordenadora do Centro de Apoio de Defesa da Criança e do Adolescente (Caoca) do MP, procuradora de Justiça dra Marly Barreto, que mediou o painel de debates da tarde. “Devemos aprender de forma humilde a compor a tela do futuro de cada criança e adolescente com as telas tecnológicas sem descarrilhar dos trilhos”, disse.

Sobre questões relacionadas à saúde, dra. Evelyn Eisenstein, membro do Departamento Científico de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), afirmou que a luz de led, emitida pelos dispositivos eletrônicos, prejudica o sono das crianças ao deixá-las mais alertas. Ela explicou que estudos já comprovaram a redução de melatonina, o hormônio do sono, em indivíduos superexpostos, o que traz implicações para o crescimento e desenvolvimento infantil.

“Criança não é um mini adulto. Além desse risco, temos o que chamamos de dissociação de cognição afetiva. Os pais precisam se preocupar mais com a mediação e o cuidado. O lado afetivo importa muito para o crescimento. Não é pensar que, ao deslizar o dedo numa tela, a criança vai ficar mais inteligente”, disse. Segundo a SBP, é recomendado desligar os aparelhos uma ou duas horas antes de dormir e não se recomenda o uso por crianças menores de três anos.

O evento também contou com a palestra da fonoaudióloga e psicopedagoga Telma Pantana, além da participação da presidente da Sociedade Baiana de Pediatria (Sobape), dra. Dolores Fernandez.

AUTISMO ELETRÔNICO – No evento, a psicóloga e psicanalista Ângela Baptista, especialista em diagnóstico e tratamento dos transtornos do desenvolvimento infanto-juvenil, ainda destacou o que é chamado de “autismo eletrônico”, ou seja, uma automação do comportamento das pessoas, sobretudo das crianças, que as priva do relacionamento propriamente humano, da troca do olhar e da palavra, tornando-as uma espécie de “Pinóquio às avessas”, um boneco que se humanizou com a experiência.

“Estamos suprimindo o instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir. A automação idealizada tira a autonomia e faz com que as crianças percam a capacidade de criar, inventar e imaginar, fazendo-as se esquivar do outro”, disse. Ela explicou que, conforme as pesquisas especializadas, o abuso desses aparelhos eletrônicos online, “na era da internet generalizada”, tem potencializado comportamentos autistas, embora não sejam a causa ou estejam necessariamente relacionados a autismo estrutural.

Já a diretora de Projetos Especiais na Safernet Brasil, a psicóloga Juliana Cunha, apresentou o trabalho desenvolvido pela entidade há 12 anos, inclusive com parcerias com o MP brasileiro, e destacou que há uma distância de percepção (gap geracional) entre pais quanto aos riscos e ameças que o uso da internet pode oferecer.

ALICIAMENTO - Conforme a especialista, pesquisas têm mostrado que, enquanto pais estão mais preocupados com desconhecidos que possam cometer aliciamento sexual, o que é grave e merece atenção, as crianças e adolescentes se incomodam e estão mais atentas ao que amigos e pessoas conhecidas falam e pensam deles. “Por isso, não podemos nos descuidar de quem está perto dos nossos filhos”, disse.

Ela informou que a Safernet disponibiliza um serviço, chamado de 'Helpline', que possibilita canais, meio e recursos para que as pessoas procurem ajuda sobre como se proteger e se comportar na internet, principalmente em casos de ameaça e constrangimento. As discussões foram realizadas pela manhã, no painel voltado para crimes cibernéticos, com a mediação do coordenador do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos (Nucciber), promotor de Justiça Moacir Nascimento Júnior.

Sobre a questão da segurança das crianças no uso da internet, ele afirmou que existem meios e recursos tecnológicos para monitorar dados acessados, mas que não é possível controlar totalmente o conteúdo. Ele reforçou as análises das palestrantes e afirmou que o monitoramento mais eficaz é o que trabalha na prevenção e capacita com diálogo as crianças e adolescentes a se fortalecerem para utilizar a internet com responsabilidade e segurança.

*Com informações da assessoria de imprensa do MP da Bahia


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