Publicado/atualizado: dezembro/2025
Departamento Científico de Nutrologia
Relatora: Fernanda Luisa Ceragioli Oliveira
Dislipidemia é uma doença que apresenta:
- Aumento na produção de colesterol, pode ser com aumento do LDL colesterol – hipercolesterolemia ou VLDL colesterol / triglicérides - hipertrigliceridemia.
- Redução na produção de HDL colesterol.
As causas mais comuns são hipertrigliceridemia e hipercolesterolemia familiar heterozigótica. A hipertrigliceridemia pode ser por alteração genética ou por doenças que estimulam o processo inflamatório (obesidade, artrite reumatoide, síndrome nefrótica, neoplasia). A hipercolesterolemia familiar tem característica genética por 2700 mutações do receptor do LDL colesterol. Além disso, os pais podem ter a mesma mutação genética, com quadro clínico e laboratorial com LDL colesterol acima de 1000 mg/dL, acarretada pela doença genética homozigótica.
A importância da prevenção e do diagnóstico precoce é evitar a marcha aterosclerótica, pois a redução de HDL colesterol e o aumento do LDL colesterol, do VLDL colesterol e de triglicérides facilitam a formação de placas de ateroma nas paredes das artérias. Quando ocorre a obstrução das artérias há o desencadeamento das doenças cardiovasculares precoces (infarto do miocárdio, doenças coronarianas, anginas), com alto risco de mortalidade. Diagnósticos clínicos dos pais e dos avós a respeito de e doenças cardiovasculares principalmente com idade precoce (mulheres <65 anos e homens < 55 anos) favorecem a predisposição de fatores genéticos familiares.
A presença de dislipidemia em gestantes está associada a um aumento do risco de início precoce do processo aterosclerótico intrauterino no feto. A obesidade da gestante e paterna também contribui ao maior risco de obesidade e hipertrigliceridemia. A prevenção na fase intrauterina deve ser realizada com uma alimentação balanceada e saudável, muitas vezes utilizando medicamentos para controlar a dislipidemia.
Ao nascimento, deve-se incentivar o aleitamento materno exclusivo e orientar o início da alimentação complementar aos seis meses de vida.
A introdução alimentar correta dos lactentes com alimentos saudáveis, seguindo as orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria são: ingerir frutas e oferecer prato balanceado com macronutrientes (proteína, carboidratos, gorduras), necessidade de ingerir apenas água para hidratação, sucos de frutas e alimentos ultraprocessados são proibidos até os 2 anos de vida.
No primeiro ano de vida deve-se precocemente realizar atividades lúdicas, que estimulam atividades motoras e sensoriais, favorecendo a futura atividade física.
A fase da adolescência aumenta o risco de dislipidemia por ingestão de alimentos ultraprocessados, escolhas de tipos alimentares diversos e sedentarismo.
O tabagismo ativo ou passivo também contribui para desencadear a dislipidemia e a marcha aterosclerótica. Nesta fase, a deposição nos vasos sanguíneos evolui para fase de transição, elevando o risco precoce de doenças cardiovasculares.
As doenças crônicas (diabetes, obesidade, síndrome nefrótica, oncológicas, lúpus sistêmicos e artrite reumatoide) e medicamentos (corticoides, inibidor de protease antiviral HIV, beta bloqueadores, testosterona e contraceptivos orais) contribuem para desencadeamento da dislipidemia com aumento de triglicérides.
O diagnóstico de dislipidemia pode ser realizado por volta de 4 anos de vida, sem necessidade de jejum, no mesmo momento de coleta de hemograma, com o exame de Não-HDL colesterol (colesterol total menos HDL colesterol). Este exame determina o risco aterogênico, pois relata aumento dos LDL e VLDL colesteróis.
Se o valor for acima de 145mg/dL, deve-se realizar o perfil lipídico com 8 ou 12 horas de jejum (colesterol total, LDL colesterol, HDL colesterol, VLDL colesterol e triglicérides). A diferença de tempo de jejum, deve-se ao método utilizado para realizar o perfil lipídico. Sempre solicitar o perfil lipídico dos pais e irmãos, quando houver dislipidemia na família
A avaliação do exame perfil lipídico revela três situações:
- Sem doença;
- Valores limítrofes, que indicam alterações genéticas, mas sem doença;
- Doença - dislipidemia.
Os tratamentos a serem realizados com diagnóstico de dislipidemia são: orientação nutricional conforme a lipoproteína aumentada (LDL colesterol e/ou triglicérides) e iniciar atividade física.
Se após 6 meses não houver melhora nos exames, apesar das orientações realizadas, o tratamento medicamentoso deve ser iniciado.
A orientação nutricional consiste em reduzir a quantidade e a qualidade de gordura ingerida diariamente, não ultrapassando 30% do valor energético total diário. Modificar a ingestão diária de leite integral para semidesnatado ou desnatado, não ultrapassando 500mL por dia. Aumentar a quantidade de fibras solúveis, atingindo diariamente 15g no pré-escolar, 20g no escolar e 25g no adolescente: aveia, psillium, cevada e leguminosas (feijão, grão de bico, soja). Carnes vermelhas devem ser ingeridas 2 a 3 vezes por semana e aumentar consumo de frango, peixes (ricos em ômega 3) e ovos. Não fazer frituras, usar forno ou airfryer. Utilizar os óleos de soja e de canola para cozer em pequeníssima quantidade, ricos em ácido graxo essencial ômega 3 e 6.
Segundo o tipo de dislipidemia, deve-se orientar:
Redução do LDL colesterol:
- Abolir a gordura trans: presente em grande quantidade de alimentos industrializados: pipoca, bolachas, salgadinhos, batatas fritas, margarina, doces e pães da padaria, alimentos prontos para uso)
- Reduzir consumo de gorduras saturadas: embutidos, manteiga, carnes, linguiça, salsicha, queijos e coco.
Redução dos VLDL colesterol e triglicérides:
- Reduzir a ingestão de carboidratos simples: limitar três frutas por dia, utilizar chocolate em pó com mais de 50% cacau.
- Abolir sucos de frutas, sucos em pó e líquidos industrializados, produtos industrializados que contenham açúcar ou outros carboidratos – maltose, frutose e mel (doces, geleias, balas, chocolates, bolos, refrigerantes), açúcar de adição em bebidas como leite com café ou achocolatado.
- Nos adolescentes, além das medidas já citadas, abolir bebidas alcóolicas.
A atividade física deve ser realizada diariamente, com brincadeiras lúdicas em ambiente seguro e com espaço adequado e fazer atividades familiares no mínimo 1 vez por semana.
No primeiro ano de vida, deve-se fazer atividades motoras leves no máximo de 20 a 30 minutos.
Atividades físicas devem ser em crianças maiores de 1 ano, 3 horas de atividades lúdicas e variadas diárias, incluindo brincadeiras como andar, correr, pular, girar, escalar e chutar bola
Maiores de 3 anos devem fazer pelo menos 3 horas diárias de atividade física de qualquer intensidade, propiciando 1 hora de atividade moderada e intensa, que poderá ser interrompida nos seguintes estados físicos alterados: alta dificuldade para conversar, dificuldade respiratória, face vermelha, calor, suor corpóreo e cabelos grudados no crâneo.
O uso de computadores, tablets ou celulares contribuem para aumentar o tempo de tela, que deve ser menor que 2 horas por dia e nunca colocar televisão no quarto das crianças e adolescentes.
O tratamento medicamentoso dependerá do tipo da dislipidemia – se LDL colesterol ou triglicérides.
Se o LDL colesterol estiver acima do valor limítrofe, as recomendações são:
- Crianças menores de 6 anos – sequestrantes de sais biliares (ligam-se aos ácidos biliares no intestino para impedir sua reabsorção, sendo usados para reduzir LDL colesterol)
- Maiores de 6 anos - fitosteróis e estatinas, e, se necessário, ezetimiba (reduz os lipídios/gorduras no sangue e age inibindo de forma seletiva a absorção do colesterol da dieta e da bile no intestino delgado, diferente das estatinas, que agem no fígado para reduzir a produção de colesterol).
Quando há aumento muito grande de triglicérides, há recomendação de fibratos e ômega 3 (DHA/EPA).
Sim, se o perfil lipídico estiver alterado, a avaliação das orientações nutricionais, a verificação da quantidade de atividade física e ingestão diária do medicamento devem ser mensais ou bimensais. Sempre questionar alguma dúvida ou aparecimento de dor na perna, enjoo e/ou dor na barriga. Se o perfil lipídico ainda estiver alterado, repeti-lo a cada três meses, se houver melhora do perfil lipídico, realizar exames anualmente. Sempre avaliar toda a família.