
Dra. Vanessa Macedo esclarece dúvidas comuns sobre aleitamento materno e alergia alimentar
Para muitas famílias, a descoberta de uma alergia alimentar, ou mesmo o receio do desenvolvimento de uma, pode levar a decisões precipitadas durante o período de aleitamento materno, como a adesão a dietas restritivas. Numa conversa objetiva e esclarecedora, a integrante do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SBP, dra. Vanessa Macedo, explica por que o manejo da alergia alimentar e a amamentação não são objetivos conflitantes. Conforme enfatiza a especialista, manter o aleitamento materno é fator de prevenção e também faz parte do tratamento em casos de alergia alimentar. Confira abaixo:
SBP AmamentAÇÃO – Qual é a relação entre o aleitamento materno e a prevenção das alergias alimentares? O leite materno pode contribuir para o desenvolvimento de uma maior tolerância imunológica do bebê?
Dra. Vanessa Macedo – O leite materno ajuda o sistema imunológico do bebê a amadurecer. Temos comprovação científica de que ele protege contra eczema, asma e rinite alérgica. Em termos médicos, ele favorece a maturação da barreira intestinal porque contém imunoglobulina A secretora, citocinas reguladoras e oligossacarídeos. Esse conjunto de fatores cria um ambiente imunológico mais propício ao reconhecimento de antígenos alimentares como algo tolerável e não como ameaça. Ou seja, ele pode reduzir o risco de desenvolvimento de alergias.
SBP AmamentAÇÃO – Um bebê em aleitamento materno exclusivo pode apresentar sintomas de alergia alimentar? Quais sinais devem chamar a atenção da família e do pediatra?
Dra. Vanessa Macedo – Mesmo quando está em aleitamento materno exclusivo, é possível que a criança manifeste alguns sinais que sugerem alergia alimentar, uma vez que proteínas de alimentos ingeridos pela mãe podem passar para o leite materno em quantidades mínimas, porém suficientes para sensibilizar lactentes predispostos. Entre os sinais que merecem atenção da família e do pediatra estão a presença de sangue ou muco nas fezes, vômitos recorrentes, irritabilidade acentuada e ganho de peso insatisfatório. Essas manifestações devem ser consideradas sempre que não encontrem outra explicação clínica plausível. É importante ressaltar que um sintoma isolado e de intensidade leve raramente configura, por si só, um quadro de alergia alimentar. O que de fato deve levar à investigação é a persistência dos sintomas ao longo do tempo, associada à ausência de resposta às medidas habituais.
SBP AmamentAÇÃO – Muitas mães acabam retirando diversos alimentos da dieta por medo de provocar alergias no bebê. Quais são os riscos de restrições alimentares desnecessárias durante a amamentação?
Dra. Vanessa Macedo – Do ponto de vista nutricional, restrições amplas e prolongadas comprometem a ingestão materna de proteína e micronutrientes, como o cálcio, e isso pode afetar a saúde óssea e o estado nutricional geral da mãe. Há ainda o impacto sobre a continuidade do aleitamento, já que dietas muito restritivas aumentam o risco de desmame precoce. Por esse motivo, cortar alimentos sem orientação médica não é a atitude mais segura. Pode até ser prejudicial. Enquanto não houver diagnóstico correto de alergia alimentar, a recomendação é manter uma alimentação materna saudável, variada e equilibrada.
SBP AmamentAÇÃO – Existe alguma recomendação para que mães evitem alimentos potencialmente alergênicos durante a gestação ou o período de amamentação para prevenir alergias no bebê?
Dra. Vanessa Macedo – É natural o receio de que algum alimento consumido pela mãe possa desencadear alergia no bebê, mas a retirada empírica de leite e derivados, ovo, glúten ou outros alimentos, sem diagnóstico confirmado, não encontra respaldo científico. Pelo contrário, isso traz riscos reais, tanto para a mãe quanto para a manutenção da amamentação. A mãe que amamenta só deve entrar em dieta de restrição alimentar se houver suspeita de alergia alimentar, nunca de forma preventiva. Da mesma maneira, não há indicação de restrições durante a gestação para prevenir alergias alimentares no bebê.
SBP AmamentAÇÃO – Como diferenciar uma alergia alimentar de situações comuns da primeira infância, como cólicas, refluxo, alterações nas fezes ou intolerância à lactose?
Dra. Vanessa Macedo – A diferenciação exige raciocínio clínico cuidadoso porque os sintomas se sobrepõem com frequência. Por isso, em caso de dúvida, a família deve conversar com o pediatra. A cólica do lactente costuma apresentar o que chamamos de padrão paroxístico, ou seja, início nas primeiras semanas de vida, resolução espontânea por volta do terceiro ou quarto mês e bom estado geral da criança entre as crises. Já o refluxo fisiológico se manifesta com regurgitações frequentes, mas sem sofrimento importante, sem sangue nas fezes e sem impacto no crescimento.
A intolerância à lactose primária é uma situação rara em lactentes e não deve ser confundida com alergia à proteína do leite de vaca, já que envolve deficiência enzimática e não uma resposta imunológica. Por outro lado, a alergia alimentar tende a apresentar um padrão mais consistente, com repetição dos sintomas após exposição ao antígeno, maior gravidade das manifestações cutâneas ou digestivas, eventual presença de sangue nas fezes e, com frequência, mais de um sistema envolvido simultaneamente.
Nos primeiros meses de vida, as angústias são comuns. Se existirem dúvidas diante de qualquer situação, é importantíssimo manter contato com o pediatra. Todas essas questões devem ser avaliadas sempre em conjunto com o especialista, pois não se trata apenas de atribuir sintomas comuns à alergia alimentar. Se for o caso, ele fará o diagnóstico com base numa avaliação da resposta clínica a uma prova terapêutica bem conduzida, com reintrodução supervisionada do alergênico para confirmação diagnóstica.
SBP AmamentAÇÃO – Quando há suspeita de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) em um bebê em aleitamento materno, como é feito o diagnóstico e quais exames são necessários?
Dra. Vanessa Macedo – Quando a suspeita clínica é consistente, a conduta padrão é a manutenção do aleitamento materno e a retirada de leite de vaca e derivados da dieta materna e, quando aplicável, também da alimentação complementar da criança. Após a melhora dos sintomas, deve-se realizar o teste de provocação oral, com reintrodução supervisionada do alérgeno na dieta materna, o que permite confirmar o diagnóstico e evitar restrições dietéticas desnecessárias e prolongadas. Em bebês saudáveis, sem complicações clínicas, não são necessários exames complementares para o diagnóstico de APLV. Exames devem ser solicitados apenas para exclusão de outros diagnósticos diferenciais.
SBP AmamentAÇÃO – Quando a alergia alimentar é confirmada em um bebê que está em aleitamento materno, como deve ser conduzido o tratamento sem comprometer a continuidade da amamentação e a nutrição da mãe e da criança?
Dra. Vanessa Macedo – O princípio orientador é preservar o aleitamento materno sempre que possível, já que ele continua sendo a forma mais segura de nutrição para o lactente com alergia alimentar, inclusive por reduzir a exposição a outras proteínas potencialmente alergênicas presentes em fórmulas convencionais.
O tratamento se baseia na exclusão dirigida do alérgeno confirmado na dieta materna, evitando a exclusão de outros alimentos sem indicação clara. A mãe deve receber orientação nutricional para substituir de forma adequada os nutrientes do alimento excluído, com atenção especial ao cálcio e à vitamina D quando o leite de vaca é o alérgeno envolvido, podendo ser considerada, inclusive, a suplementação, se necessário.
Vale destacar que reavaliações periódicas, com tentativa de reintrodução do alergênico, devem ser programadas de acordo com a evolução do quadro clínico, para verificar o desenvolvimento de tolerância e evitar a manutenção de dietas restritivas além do necessário, tanto para a mãe quanto para a criança.
SBP AmamentAÇÃO – Qual é a principal mensagem que o pediatra deve transmitir às famílias sobre alergia alimentar e aleitamento materno?
Dra. Vanessa Macedo – O manejo da alergia alimentar e a manutenção da amamentação não são objetivos conflitantes. Manter a amamentação faz parte do tratamento da alergia alimentar. É muito importante que os cuidadores entendam que o leite materno, por si só, não causa alergia alimentar e que manter o aleitamento ajudará a formar um microbioma saudável nesse bebê, com melhora da tolerância imunológica. Decisões sobre exclusão de alimentos, tanto da dieta materna quanto da criança, devem sempre partir de avaliação clínica individualizada, e não de medo antecipado ou de informações não fundamentadas em evidências.
SBP AmamentAÇÃO – Há alguma questão ou consideração que gostaria de acrescentar?
Dra. Vanessa Macedo – Gostaria de reforçar o papel do pediatra no apoio e incentivo à manutenção da amamentação nos casos de suspeita ou diagnóstico de alergia alimentar. Deve-se evitar restrições alimentares prolongadas e exageradas, sem base diagnóstica, devido ao impacto real sobre a saúde materna e para a continuidade da amamentação. Investir em diagnóstico correto, apoio nutricional adequado e acompanhamento longitudinal é o que efetivamente protege a díade mãe-bebê e garante a continuidade da amamentação sem culpas ou medos.
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