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“Nada mudou na assistência ao recém-nascido com cardiopatia congênita no Brasil”, alerta presidente do DC de Cardiologia da SBP

A presidente do Departamento Científico de Cardiologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), dra. Patrícia Guedes de Souza, faz um alerta no Dia de Conscientização da Cardiopatia Congênita, celebrado no dia 12 de junho (terça-feira): não houve melhorias na assistência à criança com cardiopatia congênita no Brasil após a audiência pública realizada em novembro de 2016, na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), com a participação de representante da SBP.

“Após o pleito, o Ministério da Saúde aumentou a remuneração de alguns procedimentos de cirurgia cardíaca pediátrica. No entanto, essa medida pouco mudou a assistência à criança com cardiopatia no Brasil, sem que tenha havido de fato ampliação de número de leitos e de serviços para atendimento a este grupo de pacientes”, comenta.

PLANO NACIONAL - Em julho do ano passado, como resultado de contribuições oferecidas pela SBP, o Ministério da Saúde (MS) lançou o Plano Nacional de Assistência à Criança com Cardiopatia Congênita, com a meta de ampliar a atenção a pacientes nesta faixa etária no SUS. A elaboração do plano é resultado do documento intitulado ‘Programa Nacional para o Tratamento Integral de Crianças com Diagnóstico de Cardiopatia Congênita’, produzido pelo comitê formado por representantes da SBP e também das Sociedades Brasileiras de Cardiologia (SBC), de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV) e de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).

A proposta do governo integrava um conjunto de ações para ampliar o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à reabilitação de meninos e meninas com a doença. No entanto, vários outros aspectos relacionados ao atendimento integral de crianças cardiopatas no Brasil ainda necessitam ser aprimorados. Segundo dr. Jorge Yussef Afiune, membro do DC de Cardiologia da SPB e que contribuiu com as propostas junto ao Ministério da Saúde para o Plano, um dos principais problemas que necessita ser avaliado é o da disponibilidade de leitos de terapia intensiva cardíaca pediátrica.

“Não há como realizar o tratamento cirúrgico das cardiopatias na criança sem uma melhor estruturação do sistema de referência e contrarreferência entre serviços terciários de cardiologia pediátrica e os serviços pediátricos de origem, especialmente nas cardiopatias graves. Há uma carência de leitos de UTI neonatal e pediátrica e cardíaca pediátrica no país. Este parece ser um ponto crítico no processo de atendimento às crianças cardiopatas em nosso país e necessita ser analisado com urgência”, ressaltou.

SUBNOTIFICAÇÃO – Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, no Brasil, o registro de óbitos relacionados à cardiopatia congênita é de 107 casos para cada 100 mil nascidos vivos, ou seja, cerca de 8% das mortes neste segmento da população. Destes, aproximadamente 30% dos óbitos ocorrem no período neonatal precoce (0 a seis dias de vida).

Entretanto, pode-se afirmar que esses dados são subestimados devido à falta de diagnóstico nos hospitais do País. As informações apontam ainda que no mundo, dos 52% de mortes na primeira infância (0 a 365 dias de vida), a cardiopatia é responsável por 40% dos defeitos congênitos, sendo uma das malformações mais frequentes e a de maior mortalidade.

“Sem dúvida existe a subnotificação da mortalidade por cardiopatia congênita no Brasil. A insuficiência de leitos em serviços de cirurgia cardíaca neonatal e pediátrica ainda causa um efeito cascata, deixando sem assistência recém-nascidos e crianças com outras doenças, que precisam de internação em UTI, cujos leitos estão ocupados por longo período por pacientes portadores de cardiopatia e estão aguardando transferência para o serviço de referência em cirurgia cardíaca pediátrica”, comenta a dra. Patrícia.

DIAGNÓSTICO – Incorporado aos testes de triagem em neonatais do Sistema Único de Saúde (SUS), desde 2014, o Teste do Coraçãozinho, que detecta problemas cardíacos no recém-nascido, é simples, indolor, rápido e não invasivo. Ele pode indicar a probabilidade da criança ter uma cardiopatia congênita grave. Também chamado de Oximetria de Pulso e recomendado pela SBP, o teste deve ser feito ainda na maternidade, antes da alta do bebê, como triagem de rotina para os recém-nascidos (RN).

“O teste detecta a baixa oxigenação no sangue, que está presente na maior parte desses defeitos cardíacos. O exame é realizado após 24 horas de vida com um equipamento que mede a saturação de oxigênio. Caso haja alteração, ou seja, se o teste for positivo, deve ser feito um ecocardiograma no RN para fins de diagnóstico”, elucida.

No entanto, a cardiologista pediátrica ressalta que o Teste do Coraçãozinho “é um teste de triagem que não tem 100 por cento de sensibilidade, pois existem algumas cardiopatias críticas que podem não ser detectadas através deste exame e inúmeras cardiopatias não críticas que não cursam com a alteração na oxigenação sanguínea e, obviamente, não serão positivas nesse teste”, observa.

As cardiopatias podem ser suspeitadas durante a gestação pelo ultrassom morfológico e confirmadas pelo ecocardiograma fetal ou ainda com a ajuda do teste do coraçãozinho, que é feito na maternidade. Outra forma de diagnóstico é por exame físico realizado pelo pediatra com ajuda de exames complementares como raios x de tórax, eletrocardiograma, ecocardiograma, cateterismo, holter de 24h e angiotomografia.

PAPEL DO PEDIATRA – Dra. Patrícia destaca que o papel do neonatologista e do pediatra é fundamental na assistência à criança com cardiopatia. “O neonatologista é quem vai assistir o RN com cardiopatia logo após o nascimento, será o responsável por suspeitar de cardiopatia naqueles pacientes que ainda não têm diagnóstico do defeito cardíaco e prestará toda assistência inicial a este paciente na unidade neonatal, inclusive iniciando medidas de tratamento que serão decisivas para a sobrevida do bebê, com a prescrição de medicações para manutenção de um estado circulatório adequado, prestando suporte ventilatório e cuidando da nutrição”, frisa.

A cardiologista pediátrica diz ainda essas recomendações são válidas também para o pediatra tanto do consultório quanto das unidades de emergência. “É ele quem vai, muitas vezes, fazer a suspeita da cardiopatia e prestar a assistência inicial que será fundamental para a boa evolução dos pacientes. O pediatra será o médico que, juntamente com o cardiologista pediátrico, fará o acompanhamento em longo prazo desta criança, que não tem apenas a doença do coração”, complementa.

COMPROMISSO – Esse empenho na atenção aos pacientes com esse diagnóstico tem marcado a trajetória de dra Zilma Verçosa, pediatra da Bahia que tem ajudado vários pacientes e suas famílias. “Hoje evoluímos muito em relação ao diagnóstico das malformações cardíacas congênitas, tanto no período pré-natal com a ecocardiografia fetal, como no pós-natal. Este último, especialmente, com a aprovação e incorporação desde 2014 do Teste do Coraçãozinho nas maternidades”.

Contudo, corrobora ela, “enfrentamos ainda a falta de vagas de terapia intensiva, em centros terciários e de alta complexidade, para o tratamento cirúrgico desses pacientes. Assim, o longo período de espera para o tratamento adequado, associado a piora da condição clínica desses pacientes, seja por complicações pré-operatória, como infecção ou a própria progressão da doença, diminuem as chances de êxito”. Por isso, dra Zilma reforça o alerta:

“É importante chamar a atenção para o fato de que os cardiopatas congênitos são 1 em cada 100 nascidos vivos. Se diagnosticássemos e tratássemos adequadamente essas crianças, teríamos um grande impacto na redução da mortalidade infantil no nosso país. Muitas mortes podem ser evitadas através de diagnóstico e intervenções precoces”, finaliza.

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