06/02/2023

Diante da gravidade humanitária, ambiental e sanitária que assola a reserva da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e pensando no bem-estar de todas as crianças e adolescentes do País, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) decidiu reativar o Grupo de Trabalho (GT) Saúde da Criança e do Adolescente Indígena, criado originalmente em 2002. A decisão foi tomada na reunião presencial da diretoria executiva ocorrida no último dia 25, na sede da instituição, na cidade do Rio de Janeiro.

A crise, que comoveu nos últimos dias toda a população brasileira, também alcançou a diretoria da SBP e os pediatras, que voltaram seus olhares aos desdobramentos dessa tragédia. Estiveram presentes os drs. Clóvis Francisco Constantino (presidente); Edson Ferreira Liberal (1º vice-presidente); Anamaria Cavalcante e Silva (2ª vice-presidente); Maria Tereza Fonseca da Costa (Secretária Geral); e Sidnei Ferreira (Diretor financeiro).

Também compareceram os drs. Maria Angélica Barcellos Svaiter (2ª Diretora Financeira); Donizetti Dimer Giamberardino Filho (3º Diretor Financeiro e presente virtualmente na reunião); Ana Cristina Ribeiro Zöllner (1ª Secretária); Rodrigo Aboudib Ferreira (2º Secretário); e Claudio Hoineff (3º Secretário).

A escolha dos integrantes ainda está em formação. O novo grupo se chamará “Grupo de Trabalho em Saúde das Crianças e Adolescentes dos Povos Originários do Brasil”.  A coordenação ficará a cargo da 2ª vice-presidente da instituição, dra. Anamaria Cavalcante e Silva.

“Esse GT ressurge a partir da atual situação de calamidade em que se encontra a população dos yanomami. A principal missão do Grupo em formação será acompanhar de perto a situação e lutar para que sejam respeitados os direitos à saúde dessa população em especial”, defende o presidente da SBP, dr. Clóvis Francisco Constantino.

Em entrevista ao SBP em Ação, a 2ª vice-presidente e coordenadora do Grupo de Trabalho em Saúde das Crianças e Adolescentes dos Povos Originários do Brasil, dra. Anamaria, confirma que os integrantes terão como uma das frentes de trabalho o acompanhamento da crise humanitária dos yanomami e de averiguar a situação da saúde das crianças e adolescentes em outros povos originários localizados em outras cidades.

Para ela, é responsabilidade de todos os pediatras o engajamento para cuidar mais e melhor de todas as crianças e adolescentes, principalmente os que mais precisam de cuidados especiais, respeitando, assim, o princípio da equidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista.

SBP EM AÇÃO – Por que a atual diretoria da SBP decidiu recriar o Grupo de Trabalho Saúde das Crianças e dos Adolescentes dos Povos Originários?

Dra. Anamaria Cavalcante e Silva (ACS) – Não podemos negar a situação epidemiológica extremamente grave que comoveu não só a diretoria da SBP, mas também muitos pediatras brasileiros e a população como um todo. Não fazíamos ideia da gravidade do problema. E, agora que sabemos, não podemos simplesmente nos calar.

SBP EM AÇÃO – Por que é importante que os pediatras entrem nessa luta pela qualidade da saúde das crianças e adolescentes indígenas?

ACS – Estamos vivendo um período de pós-pandemia e de grave crise econômica, com consequências para a segurança alimentar, o que requer de nós a responsabilidade de cuidar mais e melhor de todas as crianças que estão em situação de vulnerabilidade. Existe um princípio do SUS que é a equidade e, por isso, precisamos olhar mais e cuidar de quem mais precisa. Esse princípio não pode jamais ser esquecido por um pediatra.

SBP EM AÇÃO – Que tipo de ações o Grupo pretende desenvolver a partir da definição de seus membros? 

ACS – Os pediatras que irão compor o Grupo de Trabalho nos trarão subsídios para o Plano Estratégico. Nesse momento, o mais importante é sabermos como está a situação da criança indígena, não só em Roraima – que vive essa situação gravíssima de desnutrição e alta mortalidade com a tribo dos ianomâmis devido à contaminação mineral –, mas em outras localidades do País que possuem povos originários, as quais não temos informações. Fui secretária de saúde do Estado do Ceará e quando tive a oportunidade de ser secretária de saúde do município de Aquiraz, trabalhei com a Cacique Pequena, líder dos povos cearenses, com a qual fizemos um trabalho em parceria e priorizamos a saúde das crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade de todo o município. Nesse mesmo contexto, buscaremos apoio através das nossas filiadas, com a equipe desse Grupo de Trabalho, para continuarmos no desenvolvimento de ações voltadas à assistência à saúde das crianças e adolescentes que mais precisam.