17/09/2026

Cerca de 170 pessoas participaram, na última sexta-feira (11), em Vitória (ES), da abertura do 26º Fórum da Academia Brasileira de Pediatria (ABP), realizado em parceria com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e, nesta edição, com a Sociedade Espírito-santense de Pediatria (Soespe). Com o tema “Violência na infância e na adolescência: reflexões contemporâneas”, o encontro reuniu pediatras e profissionais de diferentes áreas para discutir prevenção, identificação, acolhimento e enfrentamento das diversas formas de violência contra crianças e adolescentes.

Na abertura, o presidente da SBP, dr. Edson Liberal, destacou que a violência contra uma criança não afeta apenas a vítima. “Quando uma criança sofre violência, quem é afetado? Não é apenas a criança. É a família, é a escola, é a comunidade, é a sociedade. Toda violência deixa marcas que podem atravessar uma vida inteira”, afirmou.

Segundo dr. Edson, o pediatra tem papel importante na identificação de situações de violência, inclusive quando não existem sinais físicos evidentes. Ele chamou atenção para manifestações que podem aparecer no comportamento e na saúde da criança ou do adolescente.

“A violência nem sempre chega com uma marca visível. Às vezes, ela aparece como uma dor de cabeça recorrente, como uma alteração do sono, como uma mudança repentina de comportamento, como uma criança que se cala ou como um adolescente que deixa de acreditar em si mesmo”, disse.

Dr. Edson Liberal também ressaltou a importância da escuta durante o atendimento pediátrico. Segundo ele, uma pergunta adequada pode abrir espaço para que a criança revele uma situação de sofrimento, enquanto uma escuta atenta pode ajudar o profissional a reconhecer o problema e agir para protegê-la.

O presidente da SBP defendeu ainda a atuação conjunta entre os diferentes setores. “Nenhuma instituição consegue enfrentar sozinha a violência contra crianças e adolescentes. Precisamos de uma rede que funcione”, afirmou.

DIMENSÃO DO PROBLEMA – A presidente da ABP, dra. Lícia Moreira, chamou atenção para os números relacionados à violência contra crianças e adolescentes. Segundo dados do Disque 100, o Brasil registrou cerca de 189 mil denúncias de violência contra crianças em 2025.

A violência também está presente no ambiente digital. De acordo com o relatório Disrupting Harm in Brazil, elaborado pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, 19% das crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que utilizam a internet foram vítimas de pelo menos uma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia em um período de 12 meses. O percentual corresponde a cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes no país.

O relatório também mostra a dificuldade de comunicação desses casos às autoridades. Em atualização divulgada pelo UNICEF em setembro de 2026, menos de 1% dos casos foi comunicado à polícia, a profissionais de assistência social ou a linhas de apoio.

Dra. Lícia Moreira ressaltou ainda os impactos da violência sexual sobre a saúde mental, que podem incluir depressão, ansiedade, autolesão e ideação suicida. Ela defendeu a preparação de profissionais para reconhecer sinais de violência e o fortalecimento da rede de proteção para acolher e encaminhar os casos.

VIOLÊNCIA DENTRO DO CÍRCULO FAMILIAR – O presidente de honra do 26º Fórum da ABP, Dr. Rodrigo Aboudib, apresentou dados sobre a situação no Espírito Santo. O boletim epidemiológico da Prefeitura de Vitória aponta aumento de 376% nas notificações de violência contra crianças de zero a seis anos entre 2020 e 2025.

No mesmo período, a taxa de recorrência passou de 18,4 para 31,4, indicando a repetição das situações de violência em parcela significativa dos casos. Em 94,1% das ocorrências, o agressor e o local da violência estavam relacionados ao círculo familiar da vítima.

Os pais aparecem entre os principais responsáveis pelos casos notificados: o pai foi identificado como agressor em 32,1% das ocorrências, a mãe em 22,5% e o padrasto ou madrasta em 18,2%.

“Esses dados são por demais sérios, exigindo, pois, uma profunda reflexão da sociedade”, afirmou dr. Rodrigo Aboudib.

ROMPER O CICLO DA VIOLÊNCIA – A presidente da Soespe, dra. Ana Paula Burian, destacou a necessidade de ir além da identificação e da proteção das vítimas. Para ela, é preciso trabalhar para interromper o ciclo de violência e reduzir seus efeitos na vida adulta.

“Precisamos não apenas proteger as nossas crianças, mas quebrar esse círculo vicioso, esse ciclo de violência que elas vivem, de forma que tenham uma vida adulta mais preservada, com menos violência entre nós”, afirmou.

Dra. Ana Paula Burian também lembrou que a violência não se restringe às agressões físicas e inclui situações psicológicas e digitais. Para ela, o Fórum da ABP deve contribuir para a definição de estratégias e mudanças de comportamento, além de aproximar os fluxos de atuação das áreas de educação, saúde e demais setores envolvidos na proteção de crianças e adolescentes.

HOMENAGEM – A 26ª edição do Fórum prestou homenagem ao professor José Dias Rêgo, que ocupou a cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Pediatria e faleceu em março deste ano. Médico, professor e acadêmico, ele teve atuação na promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno, na humanização do atendimento ao recém-nascido e no Programa Brasileiro de Reanimação Neonatal da SBP (PRN-SBP).

Durante a abertura, também foi anunciada a posse do pediatra dr. Joel Alves Lamounier como novo membro titular da ABP, ocupando a cadeira nº 16, sob o patronato de Luiz Torres Barbosa. A cerimônia ocorreu na assembleia da ABP em 12 de setembro de 2026.

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