Brinquedos que conversam, lembram do que a criança gosta e respondem com palavras que transmitem empatia e parecem carinhosas já fazem parte da realidade das famílias. Diante do avanço da Inteligência Artificial (IA) e de sua aplicação em produtos lúdicos, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) – por meio do seu Grupo de Trabalho de Saúde Digital – divulgou nota de alerta com orientações para pais, responsáveis e pediatras sobre como escolher e acompanhar os efeitos da aplicação dessas tecnologias junto aos mais jovens, com o objetivo de reduzir riscos de exposição indevida.
O campo da saúde digital será um dos temas em debate durante o 42º Congresso Brasileiro de Pediatria (CBP), ampliando a discussão entre especialistas sobre os impactos das tecnologias na saúde e no desenvolvimento de crianças e adolescentes. O evento ocorre entre os dias 13 e 17 de outubro, em Belo Horizonte (MG), no Expominas.
Para a Dra. Evelyn Eisenstein, coordenadora do GT, a chegada da IA ao universo dos brinquedos exige olhar atento dos adultos. “O brinquedo é o instrumento e o brincar é a experiência. A presença da Inteligência Artificial não torna um brinquedo automaticamente bom ou ruim. O que importa é entender o que essa tecnologia acrescenta, como ela foi desenhada e se é adequada à idade e à etapa do desenvolvimento da criança e do adolescente”, afirma.
Segundo o documento, os sistemas de IA generativa já reconhecem voz e imagem, recordam informações, adaptam respostas e mantêm conversas que não são inteiramente pré-programadas. A SBP considera o tema urgente. Em setembro de 2026, ganhou repercussão o anúncio do Muse Charm, dispositivo portátil da Meta comparado pela imprensa a um “Tamagotchi com IA”: embora não seja um brinquedo para crianças, ele ilustra como agentes de IA passam a ocupar formas físicas, portáteis e personalizadas.
EMOÇÕES – O documento da SBP chama atenção para o fato de que a IA pode usar linguagem afetiva ou empática, mas não é uma pessoa, e lembra que um brinquedo conectado pode ter microfone, câmera, acesso à internet, coleta de dados e mecanismos de personalização e de engajamento. A revisão publicada na Pediatrics em 2026 destaca o risco de crianças desenvolverem percepções equivocadas da IA como amiga ou cuidadora. Já o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alerta para os chamados de “AI companions”, que são brinquedos ou produtos que estimulam conversas em relacionamentos ao serem usados por crianças e adolescentes. Porém, são sistemas de IA que buscam obter informações e podem causar prejuízos à saúde e dependência ao produto.
“Por isso, a pergunta não deveria ser apenas o que o brinquedo faz. Precisamos saber também como funciona, quais informações coleta, para que esses dados são utilizados e se ele incorpora, desde a concepção, mecanismos adequados de proteção à criança e ao adolescente”, explica a observação científica produzida por 8 pediatras especializados.
A SBP recomenda cautela na oferta de brinquedos com IA, especialmente os que utilizam IA generativa, mantêm conversas abertas, coletam dados pessoais ou simulam amizade, cuidado ou apoio emocional. Quando essas funcionalidades não trazem benefício claro, ou quando o funcionamento e os mecanismos de proteção não estão claros, a orientação é priorizar produtos e brinquedos sem esses recursos.
Outra preocupação dos especialistas é compreender os efeitos à saúde mental e comportamental de longo prazo dessas novas formas de interação, que ainda não estão suficientemente mapeados. Para a SBP, a incerteza científica não significa ausência de riscos e reforça a necessidade de proteção adequada à infância e à adolescência.
ANTES DE COMPRAR – Para apoiar a decisão das famílias, a Nota de Alerta propõe perguntas-chave para as famílias refletirem antes de comprar um desses produtos:
- O que essa tecnologia acrescenta à brincadeira? A criança participa ativamente ou o brinquedo faz quase tudo por ela?
- Como o produto funciona (se usa IA generativa e se possui câmera, microfone ou conexão com a internet), e a indicação etária e a supervisão parental estão claras?
- O que acontece com os dados da criança e do adolescente? Há perfilamento, publicidade, compras ou assinaturas associadas?
- Como a interação é apresentada: o produto simula amizade, afeto, cuidado ou apoio emocional? A criança entenderá, conforme a idade, que está interagindo com uma IA e não com uma pessoa?
- Qual lugar essa experiência ocupa na rotina, em relação ao sono, ao movimento, à brincadeira livre, à leitura, ao contato com a natureza e à convivência familiar?
Antes da compra, as informações essenciais devem estar claras e acessíveis: se o produto possui câmera ou microfone, se precisa de internet, que informações registra e para quê, onde são armazenadas, se são compartilhadas com terceiros, se é possível apagá-las e quais recursos vêm ativados por padrão. Se não estiverem, a recomendação é não comprar e optar por outro produto ou brinquedo. O ECA Digital obriga os fornecedores a informar pais, responsáveis, crianças e adolescentes, independentemente da compra, sobre os riscos e as medidas de segurança, incluindo privacidade e proteção de dados.
APÓS A COMPRA – Diante de coleta de dados não informada, conteúdo inadequado, falhas de segurança ou dificuldade de exercer seus direitos, as famílias podem pedir ao fornecedor informações, correção ou eliminação dos dados da criança (LGPD, art. 18); desistir, em até sete dias do recebimento, de compras feitas fora do estabelecimento comercial (CDC, art. 49); usar os canais de notificação do fornecedor (ECA Digital, art. 28); e reclamar no Procon, no consumidor.gov.br ou na ANPD.
PRÁTICA CLÍNICA – A SBP também convida os pediatras a incorporarem essas perguntas à prática clínica e à prevenção de riscos, avaliando não apenas o tempo de uso, mas também o conteúdo, a coleta de dados e a forma de interação com estes produtos. Para a SBP, a proteção da infância e da adolescência não depende só dos pais, e o debate sobre brinquedos com inteligência artificial deve ir além de ser a favor ou contra a tecnologia.
Na visão dos especialistas, como a IA já faz parte da vida das novas gerações, aprender a usá-la com segurança, senso crítico e responsabilidade integra a educação contemporânea. A supervisão familiar é importante, mas a responsabilidade pela proteção não pode ser transferida exclusivamente às famílias. Fabricantes, desenvolvedores, fornecedores e poder público também têm responsabilidades na construção de ambientes e produtos digitais seguros e adequados ao desenvolvimento cerebral e mental. A pergunta central deverá sempre ser: que experiências esse brinquedo oferece à criança e ao adolescente, e qual lugar queremos que ele ocupe na infância e na adolescência”, concluem os especialistas do GT sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria.