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Os perigos do movimento antivacinas

Departamentos Científicos 19/01/2015

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“O calendário da SBP recomenda todas as vacinas disponíveis e indicadas para a criança, adolescente e adulto.”

Considerada uma das mais importantes conquistas da medicina e da pediatria em particular, responsáveis pelo desaparecimento de várias e graves doenças, as vacinas são, no entanto, atualmente, alvo de um movimento opositor. Esse é o tema da entrevista com o presidente do Departamento Científico de Infectologia da SBP, Aroldo Prochman de Carvalho. Leia, a seguir.

Qual a posição da SBP sobre o movimento antivacinas que tem se apresentado no Brasil?


Dr. Aroldo Prohmann de CarvalhoDr. Aroldo:
O movimento antivacinas existe em vários países, encabeçado por alguns grupos específicos. A SBP condena qualquer manifestação antivacinas, considera uma irresponsabilidade. A partir do momento em que não se vacina uma criança, coloca-se em risco toda uma população. O dever de vacinar é um ato de cidadania e a recusa em praticá-lo pode ser considerada como negligência. A SBP atua em caráter educativo, orientando pediatras e médicos brasileiros em geral a recomendarem para seus pacientes todas as vacinas que fazem parte dos calendários de vacinação do Ministério da Saúde e da SBP.

Há algum registro de que esse movimento tenha sido responsável pelo ressurgimento de doenças até então erradicadas? Nos EUA, por exemplo, fala-se do retorno de doenças como sarampo, caxumba, rubéola, poliomielite e coqueluche...

A ocorrência de doenças tidas como controladas, como por exemplo, o sarampo, tem sido observada não somente nos Estados Unidos, como também em vários países da Europa, Japão e nos últimos dois anos no Brasil. Os casos registrados no Brasil tiveram como fonte de contágio indivíduos procedentes de outros países, principalmente da Europa. Muitas crianças que contraíram a doença não foram vacinadas por recusa de seus pais ou orientações equivocadas. Provavelmente os movimentos antivacinas tem responsabilidade na redução das coberturas vacinais nesses países, com consequente ressurgimento das doenças infecto-contagiosas.

Quais podem ser as consequências desse movimento, caso ele realmente ganhe proporções significativas em nosso país, principalmente no que diz respeito às vacinas que constam do calendário oficial?

As consequências podem ser desastrosas, com aumento da morbidade e da mortalidade, não somente de crianças, mas também da população adulta. Seria um verdadeiro retrocesso em termos de saúde pública.

Um dos argumentos utilizados por essas pessoas que optam por não imunizar seus filhos é o de que há muitas vacinas para serem aplicadas num curto espaço de tempo, especialmente em bebês, no calendário oficial. A hipótese de que o sistema imunológico deles ainda é prematuro para receber tantos agentes agressores teria algum fundamento científico?

De maneira alguma. Antes do licenciamento e da liberação de cada vacina, estudos científicos bem fundamentados são realizados, demosntrando-se uma resposta imunológica consistente e adequada para as faixas etárias nas quais as vacinas são indicadas. O sistema imunológico da criança, mesmo de lactentes, tem perfeitas condições de produzir anticorpos em quantidade suficiente para protegê-lo das infecções. Além disso, de acordo com estudos científicos, algumas vacinas apresentam uma melhor resposta quanto mais jovem a criança for vacinada para determinadas doenças e com base nesses estudos é que a idade de aplicação de cada vacina é definida nos calendários.

Outro argumento é que as vacinas podem causar reações. Quais são as vacinas que, notadamente, podem causar reações mais sérias? Como deve-se ponderar esse argumento?

Qualquer substância administrada ou ingerida pode causar reações, inclusive alimentos. Os estudos realizados com vacinas avaliam exaustivamente a possibilidade de reações adversas. A vacina é liberada para o uso somente quando os estudos demonstram sua segurança. Os benefícios da vacinação, com certeza, suplantam em muito os riscos.

Há quem defenda que a criança precisa ter alguma doença na infância, até para fortalecer o sistema imunológico. Qual o seu comentário?

A criança não precisa “pegar” nenhuma doença para fortalecer seu sistema imunológico. O contato com agentes infecciosos ocorre desde o nascimento, inclusive na fase intrauterina, independentemente da administração de vacinas. O sistema imunológico é constantemente estimulado. Os reforços das vacinas são indicados com base em evidências científicas que demonstram sua necessidade. Uma dose da vacina contra varicela (conhecida popularmente como catapora) protegeria a criança das formas graves da infecção, porém, para protegê-la de todas as formas, são necessárias duas doses. Uma criança com varicela leve pode não ter risco para sua saúde, no entanto, esta criança transmite a infecção da mesma maneira.

A eficácia das vacinas ditas homeopáticas (isopáticas) é reconhecida pela Sociedade?

Caso sejam feitos estudos com metodologia científica adequada, que resultem em evidências científicas bem definidas de sua eficácia, a SBP reconheceria sim. Nenhuma vacina homeopática até o momento preenche esses critérios.

Há vacinas que não estão no calendário oficial, mas que protegeriam contra um espectro maior de doenças. Recentemente, a rede privada começou a oferecer uma vacina mais completa para prevenir a meningite, por exemplo, que garante a imunização contra os tipos W e Y. Já tivemos casos desses tipos de meningite no Brasil? Há algum sentido em imunizar crianças para um problema que sequer apareceu em nosso país? Como os pais podem fazer para não dar vacinas desnecessárias, movidos pela propaganda das indústrias de medicamentos?

Na verdade o calendário de vacinação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde do Brasil está bastante abrangente. O Governo, no entanto, afirma que não dispõe de recursos para fornecer todas as vacinas disponíveis, indicadas para crianças, adolescentes e adultos. Por outro lado, o calendário da SBP recomenda todas as vacinas disponíveis e indicadas para a criança, adolescente e adulto, uma vez que adulto vacinado não corre o risco de contrair a doença e transmiti-la ao seu filho, antes que este esteja completamente protegido. Atualmente, poucas vacinas indicadas não fazem parte do calendário do PNI. Observa-se um aumento na proporção de casos de meningite meningocócica pelo sorogrupo W, especialmente nos estados da região sul, a exemplo do que ocorre nos países do Cone Sul, como Uruguai, Argentina e Chile, onde este sorogrupo corresponde, em algumas regiões, a quase 50% dos casos. O sorogrupo Y ocorre em uma proporção bem inferior, porém já começa a preocupar. A maior parte dos pediatras indica vacinas que constam no calendário da SBP e a Sociedade já recomenda que os reforços da vacina meningocócica, a partir de um ano de idade, possam ser feitos com a vacina conjugada A, C, W, Y. Os pais devem seguir a orientação do pediatra, com base no calendário de vacinação da SBP.